Subindo a descida

Cuidado com as escadas que você decide pegar

Faz muito tempo que eu escrevo esse texto. Escrevo, apago, salvo, altero e está assim há mais de um mês. Eu queria escrever sobre alguma coisa abstrata e foi nessa dúvida de “o que eu vou escrever” que veio o insight de abordar simplesmente sobre a dúvida.

Redundante e ironicamente, uma coisa é certa: a falta de certeza traz dúvidas de várias naturezas. Mas são elas que, paralelamente, abrem espaço para o conhecimento. Não dá para generalizar, mas, na maioria dos casos, ao esclarecermos uma dúvida, automaticamente tiramos conclusões a respeito de um assunto e tais conclusões é que nos levam a conhecer melhor os aspectos pessoais e de terceiros que precisam ser provados para serem discernidos com mais clareza. É aqui que eu encontro um ponto curioso nessa história toda.

Já parou para pensar que quando nossas perguntas, dúvidas e incertezas são resolvidas e esclarecidas, nós esquecemos depois de um tempo que aquilo incomodou por um tempo antes de obtermos respostas? Sem uma resposta, ficamos com a pergunta nos perseguindo a todo o momento e criamos variadas hipóteses na busca pela resposta que ainda não apareceu. Quando eu estava na oitava série, me lembro de uma professora de Ciências dizer que as perguntas são mais importantes que as respostas. Na época, com 14 anos, não entendi a complexidade daquela afirmação. Hoje, algumas situações me fizeram perceber que a relação pergunta-resposta possui um fator que pode mudar a ordem de importância entre eles: o tempo.

O tempo deu um jeito de fazer com que eu descobrisse o que de fato poderia ter acontecido se eu tivesse feito uma simples pergunta e transformou um “talvez”, que para mim era um ponto, em uma vírgula, só que sem nada depois, porque eu parei de tentar escrever aquela história. Eu parei a história sem ao menos dar um título para o livro. E já era tarde demais para querer continuar, porque o enredo e os personagens já eram diferentes. E o talvez acabou se transformando num “era uma vez” sem um final — feliz ou não. E eu acho que foi ali que eu percebi que o tipo mais frustrante de dúvida não é o “o que pode acontecer”, mas sim o “o que poderia ter acontecido”. Talvez não era para ser. Talvez não ia dar certo. Talvez daria certo. Talvez, talvez, talvez. Os degraus que eu pisava para ter a certeza eram de uma escada rolante no sentindo contrário. Subia um, dois, até três degraus, mas logo voltava para baixo. Tomei um último fôlego para subir tudo o mais rápido possível, mas não consegui e cansei.

No momento que eu estava sendo levado para baixo pela enésima vez, eu percebi que não era culpa da escada que eu não estava conseguindo subir: era o lugar para onde eu queria subir. A resposta não estava lá em cima de mim, mas sim, logo ali embaixo. A escada estava no sentido correto desde o começo. Era eu e a minha mania de achar que sempre sou eu quem precisa correr atrás de absolutamente tudo que me impediu de ver que o que eu precisava fazer ali, naquele momento, era só pegar a escada e descer.

Então eu deixei a escada me levar para baixo, mas de tanto demorar para tomar essa atitude, ela parou. De súbito, comecei a descer desesperadamente, e então ela começou a subir, e quanto mais eu descia correndo, mais ela subia com velocidade.

Outra vez, a escada estava no sentido contrário. E aí surgiu a pergunta que eu me faço constantemente: eu estou na direção correta dessa vez?

Uma pergunta que só o tempo vai me ajudar a responder.

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