Stephanie

Na ponta final do 12º ano todos os alunos finalistas andavam preocupados com as suas escolhas de ensino superior e atarefados com logísticas e burocracias adjacentes às mesmas. Não raras eram as vezes que me perguntavam se já tinha o documento x ou o impresso y. Respondia sempre com três frases: não vou estudar cá. Em setembro vou viver para Espanha. O meu pai vive lá.

Por vezes a minha resposta dava para uma conversa mais longa mas na maioria das vezes o meu interlocutor lembrava-se de que já lhe havia confessado o plano para os próximos anos da minha vida. O verão de 2011 passou-se sem que me tenha verdadeiramente apercebido de que aquela era a ultima vez que ia viver com a minha mãe.

Mudei toda tralha dividida entre quarto, sótão e garagem para divisões semelhantes da casa minha avó paterna e aí, a quinze minutos da morada onde não iria mais viver, permaneci até ao final de agosto; a minha mãe também iria emigrar, para França, precisamente. Os cerca de três meses vividos na aldeia sucederam-se a uma velocidade sintomática da mudança que estava prestes a fazer no curso da minha educação, dos meus círculos sociais e da minha vida.

Cerca de mil e trezentos quilómetros separam Leiria de Girona. Se de avião demora pouco mais de hora e meia, de automóvel a viagem tarda um dia. O meu pai tinha vindo passar as férias de verão e coordenou a sua volta com a minha ida. Saímos cedo, com o carro bem carregado. Para trás ficavam dezanove anos de vida em várias zonas do distrito de Leiria: Praia do Pedrógão, Vieira de Leiria, Marinha Grande, Leiria e, nos tais últimos meses, Monte Redondo. A mudança era algo até ali constante na minha vida e os mais de mil quilómetros entre as duas cidades não me impressionavam.

Nunca tinha vivido com o meu pai e isso era o que mais me entusiasmava. Nunca tinha vivido com a companheira dele e isso era o que mais me preocupava. No entanto, a mudança não era assim tão trágica: desde 2005 que ia frequentemente a Girona passar férias. Já sabia que não ia ser como viver com uma mãe, que não ia ter o mesmo à-vontade com aquela pessoa nem que esta teria tanta paciência com um filho de outro.

Curiosamente, iria estar mais perto da minha mãe, visto que se tinha mudado para Lyon, tornando próxima uma relação de longa distância. Agora, ao viver com o namorado naquela cidade francesa, estava a cinco horas de viagem. Tanto eu como as minhas tias sabíamos que era uma decisão um pouco arriscada, mas sem filho nem emprego em Portugal, a ida apresentava-se como o mais adequado dos cenários.

Há mais de dez anos que o meu pai vivia em Girona, uma das quatro províncias catalãs, cem quilómetros acima de Barcelona. Lleida e Tarragona completam o leque. O objectivo passava por me formar em direito e aproveitar a oportunidade de trabalho concedida pela situação laboral da Pilar, a mulher do meu pai. No entanto, o processo de convalidação das notas do secundário entre Portugal e Espanha obrigaram-me a ficar um ano sem estudar.

Cheguei àquele que desde 2005 era o meu quarto de férias, na altura definitivo. Paredes brancas, uma janela que se abria na vertical, cama e uma secretária compunham o espaço. A barra de ferro que servia de suporte ao cortinado era preenchida por pequenos medalhões que então seguravam o tecido. Nos meus primeiros anos naquele quarto conseguia ver caras nesses medalhões — um dos vários casos de pareidolia da minha adolescência. Tratava-se de dois parafusos e uma abertura mais comprida, apenas.

Girona, sendo a província mais a norte da Catalunha, é também o lugar onde o catalão tem maior influência; desde logo, como factor de integração ou de diferenciação. Não que seja imperativo saber falar espanhol para se estudar a língua catalã, a aprendizagem destes dois idiomas foram a minha primeira tarefa naquele outono de 2011. A isto juntaram-se a ajuda no escritório do meu pai e alguns estudos específicos na área da avaliação imobiliária.

