Madrugada

Mais de duas da manhã. Já foi um litro e meio de café. Minha gastrite grita! Perdi a conta dos cigarros que eu fumei e não sinto as pernas de tanto tempo sentado nessa cadeira. Deveria existir uma lei federal que impedisse um ser humano de estudar as regras da ABNT depois das dez da noite.

Tenho dormido pouco, meus olhos expressam perfeitamente uma obra de Edvard Munch: tons de cinza, vermelho, roxo e pele morta. Toques de desespero e depressão (um misto lindo pra quem pensa a noite num pessimismo vital).

Fico feliz que não dê mais tempo de desistir, “tá quase no final”, “tá acabando”, “tudo vai melhorar, vai valer a pena”. Muitas pessoas veem essas frases (des)motivacionais como esperança. Que tipo de esperança preconiza o fim ao invés do momento? E-s-p-e-r-a-n-ç-a. No dicionário diz que esperança é sinônimo de confiar. Penso diferente, esse tipo de esperança que as pessoas defendem é o simples movimento de esperar por um futuro melhor, de maneira meio passiva, como uma gestante na sala de parto de uma clínica clandestina de um país do leste da Ásia, ou seja, tem tudo pra dar errado mas a gente segue acreditando que um dia vai dar certo. “Vai dar certo!” é a expressão popular mais insuportável que existe (eu também uso). Por que merda a gente diz “vai dar certo!” se a gente não se ajuda a fazer dar certo? É como esperar uma resposta de Deus. Um Deus que Nietzsche fez o favor de constatar a causa mortis. Muito provavelmente por isso tenho vivido os dias sentindo meu coração batendo como em uma marcha fúnebre. Isso o quê?Te confesso que não faço ideia também. Não, eu não sou tão pessimista assim. Adoro o raiar do sol, o canto dos pássaros, a risada das crianças e esses clichês fofinhos. Meio rabugento, talvez, mas existem graças na vida que me alegram os dias. É uma delícia viver! Mas não existe modo de se deliciar sem destruir. É como mastigar e sorver um pudim de leite. É gostoso, mas a gente precisa destroçar o miserável do pudim com os dentes, empapar com saliva, esfregar o bolo recém-mastigado na língua para sentir o sabor.

Acho que já deu. Após muito tempo sem escrever fica muita coisa guardada. As memórias acabam se misturando e o texto perde um pouco do foco. Me deu fome falar de pudim, um pudim trágico, mas ainda assim um pudim.

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