Sobre a minha (nossa?) dificuldade em pedir ajuda

Por Daniel Lazaroni

(Liniers)

Quando eu era pequeno, meu pai, um engenheiro-professor-pardal, sempre tinha alguma tarefa / invenção no “rancho” da casa onde morávamos. Em Rio Claro, interior de São Paulo onde nasci e fui criado, rancho é sinónimo de quintal (um lugar muito frequentado por mim durante a infância). Àquela altura, meu pai não se contentava em fazer suas criações sozinho, gostava de me chamar para ajudá-lo. Muitas vezes eu ia por obrigação e outras tantas por curiosidade e vontade própria. O fato é que, sendo prazeroso ou não, era o momento que ele encontrava de passarmos um tempo juntos.

A questão é que eu, como assistente de professor-pardal, era encarregado de pegar, segurar, apoiar, varrer, lixar, parafusar, martelar e trazer coisas para dar suporte à construção, conserto ou reforma do que quer que seja. Lembro que, no início, ele costumava falar muitas frases imperativas como “pegue tal coisa” (que não estava no rancho) e eu, imediatamente, caminhava pelo corredor para dentro da casa e antes da metade do caminho já gritava para minha mãe:

- Mãe, você sabe onde está “tal coisa” (aquilo que meu pai havia pedido)?

E antes de eu terminar a pergunta, meu pai me interrompia com um grito nada sútil:

- AAAHHhh… Eu pedi pra você, não pra sua mãe!

E lá ia eu procurar essa “tal coisa” até que ele desistisse e não precisasse mais daquilo ou eu encontrasse ou ele me falasse onde estava.

Mas, afinal, por que ele me pedia ajuda e, ao mesmo tempo, me desencorajava a pedir auxílio também? Anos mais tarde, já mais crescido, entendi que aquilo possivelmente era para me “proteger” da super-proteção (❤) e disposição da minha mãe em fazer tudo pelos filhos. Algo que talvez, na cabeça dele, poderia criar um filho mimado e dependente.

Por falar da minha mãe, ela, uma professora que escolheu trabalhar meio período para se dedicar também à casa e aos filhos era (e ainda é) uma mulher determinada com as múltiplas-tarefas do dia a dia e não é muito do tipo de pessoa que pede ajuda:

- Mãe, quer ajuda?
- Não Dan, podexá, a mãe que sabe onde estão as coisas.

Esse é o cenário da minha criação no que diz respeito aos processos de ajudar / ser ajudado. O produto disso (e de outros fatores conscientes e inconscientes também) sou eu: um adulto que só percebeu aos 31 anos de idade sua dificuldade em pedir ajuda e sua pré-disposição em ajudar prontamente.

Se por um lado, como meu pai possivelmente imaginava, essa minha dificuldade em pedir ajuda me deixou uma pessoa mais independente, mais autoconfiante, mais capaz e mais disposto a oferecer ajuda, por outro lado, também me trouxe mais estresse, mais tarefas e mais exigências no plano do “eu comigo mesmo”.

Para se ter ideia da complexidade dessa relação desequilibrada entre pedir e oferecer ajuda, dou um exemplo simples e frequente durante muito tempo no meu dia a dia de trabalho. Sempre tive um enorme prazer e satisfação em ajudar os amigos designers que, assim como eu, se arriscam a programar, seja na solução de um problema referente aos códigos de programação ou em algo que eles já tentaram de tudo e não conseguiram resolver. Quando eu consigo ajudá-los, só eu sei a alegria que isso me traz. Já, se eu estiver na posição contrária, de alguém que não está conseguindo resolver um problema (seja ele de código, cotidiano, emocional ou prático), vou me desgastar até as últimas energias, até que eu não tenha mais forças e esteja tão irritado em não conseguir resolver a situação que das duas, uma: ou eu desisto / jogo fora / quebro o problema ou eu peço ajuda.

E tudo isso por que? Porque a ajuda, nesta visão, é vista como um fracasso, uma derrota, uma quase humilhação. Algo que, dentro da nossa cultura, vem com sentidos velados — como a proibição, a punição, o castigo e, de novo, a humilhação. Modelos mentais e comportamentais elevados a um milhão se pensarmos na predominância de uma cultura machista que cobra de nós, homens, o padrão do sucesso, da plena segurança e do provedor de recursos.

Ainda bem que, na maioria das vezes, mesmo contrariando à mim mesmo optei por pedir ajuda. E junto com ela ganhei novos conhecimentos na minha atividade profissional e, até mesmo, novos amigos. E nossa, como é bom quando coisas assim acontecem!

A questão toda é que, ao perceber tudo isso, venho mudando uma “chavinha” dentro de mim. Sempre achei que existissem apenas duas possibilidades: ou você é independente e não pede ajuda nunca ou você é dependente e só pede ajuda. Só recentemente descobri o significado de uma palavra que eu sabia que existia, mas nunca tinha compreendido o seu real significado, a interdependência.

Ser interdependente é estar, antes de tudo, aberto ao outro. É compartilhar a vida, é poder contar com outro, é cultivar e semear possibilidades e experiências em diversos níveis — profissional, afetivo, emocional. Ser interdependente não significa abdicar da individualidade e da liberdade. Pelo contrário, significa mantê-las, mas com os radares da troca, da partilha, do crescimento e evolução conjuntos ativados. Uma quebra de paradigma no nosso pensamento dicotômico!

Agora eu te pergunto, a sua pré-disposição à ajudar é proporcional à sua necessidade de ajuda? Há um equilíbrio entre o quanto você ajuda os outros e o tanto que você solicita ajuda dos outros? Em quais situações da sua vida você se viu dependente, independente e interdependente?

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