O que a conquista dos outros pode dizer sobre nós?

Por Daniel Lazaroni

Imagem: Mark Bird.

| Seu amigo publicou uma foto. É o lançamento do segundo livro dele.

| Você tem um novo evento. Inauguração do foodtruck de cervejaria artesanal da sua melhor amiga.

| Opa, um self da sua prima na banca de doutorado dela.

| Olha só: a página do seu amigo acaba de completar 10 mil likes.

| Que incrível. O projeto de sua amiga foi selecionado em um importante edital.

…Posto…Curto…Sigo…Comento…Compartilho…Ignoro.

Calma, esse texto não é sobre como as redes sociais fazem parecer que a vida é só flores. Muito menos sobre de como ela está presente em nossas vidas e mudou (?) nossas relações. Esse texto é pra falar sobre o que acontece com a gente nesses três-pontinhos do parágrafo acima, quando nos deparamos com uma publicação sobre conquistas pessoais e profissionais dos outros.

A proposta aqui é tentar estimular a auto-observação para o uso das redes sociais.

Separei algumas questões que contribuem nessa caminhada.

Se for possível e você preferir, sugiro que gaste alguns minutos a mais para colocá-las no papel. Isso pode te ajudar a aprofundar as suas reflexões. Aí vai:

  • O que passa pela sua cabeça, antes de cada uma dessas interações nas redes, nesse contexto das conquistas dos outros?
  • Há um pensamento recorrente?
  • Quais sentimentos o acompanham?
  • O sentimento antecede o pensamento ou o contrário?
  • Quais sombras do seu inconsciente emergem nesses momentos?

Voltemos às conquistas do início do texto. Sabemos que as redes sociais são um terreno fértil para comunicá-las ao mundo. Para uns, é fácil encontrar coragem, subir nesse palco e se expor. Para outros, mesmo sentindo vontade de compartilhar e se expressar, há um certo bloqueio. E há, também, quem ache melhor não estar na rede ou estar sem expor-se — afinal, para quê fazer isso?

Ao nos expormos, ficamos sujeitos aos elogios, afetos e mensagens de encorajamento, mas, também, não ficamos imunes a todo tipo de julgamento, questionamento e acusações — direta ou indiretamente. E nesse fluxo de postar e/ou acompanhar as conquistas, estamos sujeitos a um fantasma bastante comum: a comparação.

Dentre as inúmeras reações emocionais que temos ao ver as conquistas dos outros nas redes sociais, destaco três que podem ser bem recorrentes: entusiasmo, julgamento e/ou cobrança. Muitas vezes, elas vêm em combo: “tudo junto e misturado”. Em alguns momentos, no entanto, uma delas pode se sobressair.

Seja como vierem, essas reações emocionais podem gerar impactos de diferentes formas: dentro e fora da gente. No primeiro caso, na forma de um pensamento (invisível para os outros). No segundo, na forma reativa (visível para os outros).

Vamos ver mais de perto.

Ao se deparar com uma conquista do outro…

Imagine ou relembre de uma postagem sobre uma conquista de algum conhecido seu. Se quiser, pode usar os exemplos imaginados no começo do texto. Há diferentes formas de pensamentos ou reações para cada uma das três reações emocionais que destaquei acima:

Entusiasmo: “UAU! Que maravilha (de conquista)!!” / “Ela(e) merece!”

Julgamento: “Que mer** (de conquista). Vergonha alheia!” / “Nada original!”

Cobrança: “Poxa, queria ter tido uma conquista dessa.” / “Tá vendo, preciso tirar aquela minha ideia do papel urgente.”

Como eu disse, cada um desses exemplos pode acontecer dentro ou fora de nós — isto é, pode manter-se internalizado ou ser expressado por nós.

Há diversas combinações possíveis para esses pensamentos ou reações. E o mais importante: eles podem nutrir ou minar sonhos, inspirações, motivações e ações — não apenas as suas como das pessoas ao seu redor.

Façamos um outro exercício reflexivo:

  • Quais dessas frases são pensamentos recorrentes para você (lembrando que esses pensamentos são invisíveis para os outros) e quais são reações expressadas (visíveis para os outros em forma de comentário, por exemplo)?
  • De um modo geral, o seu pensamento antecede a reação ou a sua reação antecede o pensamento?
  • Você percebe algum embate interno entre os seus pensamentos e as suas reações? (por exemplo: quando você pensa de uma forma e reage de outra). Se sim, quais?
  • Quais os insights que esse exercício proporcionou?
  • Que ações você poderia fazer para melhorar esse aspecto da sua vida?

Ao expressar uma conquista sua…

Agora, imagine-se do outro lado. No lugar de quem vai postar a conquista. Alguns desses pensamentos abaixo vêm à sua cabeça no exato momento em que está escrevendo a sua postagem?

Entusiasmo: “Consegui! Não vejo a hora de mostrar isso pro mundo.”

Julgamento: “O que será que os outros vão achar disso?”

Cobrança: “Será que tá bom mesmo pra divulgar?”

Já parou para pensar se os seus pensamentos e reações, diante da conquista do outro (primeira situação), interferem nos seus pensamentos e ações diante da expressão da sua conquista?

Vamos dar uma olhada com novas lentes para o trio de reações / emoções listadas:

O entusiasmo

Quem não gosta de reconhecimento e acolhimento, não é mesmo? O entusiasmo dos outros, quando voltado para nós, preenche nosso ego de sentido e realização. O mesmo ocorre no caminho inverso: quando voltamos nosso entusiasmo para os outros. O desafio, aqui, é direcionarmos nosso entusiasmo para nós mesmos.

O julgamento

Muito provavelmente quem se identificou com o pensamento / reação de julgamento na primeira situação tem um elevado senso crítico. Se por um lado o senso crítico pode ser uma qualidade interessante, que ajuda na busca por excelência e originalidade naquilo que se faz, por outro, pode fazer com que se use a autocrítica demasiadamente, bloqueando o início, a continuidade ou o lançamento de ações, projetos, realizações.

A cobrança

Quando utilizada em doses saudáveis, a autocobrança é uma qualidade positiva, que nos ajuda a partir para a ação e a cumprir metas. Quando utilizada em excesso, pode ser paralisante e gerar um sentimento de impotência que culmina em pensamentos como “eu não sou bom/boa o suficiente”, “eu ainda não estou preparado(a)” ou “ainda não está bom, preciso melhorar”. Em casos mais extremos, a saída encontrada para o excesso de cobrança é a fuga.

Quem somos nós quando estamos nas redes?

Podemos ser os três. Tudo junto e misturado. Auto-observação é importante por isso.

Estamos todos aprendendo a SER nas redes e a EXPRESSAR a nós mesmos nesse território ainda muito novo. Estamos, a todo momento, entendendo como esse território impacta o nosso ser e a nossa habilidade e/ou dificuldade de se expressar.

Identificar e compreender o que pensamos e como reagimos para cada uma das situações descritas diz muito sobre nós mesmos. É um dos passos de uma longa caminhada em busca de nos conhecermos melhor e de sermos mais gentis com a gente mesmo.

É um exercício constante e difícil, mas, sem dúvida, enriquecedor.


Lab21 é processo. É movimento, compartilhamento, colaboração. Uma jornada para impulsionar o conhecimento, ativar a criatividade e estimular a expressão.

Faz sentido para você? Vem com a gente: lab21.co .

Inscreva-se para receber conteúdos com significado.

Junte-se à nossa jornada: Facebook, Instagram, Youtube.