Entre mudanças e resistências, o desafio da conexão interior

Por Xenya Bucchioni

Liniers

Depois de três anos de Nordeste, o ano começou, realmente, novo para mim: de volta ao meu Estado natal e à minha casa. (Mas, calma, onde mesmo ela ficava?). Pois é, na soma dos meses, vivências e experiências, já não é mais tão simples assim responder essa pergunta. As paisagens já não são mais as mesmas. A rotina já não é mais a mesma. Eu já não sou mais a mesma.

E havia mais. Nos últimos dois anos, vividos em João Pessoa, a ideia que eu tinha de casa reduzira-se à dois mochilões, uma mochila e uma mala de rodinhas — primeiro, em espaçosos 150 metros quadrados sublocados, que, depois, transformaram-se em práticos 40.

Novas condições. Novas circunstâncias. A existência intacta. E eu, ali, vivendo e crescendo apenas com o essencial, cultivando cada milímetro da abertura e transformação internas pelas quais estava (estou) passando. Até que, em um fim de tarde qualquer, como quase tudo que acontece na vida, tomei uma decisão. Era chegada a hora de descobrir e entender o sentido de casa.

Permanecer ou não em João Pessoa impôs-se como algo a valer. Já não dava mais para continuar no Nordeste sem prender-me muito à espera pela hora de voltar. E meus dias estavam a correr nessa toada duvidosa entre temporada e permanência, num constante adiar sobre raízes.

Na minha cabeça, isso sempre implicou uma certa “dívida” com o território. Afinal, sem enraizar-se, acredito que pouco contribuímos com o local que escolhemos para chamar de casa. E isso não tem, necessariamente, a ver com tempo. Há pessoas que passam uma vida inteira na mesma cidade sem construir raízes, sem alimentar o que quer que seja — a cidade, as pessoas, a paisagem, os relacionamentos, a si própria.

Entre incertezas e convicções, parti para um grande teste. Voltei. Voltamos. Eu, o Daniel e todas as vontades e desejos que nos apontavam para esse retorno. Só que dessa vez, casa era algum lugar fora de São Paulo-capital. Das tantas descobertas que a vida fora de SP me trouxe, a maior delas, certamente, tem a ver com o mar.

Será que é possível morar numa praia perto de São Paulo? Vou gostar? Vai dar certo? Será que não é muito cidade? Será que não é pouco cidade? E se eu não gostar? E se der errado? E se eu perceber que já não gosto de cidade-cidaaaade? Muitas questões. Muiiiiitas. Mas um alívio conquistado: poder voltar para João Pessoa a hora que quiser — liberdade alcançada com boas doses de planejamento financeiro e desapego material. (Um dia ainda conto como construí essa caixa preta chamada finança pessoal sendo filha de professores do secundário e como ela me garantiu a liberdade de poder embarcar nos meus sonhos).

Encarando as resistências

Ao percorrer algumas cidades do litoral paulista, aterrissei em Santos. Tudo ainda no começo. Tudo recente. Difícil de dizer qualquer coisa. Primeiro dia: “praia feia”. Segundo dia: “morro bonito”. Terceiro dia: “tem seus encantos”. Quarto dia: “como paulista é fresco”. Quinto dia: “nossa, que legal!”. E lá vou eu, a cada dia vivendo e acolhendo uma nova resistência. Afinal: o tempo de uma mudança não é o mesmo da nossa transição interna diante da nova circunstância. Há um vazio formado nesse entretempos povoado por zilhões de estranhamentos e desconfortos. No meu caso, aliás, boa parte deles, erguidos no meu reencontro com o que eu costumava chamar de casa há dois anos atrás.

Hoje, eu faria, tranquilamente, um “família vende tudo”, mas há dois anos atrás, quando de Recife fui para João Pessoa, tive medo (sabe-se lá do quê). Preferi embalar a tal casa em modestas 46 caixas de papelão e acomodá-las confortavelmente em um quartinho nos fundos da casa da minha sogra, no interior paulista. Mal sabia eu que essa “solução ideal” traria um dos maiores e mais difíceis aprendizados dessa minha caminhada.

A cada caixa reaberta, tenho sido brindada por uma surpresa ora boa, ora ruim, ora ambígua. Lembranças de como as coisas foram, de como elas são e, ainda, de como poderiam ter sido. Um arco-irís de sensações ao rever os objetos. “Preciso disso?” — a pergunta de ordem nos dias que correm. “Olha isso que demais!!” — coração em festa na descoberta das coisas queridas. Dois extremos, múltiplos sentimentos. Descarte, doação, reaproveitamento. A saudade batendo no peito pelo passado recente e a alegria de estar mais perto dos amigos e da família. Tudo junto e misturado.