Para chegar à Escola Oficial de Idiomas, a pé e desde onde morava, não fazia sentido algum passar pela Estação de Comboios de Girona mas, a partir de certo momento, entrava e saía do terminal praticamente todos os dias, duas entradas e duas saídas, sem entrar em qualquer comboio.

As aulas começaram por meados de outubro, e o horário preenchia todas as manhãs; as de catalão, lecionadas sem custos para o aluno, na Casa da Cultura de Girona, ocupavam uma hora e meia entre as sete e meia e as nove da noite de terças e quintas-feiras. Este último horário provou-se ser talvez o pior timing de sempre para o ser humano tentar aprender o que quer que seja. Ou então apenas eu sofro de sono incontrolável nessa altura do dia aquando sentado a ouvir alguém.

Certo dia, que aparentava ser mais um nesta nova vida de emigrante, a minha mãe, que estava em Lyon, ligara ao meu pai e assim que este me disse do que se tratava a chamada tudo parou. Nada mais interessava do que ligar-lhe de volta. Entre indicativos errados e uma chamada para um alguém cujo mundo estaria bem melhor do que o meu lá consegui chegar ao contacto com a minha mãe.

- Estou? O que é que se passou? Como assim estás fora de casa? — perguntei incrédulo com a voz tiritante.

- Sim, André. Tem calma. Ele pôs-me fora de casa. Não percebo bem o que se passa mas não posso ficar aqui — retorquiu sem qualquer esperança na vida que já lhe havia pregado tantas partidas.

Disse-lhe para não se preocupar. Garanti-lhe que a ia buscar assim que fosse possível. No dia seguinte eu e o meu pai arrancámos até La Verpilière, ainda a alguma distância de Lyon. Com o troglodita — que mais tarde soubemos que sofria de bipolaridade — fora de casa, carregámos os bens de uma vida para o carro e resgatámos a minha mãe de uma vida tão promissora quanto utópica.

Éramos agora quatro a viver no mesmo apartamento: o homem, a mulher, o filho do homem, a mãe do filho e ex-mulher do homem. Probabilidades de correr mal? Todas. Só faltava o cão e o gato, diriam. Pois bem, só faltava o gato. Boira, cocker de 7 anos louca por comida e com hálito inenarrável, também pertencia ao agregado familiar.

Cedi o meu quarto à minha mãe e acomodei-me noutro menos preparado mas satisfatório. Cozinha e limpezas passaram a ser tarefas da minha mãe, que encontrou aí a única maneira de contribuir a imensa gratidão de uma mulher de um homem para a respectiva ex-mulher. Passámos a ir juntos para as aulas de catalão, enquanto duraram. No entanto, foi ao melhorar o espanhol que mudei a minha vida.

- Chamo-me Stephanie, tenho 20 anos e sou da Califórnia — disse num espanhol centro-americano uma rapariga baixinha, num encadeamento de apresentações.

A turma era composta maioritariamente por pessoas acima dos 25 anos; algumas brasileiras, uma chinesa e outras da europa de leste. O professor chamava-se Juan António, estava na casa dos 40 e marcou-me quando me disse que eu tinha uma pronúncia portuguesa muito forte. Ingenuamente achava que todos me entendiam. Tanto isso não era verdade como passou a ser tendência falar inglês nas aulas de espanhol. Ainda que estes dois factos não tenham sido consequência um do outro.

A palavra Califórnia soou no meu cérebro como o som de um assobio para cães, aquele que os torna incrivelmente atentos. A curiosidade acabou por se parcialmente desfeita numa conversa iniciada por mim, começada em espanhol e terminada em inglês, desde a escola até à estação, onde Stephanie apanhava o comboio.

Baixa e morena, de sorriso na cara e trato fácil, quente, mexicano, Stephanie estava na europa ao abrigo do programa Au-pair, que facilita a ida de jovens para outros países ou continentes. Os interessados propunham-se a ensinar a língua materna aos miúdos de quem iam tomar conta — um híbrido entre babysitter e professor de línguas. Em troca viviam em casa da família de acolhimento; tornavam-se mais um. Assim aconteceu com Stephanie: ensinava inglês ao Pep, à Joana e à Gina enquanto tomava conta deles. De sexta a domingo tinha toda uma Europa por explorar.

