O que é preciso para fazer um bom mestrado e doutorado? — Pte 1

Por Xenya Bucchioni

Mirror, Suzy Lee

-Então, você é jornalista?
-Isso. Mas, agora, tô fazendo só o doutorado.
-Ah! Entendi…você não tá trabalhando.
-…(?)…

As deusas protetoras dos mestrandos e doutorandos que nos ajudem, pois esse tipo de diálogo é mais comum do que você imagina. Antes de seguir em frente, aviso aos marinheiros de primeira viagem: fazer mestrado e doutorado não só dá trabalho como, por si só, é um trabalho — e daqueles bem trabalhosos!

Seja com bolsa ou sem bolsa de estudo, mestrado e doutorado têm processo seletivo com direito a fases e tudo, carga horária, prazo, meta, cronograma, metodologia. Têm disciplinas obrigatórias e optativas. Podem ter experimento, teste, protótipo e umas quantas entrevistas com procedimentos variados. Gostemos ou não, têm a família Microsoft Word reunida — às vezes, até rola um excel delicinha. Mas podem ter outros programas mais complexos e sofisticados (alô, alô ciência da computação).

Quase já ia esquecendo, mas mestrado e doutorado também têm hora extra. Artigos para revistas, congressos, paineis, capítulos de livros, organização de evento, mediação de debates, palestras e encontros. Para uma experiência completa, podem ter, ainda, participação em grupos de estudo, projetos temáticos ou de extensão, e estágio docência.

Independentemente da área, uma coisa é certa: fazer mestrado e doutorado com bolsa, apesar de toda a desvalorização financeira e social, traz um alívio enorme à vida de um pesquisador. Caso contrário, a jornada é dupla. Ou tripla — como acontece com a maioria das mulheres que, além do trabalho convencional, acumula boa parte dos afazeres domésticos.

Ainda que o fator financeiro e o reconhecimento social sejam importantes para se dedicar à pesquisa, se você me leu até aqui, te convido a olharmos juntos e com atenção aquilo que transcende o ato de pesquisar: os elementos sutis que permeiam a caminhada acadêmica e são capazes, até mesmo, de comprometê-la.

Entre paixão e obrigação: o encontro com as nossas emoções

Por muito tempo acreditei que, para uma boa caminhada de doutorado e mestrado, a chave do sucesso era ter uma pesquisa com a qual eu me sentisse profundamente identificada. “Você tem que gostar da sua pesquisa”, pensava eu — especialmente, ao repetir esse argumento a todos aqueles em dúvida sobre iniciarem suas jornadas acadêmicas.

Entre o segundo ano do meu doutorado e o desafio de viver e sobreviver a uma forte crise profissional e pessoal, um vendaval de emoções suspendeu essa certeza. Eu amava o tema, o assunto, o objeto, a pergunta motivadora da minha pesquisa, mas nada disso era suficiente para bloquear o sofrimento que eu sentia do caminho de casa até a universidade. Não havia entrosamento possível com a pesquisa que me salvasse da falta de ânimo, da desmotivação, da insegurança, do medo, da cobrança, da culpa excessiva, da solidão.

E foi, assim, que eu descobri que para fazer um bom mestrado e doutorado é necessário muito mais do que habilidade intelectual. É preciso muita (muita!) habilidade emocional.

Conhecer, acolher, entender, denominar e, então, dominar as nossas emoções faz toda a diferença nesse processo — especialmente no doutorado, que por ter uma duração média de quatro anos e estar baseado no trabalho individual, demanda do pesquisador longas horas de atividade solitária. E estando sozinho, o encontro e o confronto consigo mesmo é, praticamente, inevitável.

Na ânsia de cumprir as obrigações do trabalho acadêmico, o que acabamos vendo, no entanto, é a normatização de determinados comportamentos. Assim, a insônia, a ansiedade, o nervosismo, o medo, a cobrança e a insegurança acabam sendo vistas mais como consequências naturais do processo do que sintomas de condições e contextos a impactarem negativamente a saúde mental dos estudantes. E, provavelmente, dos professores e dos funcionários. Afinal, como não há dados fartos sobre o tema, fica difícil saber até onde vai a raíz do problema.

(Continua…)


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