VIAGEM: A (QUASE) INEVITÁVEL DEPRESSÃO PÓS-INTERCÂMBIO

Aqui é um relato nu e pessoal sobre as minhas duas últimas semanas após um pouco mais de quatro meses em Toronto. Apesar de pessoal, eu acredito que ele tenha muito em comum com todos que se propõem a tal experiência.
Eu, particularmente, sou viajante solitária. Gosto de descobrir meus mundos e os lugares. Mas, nunca fico sozinha muito tempo. A verdade, é que apesar dos 30 anos, eu prefiro um museu a uma balada.
Foi depois de sair de um emprego que há certo tempo não me cabia mais que vendi um carro e parti para o mundo. O destino era o que eu poderia pagar por mais tempo e aprender inglês. Eu já não sabia se seria capaz. Eu tentei isso muitas vezes e fracassei em todas.
Fui. Parti. Sem esperar nada. Não esperar nada é maravilhoso. Meu Deus! A gente realmente se decepciona menos e curte mais. Toronto foi incrível. Ali, eu de forma estranha, desfiz estereótipos, conheci gente do mundo todo, voltei com alguns casos de amor e de amizade na bagagem. Vivi e aprendi o tal inglês.
Mais do que me desafiar, eu cresci. Entrei em contato comigo mesma, eu escrevi para o blog da Ci (Agência de viagem) e lembrei o porquê escolhi jornalismo. Provavelmente, pela razão errada. Lembrei-me de Gay Talese em “Vida de Escritor”. Mas, eu me encontrei, entrei em uma curva produtiva, cavei oportunidades, vivi ideias que pareciam sonho.
Perto de voltar eu não sentia nada. Muita gente é acometida pela síndrome da última semana com um desespero único. Quer dizer, na minha despedida, eu quase voltei a pé para “enjoing the city” (curtir a cidade). Mas, no geral, me sentia bem.
A VOLTA
No avião também. Uma sensação de poder e dever cumprido. Foi quando uma amiga me ligou na minha volta — ainda dentro do avião — que eu percebi a “ressaca” que estava. Eu era seca e grossa com alguém que tanto amava: não queria voltar para ali. Sim, óbvio! Foi pouco tempo para perceber que eu sequer sentia saudade da maioria das pessoas. E olha que vida de estudante é boa, mas é cansativa e, no meu caso, regada a economia.
Bem, eu dormi acho que dois dias. Na segunda estava doente. Gripe, sinusite. Tudo emocional. Inércia. Corri para o teatro, onde eu sempre me senti em casa. Nada. Sem emoção. Meu Deus! Como faço paraeu voltar? Dos eventos familiares e de amigos pouca vontade.
Perai. Já passei um tempo no Peru e não fiquei assim. Por quê? Choque de realidade. A gente se acostuma com a segura, com a vida que é boa, com o que faz bem. A gente não quer se chocar, mas se sente assim. É como se o mundo parasse e você que mudou tanto voltasse ao mesmo ponto. Por outro lado, a gente perde festas, aniversários e deixa de participar de tanta coisa.
No Peru não senti isso, pois eu era a “latina” em meio aos Europeus. A realidade era semelhante a minha e os do “norte” vinham aprender comigo como fazia. E mais, ali, bem, eu já falava espanhol bem. Eu entrei no avançado dois — o último que tinha lá antes da proficiência.
É um vazio de tudo. E de uma vida real que te assola e cobra. Você pode falar inglês agora, pode se virar e o mundo continua injusto, desigual e o que você aprender pode ter muito valor para você e nenhum para mais ninguém.
Intercâmbio é um encontro interno que te faz mais solitária. Talvez seja isso. Sem bengalas, família, os de espírito livre como eu, jogam-se no mundo e crescem. Quando voltam apequenam-se no mesmo mundo de antes — tendo mudado tanto. Valerá a pena? Vale. Sempre vale. Nem que seja para descobrir que é hora de voar — se a asa gritar muito, abre a gaiola.
Senão você volta, a gente sempre volta para o que é da gente na essência. O problema é que o mundo não espera nosso tempo e o ser humano, além de insatisfeito e contraditório por natureza é também ser impaciente preso na sua caverna. A gente quer sempre ter certeza do futuro. Mas, se surpreender. Ah, se surpreender pode ser a chave da “ressaca” após um sonho.