Quando a conheci, já Stephanie tinha o seu grupo de amigas, com quem percorria as ruas de Barcelona, pois em Girona não havia assim tanto para fazer, nem os seus homólogos eram de lá. Rapidamente contribuí para esse conjunto tão sui generis de nacionalidades. O nosso convívio foi passando as linhas da amizade e por volta de novembro perguntei-lhe o que nunca tinha perguntado a nenhuma mulher. Stephanie partilhou o meu sentimento e a partir daí vivi os melhores e piores momentos da minha vida.

Stephanie, que com as amigas iria ficar a conhecer Paris, Budapeste, Londres, Roma e Florença, despertou em mim o espirito de explorador. Juntos viajámos mais do que alguma vez imaginara: festas em Ibiza, bicicletas em Amesterdão, San Fermines em Pamplona, praia em San Sebastián e tapas em Sevilha e Granada; muitas incursões por Barcelona e uma passagem de ano em Portugal.

A nossa relação foi-se adensando de forma algo despercebida; nos finais de Dezembro amávamo-nos. Stephanie era a parte mais emocional, espontânea e despreocupada do casal. “Pensas demasiado nas coisas”, dizia-me mais vezes do que eu queria ouvir. De facto, tinha razão, mas eu gostava de ser assim. Sempre quis ter o controlo da realidade que me rodeia. A surpresa e o inesperado têm lugar limitado na minha vida.

No oitavo ano a minha professora de físico-química desabafou, imprevisivelmente e sem propósito aparente, que apenas na ciência os opostos se atraem. A frase na altura passou-me completamente despercebida. Era evidente que o nosso carácter era diferente um do outro, pelo menos eu via-o claramente. No entanto, não foi tal facto que abalou a vontade de estar com Stephanie. Na altura, um amor e uma cabana era o mote; ainda que com frequentes discussões pelo meio.

Stephanie estava fora de casa e do seu país. Do seu próprio continente, até. Este pensamento assolava-me mais vezes do que desejava. Na verdade, até eu queria pensar menos nas coisas. Contei-lhe, pragmático e realista, sobre a minha visão do romance, que, como se de algo que se deteriora com o tempo se tratasse, tinha prazo de validade. Como miúdos cheios de esperança, valendo-se de máximas úteis apenas nos livros de ficção, concordámos em que o importante era querer. Tudo mais viria por acréscimo. Tal como no mais recente filme de David Fincher, o resto era barulho de fundo.

A vida a quatro tinha-se provado impossível e em Janeiro eu e a minha mãe fomos viver para outro apartamento — um bom negócio remanescente do espólio imobiliário espanhol, dizia o meu pai. Stephanie e a minha mãe acabaram por desenvolver um a forte relação. No final de um serão a três, confidenciou-me que era absolutamente vital para ela que eu e a mãe dela nos dessemos bem. Nunca tinha pensado muito nisso. Também nunca tinha conhecido uma “sogra” e com esta a dez fusos-horários de diferença essa não era uma preocupação muito presente. Pouco tempo depois deixou de estar ausente.

Os meses de primavera chegaram com a eminência do regresso de Stephanie à Califórnia, que ainda assim conseguiu adiar a data já há muito definida para Junho. Entre viagens, fins-de-semana prolongados e jantares seguidos de filmes — o conforto da normalidade de uma relação — surgiu a solução temporária para a relação que brevemente seria à distância, se é que tal coisa existe: iria até à Califórnia.

O meu pai, que tem tanto de tipo porreiro como de patriarca exigente, compreendeu com naturalidade inesperada que a viagem se tratava de uma oportunidade que tão brevemente não se viria a voltar a proporcionar. Mais do que adepto de uma boa história de amor e de reunião, ele viu aquela como uma jornada de crescimento pessoal. Impossível era ter estado mais certo.

Até lá chegar nunca percebi bem a magnitude que uma viagem desta natureza carregava. Acordei com o meu pai que contribuiria de maneira mais afincada no escritório de forma a compensar o grande investimento que estava prestes a fazer. Depois de várias pesquisas de voos e de ler alguns artigos sobre conselhos de viagens, propus-lhe ficar um mês na Califórnia. As datas ficaram definidas em sete de agosto e nove de setembro.