Ativando a conexão interior

Nesse vai e vem de sentidos contraditórios e pulsantes, já ri, já chorei, já cantei, já dancei, já gargalhei e, então, relembrei em voz alta o meu propósito em estar aqui, no lugar que escolhi estar para viver este novo ciclo. Compreendi que o fato de voltar a ter a minha casa não me levava a ser de novo quem eu era. E nesse reconhecimento do desconforto, agradeci ao passado, saudando os novos tempos.

Conexão total com o presente e com tudo aquilo que ele tem a me oferecer de melhor — a chave para dias leves, tranquilos, serenos e repletos de significado. Um estado de preenchimento interior que requer prática diária e consciente. Algo que podemos aprender e cultivar em nossos dias.

Vamos junt@s?

Ofereço três dicas sobre como podemos iniciar essa prática:

  1. Conecte-se com a sua história — Somos o que somos por tudo aquilo que vivemos no passado. A vida é uma aventura tão maravilhosa que podemos, desde o presente, ressignificá-lo. Por isso, ao identificar nossas insatisfações, contradições, crenças e traumas, somos capazes de reconhecer os nossos padrões e administrá-los de forma consciente.
  2. Concentre-se na sua respiração — Já percebeu o quanto ela dá o tom das nossas emoções? Respiração curta, apressada, pausada, profunda. Cada uma revela algo mais sobre nós e sobre os nossos dias. Levar a atenção à nossa respiração é abrir as portas a uma imersão para dentro de nós.
  3. Escute o seu corpo — Incluir na rotina um tempo de pausa é fundamental nesse mundo de hiperestímulo que vivemos. Quando aquietamos a mente, aos poucos vamos entrando em contato com a nossa respiração, o pensamento vai desacelerando, os sentidos tornam-se mais aguçados e o corpo começa a dar sinais.

Agora, compartilho como isso costuma funcionar, na prática, para mim:

Toda vez que sinto a predominância de uma sensação de desconforto, irritabilidade ou angústia procuro olhar com atenção. Normalmente, o indicador dessas manifestações emocionais vem na forma de pensamentos recorrentes. Sabe quando a sua mente volta naquele assunto, naquele evento, naquele dia, um zilhão de vezes não importa o que você esteja fazendo?

Quando me pego repetindo esse padrão, vou para a minha pausa e faço uma imersão para dentro de mim. Deixo que os sentimentos se manifestem. Não bloqueio. Permito que cada fragmento de pensamento, recordações e imagens venham à minha mente. Sem julgar ou tentar “conversar” com eles, apenas deixo que eles vão e venham no seu próprio tempo, enquanto eu permaneço no meu: o tempo da minha respiração. E isso vai fazendo com que ela fique, cada vez mais, tranquila, completa, profunda. Tudo muito sutil. Inspiração e expiração sem força, mas com a energia e a vitalidade que temos dentro de nós.

Quando trago a atenção para a respiração, a mente se esvazia e é quando eu me sinto profundamente conectada comigo mesma e com o todo ao meu redor. Também é quando vou percebendo os sinais do meu corpo, o que me faz identificar se uma região está precisando de atenção ou de um cuidado maior.

O que podemos aprender com isso?

Através da prática de auto-observação, que eu desenvolvo por meio da meditação, aprendi a sentir e identificar meus períodos de ovulação, a acolher, controlar e aproveitar as emoções que me acompanham nesses momentos. (Nós, mulheres, podemos ser muito criativas em meio à confusão dos hormônios!).

Aprendi a acessar a criança interior que existe dentro de cada um de nós e oferecê-la o carinho, a compreensão, o amor, o reconhecimento e a atenção que nem sempre ela pode receber no passado. (Um dos muitos exemplo de como podemos ressignificá-lo).

Também aprendi em que parte do meu corpo se instalam os meus medos e a ansiedade e, especialmente, como desbloqueá-los, assim como os pontos de tensão, das culpas e das cobranças. (Auto-responsabilidade sobre as emoções é tudo!).

Com o tempo, e mais recentemente, estou aprendendo não apenas a acessar a minha luz, mas a colocá-la para fora. A expressão de mim mesma tem sido o meu grande foco nesse momento. É, também, o que me motiva a escrever e compartilhar esse texto, pois acredito que evoluímos ao compartilhar e colaborar uns com os outros nas muitas esferas da vida.

Conectar com o nosso interior só depende de nós.


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