O que você sabe sobre sua bisavó? Sua avó? E sua mãe?

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Feb 15, 2018 · 3 min read

Por Xenya Bucchioni

(ilustração de Jackie Morris)

Começo esse texto com uma repetição necessária:

O que você sabe sobre sua bisavó? Sua avó? E sua mãe?

Perguntas borbulham do lado de cá!

O que você sabe delas para além do número de filhos, datas de casamento, nascimento e morte?

E se eu te disser que bisavós, avós e mães são fios soltos de histórias aguardando tessituras? A sua, a minha, a nossa descoberta, atenção, investigação. Narrativa.

Que histórias você conta ao contar sobre sua bisavó, sua avó e sua mãe?
Que partes são música, cores, sabores, aromas, ruídos e silêncios?

E se eu te disser que, às vezes, é preciso inventar? Recriar o espaço em branco. Preencher a lacuna com a sua, a minha, a nossa visão, imaginação, intuição, sensibilidade. Memória.

Quem conta as histórias da sua bisavó, da sua avó e da sua mãe?
Quem guarda os rastros e vestígios dessas histórias?

E se te eu disser que, muitas vezes, não há nada, nem um único registro sequer? E que a sua, a minha, a nossa história pode ser, assim, o primeiro passo. Um início, um começo, uma voz. Resistência.

Tudo isso me veio à cabeça enquanto participava do curso “A Escrita Autobiográfica — Narrativa, Memórias, resistência”, proposto e facilitado pela jornalista e contadora de histórias Lia Rangel.

Com três dias de vivências práticas — sem pressa, sem certo e errado e sem julgamento — me juntei a outras mulheres para, em roda, encontrarmos um caminho para libertar as nossas histórias e assumir nossos desejos como caminhos possíveis de serem vivenciados.

Mas por quê uma roda só de mulheres para pensar, entre tantas coisas, nas mulheres das nossas vidas, a matriz feminina que marca e compõe as nossas histórias.?

A resposta surge discreta. Nas fontes da história oficial, nos arquivos e registros públicos disponíveis, que carregam consigo mulheres, quase sempre, histéricas, megeras, loucas, putas, miseráveis, enfermas, vociferantes, agitadoras. Muito se fala sobre elas enquanto massa, um bloco abstrato localizado por classe social ou padrões de beleza.

Mas o que sabemos sobre elas? O que sabemos sobre as mulheres das nossas vidas? O que pensam, sentem, veem?

Como conta a historiadora Michelle Perrot, boa parte desses registros existiram na forma de arquivos privados. Papeis, cartas, cartões, bilhetes, diários — documentos de uma vida inteira guardados à sete-chaves em caixas, caixinhas, armários e baús. Muitos deles, queimados em fogueiras caseiras como medida de proteção e segurança diante de um universo a elas negado, a escrita. A leitura. E, ainda, a existência como sujeito histórico, dotado de vontade, desejos, quereres e capacidade.

Ao buscarmos nossa matriz feminina, esse pode ter sido o retrato cabal das nossas bisavós, das nossas avós e, até mesmo, das nossas mães. Quantas não atearam fogo em seus escritos e recordações para apagar delas mesmas as marcas dos passos dados em um mundo no qual a energia masculina é força dominante e dominadora?

De geração em geração, resta-nos a dúvida do que se perdeu pelo caminho. Do que segue-se perdendo. E, ainda, do que isso diz sobre cada uma de nós.

Sentada, em roda, com outras mulheres foi lindo ver as histórias brotarem. Completas ou incompletas, elas ganharam asas, num exercício de expressão que é, antes de tudo, um exercício de liberdade.

Expressar é preciso. Expressar é existir. E resistir.

>>> Se você ainda não assistiu, fica a dica para ver a animação Viva, a vida é uma festa, da Pixar. Boa parte da essência do meu texto é lindamente contada por meio da história de Miguel e suas aventuras, durante a tradicional festa mexicana do Dia dos Mortos, que o leva a desbravar as histórias ocultas de sua família e a se conectar com o seu potencial de expressão.


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