Um mês e pouco separou a minha viagem da de Stephanie, que me foi buscar a LAX, o aeroporto de Los Angeles. Cerca de sete horas antes estava a sair no nono terminal de JFK, algures por Nova Iorque, sozinho e sem telemóvel funcional, atordoado pelo jetlag mas atento pela urgência de me orientar num mundo completamente novo. Depois da travessia Barcelona — Nova Iorque seguia-se a etapa complementar: Nova Jérsia — LAX. Aquando da compra do bilhete, dava como garantida a deslocação entres os dois estados contíguos por parte da American Airlines; no entanto, essa viagem tinha de ser organizada à minha conta, esclareceu-me o operador da companhia.

Saí à rua e, num inglês limado por Stephanie, perguntei a um segurança afroamericano qual a melhor forma de chegar a Nova Jérsia. Dois autocarros faziam o percurso: um do aeroporto ao centro de Nova Iorque, que me valeu uns quinze minutos na cidade — um bónus da viagem -, o outro percorria os cerca de quarenta minutos que separavam o Grand Central Terminal do Aeroporto Internacional de Newark.

Nada fã de transportes públicos, nunca me imaginei tão extasiado a andar de autocarro. Tudo o que via pertencia ao meu imaginário cinematográfico e fazia-me certa confusão a ficção misturar-se com a realidade. Desde os enormes edifícios até aos táxis amarelos, passando pelos cemitérios verdejantes, o trajecto despertava novas sensações a cada quilómetro.

- Já não vou para novo e alguns de vocês têm malas muito pesadas, por favor, não se esqueçam de deixar gorjeta — repetia o condutor do autocarro que fez a travessia entre estados. A mensagem dita combinava com a escrita, logo à entrada do veículo, em letras garrafais “Please tip”.

Sentia a necessidade de comunicar com Stephanie e na fila de embarque para o voo doméstico abordei de forma veemente um rapaz descontraído que após perceber a minha situação me deixou mandar uma mensagem. No meio do agradecimento ele mostrou-me o telemóvel com a resposta de Stephanie. Sorri e agradeci uma vez mais. Na sala de espera para a entrada no avião percebi que o meu telemóvel funcionava quando o meu pai me atendeu uma chamada sem esperança.

Los Angeles apresentava-se muito diferente de Nova Iorque, com se de outro país se tratasse. De resto, a distância que separa as duas cidades costeiras é sintomática disso mesmo. De um clima cinzento preenchido por um plano urbanístico sobrelotado passei para uma brisa temperada, semelhante ao sul de Espanha, onde a alta-finança dava lugar à expressão artística.

As duas horas de carro — até ao Coachella Valley, onde vivia Stephanie — passaram-se rapidamente, ocupadas com os mais recentes acontecimentos, conversa típica de reencontro. Poucas vezes falei inglês com os familiares de Stephanie. Talvez com o irmão, de quem ela dizia amar mas não gostar.

Na verdade, Stephanie chama-se Estefania, facto que até ela própria parecia esquecer. Os pais atravessaram clandestinamente a mais bem guardada fronteira do mundo. Todos os dias milhares de mexicanos continuam a fazê-lo em busca de uma vida melhor. Fronteira que eu próprio iria cruzar.

A diferença climática entre Nova Iorque e Los Angeles tornou-se mínima quando abri a porta do carro no parque de estacionamento de um enorme mas rasteiro edifício com as letras WALMART pintadas na fachada. Mais do que quente, o ar abafava qualquer movimento do corpo. Como se numa lavandaria a céu aberto tivesse acabado de entrar, aquele era o clima habitual de verão; tão insuportável para visitantes com para locais, explicara-me Stephanie.

Dentro da cadeia de hipermercados mais conhecida dos Estados Unidos pude tecer uma analogia com o resto do país: famílias às compras à uma da manhã espelhava uma economia que não dormia, uma vida social marcada pelo trabalho e uma ténue distinção entre dia e noite, semana e domingos ou feriados.

