a vida adulta é uma droga.

nunca senti ódio de ninguém. meu coraçãozinho infantil e doce sempre foi recheado de sentimentos bons e purpurina. ódio sequer era uma opção. contudo, a gente cresce. a purpurina continua, mas reluz um pouco menos. os sentimentos bons ficam, mas num cantinho bem menor. e o pior de tudo é o que o ódio passa a ser uma opção, uma opção palpável.
meu choque de realidade de sair da infância e entrar na vida adulta foi duro demais. foi tudo muito confuso.
meu castelinho frágil de verdades que criei e que me erguiam como pessoa, mesmo que um projeto de pessoa, -que deu meio errado, afinal- foi destruído todinho. da forma mais abrupta possível, deixou nem história para contar. bombardeado por verdades não criadas por mim, mas berradas na minha cara.
me deu medo e fez minha cabeça doer. me frustrei descobrindo a vida mais do que deveria, doeu muito.

pessoas nas quais você confia, mentem. e erram. e as vezes se arrependem, o que é glorioso. as vezes não, o que é triste. elas não são perfeitas, não importa o quanto pareçam ser. e coloca-las em um pedestal é a maior tolice que se pode fazer, por mais que você as ame.
isso me frustrou de uma forma absurda.
eu não podia mais olhar para o meu pai e ver o super-héroi que via antes, eu tinha que ver uma pessoa. e pessoas, como eu tinha recentemente descoberto, mentem. com ele não seria diferente. mas ainda sim não senti ódio, senti decepção. mas o perdoei e foi aí que eu vi que as coisas podem dar certo em alguns momentos.
porém essa foi a primeira das vezes, teve muitas. ainda tem.
o mais recente deles, quando achei que tinha acabado os gritos na minha cara de verdades destruindo as minhas, essas que comecei a construir de novo em um castelo, mesmo que dessa vez menos glorioso que o primeiro, foi o fato de que pessoas são más. recaiu como uma bigorna sob o castelo ainda em construção.
de alguma forma e por algum motivo, elas são. pode ser que não sejam para sempre ou mesmo que outrora não foram, mas no momento, elas são.
pessoas são más e fazem de tudo para se satisfazer. seja seu desejo bizarro e meio tosco por uma atenção esquisita, seja por uma frustração de não estar onde se quer estar… ou tudo isso junto e algo mais. ou nada disso e coisas diferentes.
esse fazer de tudo inclui infernizar a vida de outras pessoas. elas inventam mentiras (não, ele nunca a traiu comigo), elas vão mais baixo do que o próprio demônio no inferno somente para sentir seu ego reluzir um pouco (cada palavra postada naquela rede social me causou ânsia de vômito), elas tocam numa ferida quase fechada pelo simples prazer de te ver mal, e de ver outrem rindo do sangue que escorre (afinal a dor do outro sempre é espetáculo para quem não tem absolutamente mais nada para fazer). e dessa vez eu senti ódio. ódio misturado com medo e pena -muita pena- mas ainda sim ódio.
ódio por ver que pessoas podem ser isso, e podem ser pior que isso se quiserem. ódio por ver uma plateia inteira, tão tosca quanto a atração, se esgoelando em gritos de animação. ódio por não conseguir fazer muita coisa quanto a isso, mesmo que me atinja. pena por saber que o que causa essa maldade é um déficit de si para si, de algo importante, mas que por ser um ser tão banal, o indivíduo deixa de lado e vai se fantasiar de algo que não se é. mas se torna depois de um tempo. pena por ver que de fato tem gente que se presta a esse papel (rs).
as pessoas são más e mesmo eu me culpando por tudo, aprendi, com uma pessoa que acendeu em mim a espera de que nem todas elas são assim, que a culpa não é minha por faltar empatia em alguns. o que me resta fazer é sentir muito, e esperar para que algum dia verdades sejam berradas para elas também, e elas consigam enxergar bem além do que o próprio umbigo.

a vida adulta é ter que lidar consigo e suas insuportáveis mudanças e ter que lidar com pessoas e toda a falta de noção que elas podem sair despejando pelo mundo. é ouvir os berros de verdades que quebram outras sem abaixar a cabeça, como em um quartel general.
a gente repete “vai dar tudo certo. vai dar tudo certo. vai dar tudo certo” o tempo todo sem parar, como um mantra. as vezes até dá, mas a vida vem e se enfia no meio e faz não ficar tão certo assim. porque essa é a vida adulta, e todo adulto é um pé no saco.

acho que hoje é só um dia meio ruim.

mas eu ainda tenho fé nas pessoas, só em algumas que não.

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