Minhas mãos estão vazias, a culpa escorre pelos dedos

Texto passado eu falei sobre a falta de ternura, não foi mesmo? 
Mesmo eu tentando voltar a me sentir humana com coisas como essa, percebi algo terrível sobre mim, que talvez seja comum a todos nós.

Nossa vida é preenchida de culpas, de arrependimentos. Hoje vou contar a história desta pessoa, também conhecida como eu, que possui um arrependimento inquietante.

Hoje eu só escuto o silêncio. O meu silêncio. O silêncio do tempo. Mesmo quando há som, não há som. Os ponteiros, o som dos postes, do vento. Tudo faz parte desse silêncio que me resgata sempre um momento do passado quando fecho os olhos. Eu fecho os olhos, e já fazem 12 anos. Já fazem 17. 20. Eu fecho os olhos, e lembro daqueles que já passaram por mim. O quanto aprendi com eles. O quanto eu tento resgatá-los sempre com um texto ou pintura como se aquele fosse meu último adeus do mundo físico. Eu os deixo partir, sempre tentando recuperar algo que aprendi com eles.

Infelizmente a partida de hoje me mostrou o quão mau eu posso ser. O quão abdiquei minhas responsabilidades e trouxe problemas pros outros. O quanto meu egoísmo ocasionou uma cadeia de apenas raiva e tristeza. E agora, só eu e o silêncio, e o amargor pelas coisas que não fiz. Não sei se é arrependimento, pois eu sinto que aprendi como nunca na vida. Só não sei como explicar mais esta vida que escorre entre essas mãos.

A culpa que escorre pelos dedos.

“Eu podia ter feito mais” “Eu não fiz mais”. Para qualquer um que negligenciou o amor de quem mais precisava dele.

Eu nunca havia tocado um ser morto dessa forma. Eu nunca me senti tão mal e responsável por uma partida. Todos os anos que eu não lhe dei amor, eu percebi ter negligenciado ele em mim mesma. O que me falta, prejudica os outros. Os outros são reflexos de mim, das partes tristes de mim. Minha energia é muito forte, e não é tão positiva quanto parece. Hoje você partiu, e eu, ao invés de tê-la aquecido noite passada, apenas a olhei à canto do olho culpando qualquer um que surgisse em mente, só para fugir de que eu sou responsável.

Eu ocasiono todos os problemas a minha volta, porque eu sou parte deles. Entendam que não estou pensando mal de mim, na verdade estou pensando verdadeiramente sobre minha pessoa. Quando se abdica a verdade, quando se veste uma máscara, provavelmente nós nos tornamos a própria mentira. Seria hipocrisia demais dizer que eu fiz de tudo. Eu não fiz de tudo. Eu sou egoísta.

E hoje, ao sentir sua vida escorrer de meus braços, percebi o quão tola eu fui. Eu sempre fui muito estúpida. Ignorei sua importante companhia, e eu notei que seus olhos cansados refletiam uma imensa tristeza a cerca de mim. Acho que era dó. “Como pode, aquela criança tão inocente, não conseguir dar apoio a quem a amou?”

Minha mão ainda está tremendo. Eu sou responsável. Não me culpo, pois outrora isso seria ocasionado. Eu não devia ter deixado você partir, mas não há nada que possa ser feito. Eu sei que viveu uma vida plena, que muitas pessoas a amaram, mas eu, eu negligenciei com você. O quão doloroso deve ter sido você assistir meu sorriso?

E mesmo assim, eu abro as mãos, e sinto você. Eu gostaria de pedir perdão para quem não está mais aqui.