O mês na Califórnia também coincidiu com o período em que mais convivi com Stephanie, o que, por sua vez, resultou no espaço de tempo em que mais discutimos. As discussões começavam por discórdias banais e acabavam em dúvidas existenciais. Cada viagem que fazíamos tinha sempre uma discussão e essa realidade tornava-me cada vez mais hesitante em relação ao futuro. Um amor que em tempos me fazia querer desistir de tudo estava a esgotar-me de maneira não anunciada.

Visitámos as praias de San Diego e de Carlsbad; percorremos a marginal de Santa Monica a Venice, cidade emblemática da série Californication. A experiência em 3D da viagem temática dos Transformers no Hollywood Universal Studios entrou para a primeira posição das já vividas em outros parques de diversão. Atravessámos o deserto até Nevada e jogámos nos mais famosos casinos de Las Vegas — destino que chegou a ser disputado com San Francisco mas que foi escolhido pela proximidade.

Quando cheguei, a mãe de Stephanie ainda estava de férias no estado mexicano de Chihuahua. Alguns dias depois fomos buscá-la a uma cidade mexicana fronteiriça — o preço do voo doméstico compensava a viagem de três horas. Entrar no México a conduzir, apesar da presença policial, é uma travessia tão natural como a da fronteira ibérica. Mais complicado era regressar. Os homens parcamente vestidos, com vinagre e farrapos nas mãos, empenhados a lavar os para-brisas, entretinham os condutores numa longa fila de trânsito que terminava perto dos cães farejadores de droga, já em solo americano. Stephanie cansara-se na viagem de ida e era eu quem pegava no volante do Chrysler Voyager, também conhecido como carrinha de soccermom. Ainda a alguma distância do pórtico, nas nossas mãos já estavam os respectivos passaportes; a minha segurava também a licença internacional de condução, emitida a trinta de Abril de 2012. Até a entrada nos Estados Unidos pensei num sem-fim de perguntas que me fariam, mas o agente da patrulha de fronteira ignorou completamente a minha nacionalidade e preocupou-se com a mãe de Stephanie, que passou sem problemas.

Do conjunto de viagens que percorremos, a ida ao observatório de Los Angeles, após apreciar de perto o Hollywood Sign, foi a que mais me marcou; não pela paisagem que o local oferecia — a vista panorâmica sobre LA e os respectivos contornos da linha do horizonte -, mas pelo que Stephanie me disse, algures entre representação de planetas.

- Parece que não me amas mais — atirou, esperando estar errada.

O meu amor por Stephanie não tinha diminuído; o mal-estar, esse sim, tinha aumentado. Começávamos a ressentirmo-nos. As contas à vida tinham evoluído para equações de segundo grau. Dali a pouco tempo estaria a um oceano e um continente de distância empenhado numa relação amorosa que mais drama trazia do que satisfação.

A data de regresso tinha sido definida em função do aniversário de Stephanie — cinco de setembro -, dia que quis, naturalmente, presenciar. Os três dias de intervalo passaram com a sensação de que ali morria um amor que poderia ter sido para vida. Numa outra altura, num outro lugar, talvez tivesse resultado. No entanto, nada terminara entre nós.

Depois de me despedir de Stephanie sem saber quando a iria voltar a ver, atravessei os Estados Unidos numa escala até Miami. Três horas de espera separam-me do voo que me levaria, de novo, ao velho continente. Cheguei a Barcelona com o corpo derrotado de uma luta contra o tempo e um coração combalido. No dia seguinte, quando acordei, a minha vida não fazia qualquer sentido.

Semanas depois entrei na universidade, conheci novas pessoas e a distância entre mim e Stephanie ia passando os factuais dez mil quilómetros. A minha vida foi mudando, os objectivos alteravam-se e o espaço para uma relação à distância ia-se esvaindo. Através das aplicações móveis o nosso contacto virtual era permanente mas escasso. Uma relação precisa de corpo, de toque e de cheiro.

Sem perspectivas nem romantismos, expliquei a Stephanie o futuro que augurava para a nossa relação: sem dinheiro, sem estabilidade e sem maneira de estarmos perto um do outro. Chorei eu e chorou ela. Acabei uma relação por mais razões do que as intermitências do amor.

Hoje, Stephanie está casada e é mãe de uma bebé de sete meses. Ainda esta semana falámos. Ainda este mês me disse que era o amor da vida dela.

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