A sua disciplina te traz liberdade?

Por Xenya Bucchioni

Little Oil Art

Parece uma enorme contradição aproximar essas duas palavras: disciplina e liberdade. Aliás, durante muito tempo foi, exatamente, isso que eu pensava. Liberdade, para mim, era privilégio de poucos — ou daqueles que tinham dinheiro sobrando ou de quem decidiu viver a vida num eterno carpe diem.

Independente da imagem alimentada na minha cabeça, a sensação de liberdade vinha sempre acompanhada por doses do sentimento de irresponsabilidade. Mas isso, não foi algo que eu percebi de imediato — muito pelo contrário.

Todo dia meu pensamento me levava sempre para a mesma armadilha. Checar o e-mail, responder as mensagens mais urgentes, agendar compromissos, agendar reuniões, agendar entrevistas. Agendar, agendar, agendar. Preparar entregas, finalizar arquivos. Mais alguns e-mails, ligações e pronto. Ou melhor: nem tão pronto assim.

Quando tudo parecia concluído, triste engano. Outras demandas entravam em cena — o supermercado, as roupas, o jantar, a casa…

A lista de tarefas parecia não ter fim. E o que acontecia? Na ansiedade de tirar as coisas do colo, o que eu realmente queria fazer ficava para trás.

O dia em que visualizei que eu mesma me colocava lá no fim da minha lista, naquele item das atividades “para quando der tempo”, chorei por uns bons minutos. E pensei:“Como você pode ter sido tão severa com você?”.

Capricorniana que sou, confesso que, até então, achava o máximo ter o e-mail sempre em ordem. Sentia-me ultra responsável e eficiente, sem perceber que, na verdade, eu vivia o looping mental da próxima tarefa da lista, que podia, inclusive, surgir camuflada.

Encontros familiares, almoço com amigos, aniversário das amigas, mensagens de whatsapp, Facebook. Nem sempre identificamos os momentos de descontração como tarefas. Mas é só observar mais a fundo e rá: a lógica do check list aparece ali, vivinha da silva.

Quando passei a duvidar de tudo aquilo que eu achava que tinha que fazer, as coisas, finalmente, começaram a mudar.

E foi aí que a disciplina entrou em cena!

Você pode passar a vida buscando ajuda sobre a melhor maneira de continuar fazendo o que você acha que tem que fazer

OU

você pode escolher fazer o que quer fazer e descobrir, na própria ação, como quer viver.

No primeiro caso, a disciplina pode ser uma ótima aliada. Mas, em vez de libertar, ela aprisiona, pois não vem acompanhada de mudanças no plano do pensamento, do comportamento e das emoções.

Sem liberdade, a disciplina é uma imposição — que pode vir de fora ou de dentro.

A gente se esquece, mas a autoridade interna, às vezes, é o nosso pior inimigo. Seja por fatores sociais ou culturais, ela tem o poder imenso de condicionar muitas das nossas ações.

Basta pensar na frequência de frases usadas mentalmente — “eu tenho que”, “eu preciso” — para entender que, embora esse tipo de disciplina possa ajudar a completar as tarefas, carrega consigo um senso de obrigatoriedade sufocante.

No segundo caso, a disciplina entra em sintonia com o modo como você harmoniza a sua vida com os seus valores e estabelece seus próprios limites. Desprovida de um ideal, ela emana da própria ação de viver.

Sem autoridade, a disciplina é liberdade. Ela brota de modo natural e espontâneo.

A gente se esquece (de novo!), mas podemos escolher como viver. Assim como um rio, cada vida tem seu fluxo e, na própria ação de fluir, vai criando sua própria disciplina.

Esse caminho se trilha quando se aprende a usar, especialmente para si mesmo, algumas palavrinhas mágicas como, por exemplo, "não", "chega!", "basta!".

E isso só acontece à medida que você acredita que é "bom o suficiente" ou "bom o bastante" para colocar um ponto final naquele projeto interminável, para ler os e-mails do trabalho no dia seguinte ou para declinar o convite de um amigo.

A partir daí, tudo se transforma.

Há uma disciplina libertadora inerente ao fluxo da vida. E ela está, intimamente, ligada à autovalorização.

É sobre ela que penso enquanto escrevo.

E, ainda, sobre o quanto a lógica do check list está presente na vida das crianças — e, cada vez, mais cedo.

E, por fim, sobre como podemos (re)aprender a observar — a vida e a nós mesmos.


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