FAMÍLIA: UMA CARTA AO MEU PRIMO-SOBRINHO CHIQUINHO

Kyra Piscitelli
Aug 23, 2017 · 4 min read

PRÉVIA: Resolvi deixar aberta esta carta depois que uma amiga fez o mesmo no Medium — essa rede que nos dá possibilidade a formar um banco de textos variados e conectados no mundo tão vazio da internet.

SEGUE.

Hoje, eu estava no metrô de Toronto e recebi a notícia mais inusitada: a de que você viria (não sabia se você seria homem ou mulher e, honestamente, isso não me parece uma questão importante. Isso você escolherá sozinho depois. Fato é que aqui em Toronto eu só tenho o metrô e a casa para usar a internet. É louco e acho que você vai me achar louca quando ler isso — no seu tempo a internet será o ar.

Sua tia leva vida de estudante e vive querendo economizar. Ah é verdade que nas saídas e cafés (cervejas também, mas pera que você é só quase uma criança), eu me esqueço disso. Mas, estava em trânsito no metrô quando veio uma ligação de vídeo. DO BRASIL.

O Metrô chegaria em dois minutos e achei que podia ser importante. Atendi. Era a Miriam, minha madrinha e sua avó. Ah, ela é mandona, mas sabe pôr ordem em tudo: É virginiana. Ela adora organizar tudo, então, como eu sou da bagunça, ela sempre me ajuda e vai te ajudar também. Ela é a melhor escolha da minha mãe pra mim, mas não deixa ela saber — ela pode se sentir “toda” com isso. Acho que quando você puder ler isso até as gírias já mudaram.

Bom, no telefone, também estava o tio Nelson. Seu avô, claro. Ah, a gente é parecido e me dou bem com ele. Mesmo ele sendo mais à direita e eu à esquerda. E eu também acho que você não vai entender bem isso, mas é difícil e vai saber para onde essa política louca vai nos levar. Não sou das mais otimistas. Mas, o seu avô, ah, você pode ter boas conversas com ele e varar à noite.

Bem, eles me anunciavam uma novidade que não poderia esperar. Mandaram-me esperar. E eu, curiosa, fiquei. Era o Michel e a Dani — sim seu pai e sua mãe. Ela me anunciava que estava grávida. Eu gritei e chorei muito no metrô. As pessoas “friendly” (amigáveis) de Toronto me paravam e eu dizia que a minha prima-irmã estava grávida. “My Cousin-siter is pregnant!”. E as pessoas me davam parabéns. Você foi festejado no mundo.

Eles diziam que quase ninguém sabia — caraca que amor! E então, eu tinha que guardar segredo e me contaram que seu nome seria Francisco, caso nascesse menino. Isso me deixou ainda melhor. A outra condição maluca era eu voltar para te ver nascer. Eu terei que voltar, mas eles sabem que não quero e, quem sabe, logo estarei por aí de novo, ou aqui.

Francisco, sobre seu nome e nós
Amo seu nome e ele está ligado a uma das pessoas mais importantes que conheci. Quando eu era pequena, a minha mãe — sua tia-avó que você não conhecerá, mas vai ouvir falar muito — trabalhava demais. Então, nas férias — as minhas — ela me mandava para um acampamento. O nome era “Franciscar”. Ali, a dona Marilena tinha comigo uma relação de alma. Me contou toda a história de São Francisco e a importância da gente carregar menos ouro material e mais ouro na alma. Tinha uma música da qual eu me lembrei muito quando minha mãe morreu e me lembro até hoje quando preciso de força.

“Vai amigo não há perigo que hoje possa assustar,
Não se iluda pois nada muda se você não mudar,
Leve alguma coisa na sacola, não esqueça a viola, mas esqueça o que puder
E cuide pra não sofrer”

Essa música do Hiroshi foi até parar na novela sem o “Franciscar” no final do refrão. Quando você nascer sua tia deve ter essa palavra tatuada. Eu com certeza serei das suas tias loucas e não importa a onde eu tiver, você venha. Pode ser que eu esqueça seu aniversário, ou às vezes suma, mas eu juro que te amo muito e essa carta — escrita aos prantos é prova disso.

Voltando ao acampamento. A Marilena morreu uns quatro anos depois no dia de São Francisco. Não sou religiosa, mas sou espiritualizada e ela realmente era filha dele. E eu um pouco filha dela. Bem, eu todo 4 de outubro rezo para ela me iluminar. E, por isso, na hora mais difícil, eu me lembrei da música.

Então, levo a simplicidade de São Francisco comigo. Eu tento. Não sou muito simples, na verdade. Mas, ajudar o próximo é uma das minhas missões sinceras. Não, não em grandes feitos, mas pequenas ações diárias. Vou te contar essa história muitas vezes.

Eu até se tivesse um filho teria seu nome. Acho que isso não será possível nessa vida. Sua tia tem espírito livre. Mas alguns amigos até sabem disso. Certa vez, eu tive quase certeza de estar grávida.

Bom, meu sobrinho-primo, eu fico feliz que a Dani e o Michel tenham escolhido esse nome. Sua tia se vê contemplada e já cheia de amor nessa maré de coincidências da vida. Vou sempre cuidar de você e tentar te fazer ver o quão bonito é seu nome. Você carrega a simplicidade e a esperança de um mundo melhor.

Eu não sei como será o mundo quando você ler isso. Eu não confio nos caminhos da humanidade e espero errar. Sei que você é mais um motivo para lutar e persistir….

Com um amor do tamanho do universo,

Kyra Piscitelli
(julho de 2017)

)

    Jornalista apaixonada por histórias, arte, teatro, culturas e viagens. Escrever é minha terapia e compartilhar ideias a minha satisfação. Vamos juntos?

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