Hora do Almoço

São 11:16 da manhã, porra! E os meus olhos estão ardendo.
 
 Decidi fazer meu almoço, tô cortando cebola.
 Disseram que se molhar a faca com água, você não chora.
 Mentiram.
 Tento me animar no processo depressivo de confecção do meu alimento, para que este fique minimamente comestível.
 Meus olhos tão ardendo.
 Coloco uma música no notebook, começa a tocar uma dessas que falam de superação, curtir a vida e bobagens afins.
 Enfio a cebola já cortada em óleo quente e vou lavar meu rosto.
 Merda! Meus olhos estão vermelhos.
 Volto e corto alguns pedaços de frango. Desisto.
 Jogo o frango na panela, ele parece gritar baixinho soltando uma água escrota.
 Acendo um cigarro enquanto espero ferver. As músicas vão rolando, vou me sentindo animado.
 É meu almoço que está em jogo!
 Tempero da melhor forma que posso — Parece ter ficado bom! — pensei.
 Jogo água, cubro com a tampa (QUE TAMPA?) e agora é só esperar terminar de cozinhar.
 Aguardo ansiosamente o cozimento. Reflito sobre o futuro da humanidade.
Me parece pouco favorável.
 
 Nesse meio tempo já rodou quase meia hora, são 11:43. Preciso comer às 12.
 O frango tá quase pronto. Requento um arroz que estava na geladeira, um resto de salada.
 
 12:09
 Finalmente, alimentação.
 
 Como de pé, encostado no balcão da cozinha, as músicas vão rolando aleatórias.
 Como empolgado as duas primeiras garfadas e…
 
 “[…] No fundo do prato comida e tristeza
 A gente se olha, se toca e se cala
 E se desentende no instante em que fala
 Medo, medo, medo, medo, medo, medo”
 
 Porra, Belchior! Eu só queria comer! Depressão uma hora dessas?
 Tento terminar a refeição da melhor forma que posso: engolindo tudo.
 Termino de comer, tomo um gole de água. Vou lavar a louça.
 
 Engraçada a textura da pele depois que a gente usa detergente.

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