O mundo rural no horizonte dos jovens

Com a sucessão familiar, a tradição da vida no campo passa de geração em geração

Imagem: Lillian Schlosser

Eles são jovens. Habituados à rotina do campo, mas que dispuseram-se a transformar suas vidas através da educação nos centros urbanos. Homens e mulheres, filhos e filhas que formam uma geração de “diplomados e doutores”, que mantém as tradições da agricultura familiar. Estão atrás ou já conquistaram a tão sonhada formação na faculdade e querem prosseguir, agora em melhores condições de ensino e maturidade, a vida que os pais começaram na roça. Hoje, o jovem que vive no meio rural é estimulado a usar o conhecimento que adquiriu com a família e aperfeiçoá-lo para melhorar a renda e a produção no campo, além de contribuir para o avanço do agronegócio no país.

Luan Paulo Grapiglia, 27 anos, único filho homem, acostumado com a vida no campo desde muito novo, optou por seguir os passos do pai. Logo se mostrou apaixonado pelo campo e escolheu permanecer na zona rural pelo fato de gostar de trabalhar na lavoura, o que lhe dá a liberdade de escolher o próprio horário de trabalho. Possuindo o apoio da família para consolidar-se na agricultura, estes que incentivam a permanência do filho, para que o trabalho da família se expanda de forma qualitativa. Ele e sua esposa possuem uma grande propriedade no Distrito de Castelinho, interior de Frederico Westphalen, tendo como rendimento a pecuária de leite, produzindo cerca de 1.200 litros diários, com mais de 50 animais na ordenha, e também produz cerca de 20 hectares para silagem, 25 hectares para pastagem e 6 hectares para a preparação da ração que abastece o gado.

Vale destacar que a propriedade de Grapiglia é referencia na região, pois as vacas leiteiras possuem uma tornozeleira responsável pelo controle automático da produção de leite, medindo em litros ou quilos.

Vídeo: Taís Milani

Para o futuro, o jovem sonha em ampliar sua propriedade com um compost barn, um tipo de instalação usada para vacas leiteiras que influencia grandemente nos resultados de produtividade e sanidade do rebanho, e também sobre a qualidade do leite obtido, visando principalmente a obtenção de conforto térmico para o gado leiteiro.

A força da mulher do campo

Jovem agricultora Carlize Busatto / Imagem: Gabriel Morcelli

A contribuição e participação das mulheres no campo acontece desde sempre, elas trabalham na produção das propriedades no meio rural, mas muitas vezes essa contribuição não é valorizada, aparecendo apenas como uma ajuda ao marido, irmão ou pai. Ou seja, outro trabalho importante feito pelas mulheres que tem sido sistematicamente invisibilizado. Muitas nem sequer se reconhecem como agricultoras. Por isso, antes de pensar em aumentar os afazeres, é preciso reconhecer todos aqueles que elas já vêm realizando. Depois de muitos anos dedicados apenas as atividades domésticas e à criação dos filhos, aos poucos elas têm conquistado papel de liderança no agronegócio. Segundo dados do último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), hoje as mulheres do campo são responsáveis por quase metade da renda familiar (42,4%), valor superior ao das que vivem nas cidades (40,7%). Em 2000, ainda de acordo com o IBGE, as mulheres chefiavam 24,9% dos 44,8 milhões de domicílios particulares. Em 2010, essa proporção cresceu para 38,7% dos 57,3 milhões de domicílios.

Fonte: IBGE / Arte: Marieli Pessotto
Fonte: IBGE / Arte: Marieli Pessotto

Mais do que esposas ou filhas, hoje são agrônomas, produtoras, engenheiras, entre outras atividades e provaram que o campo também é lugar de mulher, Carlize Busatto é um exemplo deste grupo feminino que busca um espaço no agronegócio. Estudante na Casa Familiar, ajuda a família nas atividades de produção no campo, na propriedade em reside com sua família há produção de leite, gado de corte, grãos e suinocultura. Os planos da jovem é ingressar em uma universidade para cursar Agronomia ou Tecnologia em Agronegócio e retornar para o campo, pois acredita que é uma das melhores opções e futuramente a profissão de agricultor será mais valorizada.

Carlize estudou em uma instituição que trabalhava com a pedagogia da alternância, no qual possibilita unir a teoria com a prática, “na Casa Familiar, passei a ver a nossa propriedade como uma empresa, aprendi que precisamos estruturar e inovar a forma de produção e também valorizar o que temos”. Além disso, a jovem também contou sobre a experiência de realizar um intercâmbio para França, onde pode adquirir mais conhecimento para aperfeiçoar e aplicar em sua propriedade.

Vídeo: Tais Milani / Edição: Yasmin Mafalda

Casa Familiar

A Casa Familiar Rural (CFR) de Frederico Westphalen tem como principal objetivo, formar jovens agricultores. A instituição comunitária neste ano de 2016, completou 15 anos de história. Fundada em 25 de julho, a escola está situada no Polo de Modernização Tecnológica da Universidade Regional Integrada (URI) — campus de Frederico Westphalen.

Entre as principais pesquisas que a instituição realiza está “A influência da Pedagogia da Alternância no processo emancipatório dos jovens agricultores familiares”, que são apresentados anualmente pela diretora da escola, Elisandra Manfio Zonta.

A Escola de Ensino Médio Casa Familiar Rural trabalha desde 2006 com o ensino médio, e conta com 14 profissionais. Além da qualificação, a CFR visa o desenvolvimento de jovens agricultores com o meio rural e a sucessão da propriedade. Assim, desenvolver intercâmbios para outros países da Europa, buscando a interação e troca de experiências entre os alunos.

Aprendizado

A escola hoje, é um ponto positivo para região, pois inúmeros jovens aprendem os primeiros passos da lida no campo, até a formação das cultivares, buscando a evolução e crescimento de suas propriedades. Um dos grandes objetivos da casa familiar rural é desenvolver atividades com os jovens, para que eles construam e desenvolvam tudo que aprenderem aqui e levem para as propriedades junto com as suas famílias, buscando sempre novas alternativas.

A instituição de ensino trabalha em parcerias com Sindicatos de Trabalhadores Rurais (STR’s) da região, Cooperativa Tritícola de Frederico Westphalen (Cotrifred), Cresol, Sicredi, Creluz, e órgãos municipais e regionais, como Emater-RS/Ascar e o Polo Tecnológico da URI, além de 14 prefeituras de toda região.

Pedagogia da alternância

Na escola, os professores trabalham com a pedagogia da alternância. Os jovens ficam durante uma semana na escola e nas duas seguintes ficam em casa, desenvolvendo suas atividades e construindo projetos. Atualmente, 60 jovens estudam na CFR. Ao todo, 169 jovens já foram formados na instituição.

A importância da sucessão familiar no meio rural

Imagem: Taís Milani

A agricultura familiar é a que responde por grande parte da produção dos alimentos para consumo no Brasil e produtos para exportação. Na região sul, esse modelo se consolidou, inspirado no modelo produtivo que se desenvolveu no país pelos imigrantes europeus.

Dos países desenvolvidos ou em pleno desenvolvimento, a agricultura familiar predomina na produção de alimentos. No entanto, as atividades da agricultura familiar são compostas pelos membros da família, que visam produzir produtos de ótima qualidade e renda para manter-se.

O presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Frederico Westphalen, Nadir Busatto relata que atualmente a produção agrícola está se encaminhando para não ter mais sucessores, pois os jovens não estão mais dispostos a se “sacrificarem”, optando por receber um salário mínimo na indústria e trabalhar menos, do que receber melhor na lavoura trabalhando mais.

Busatto ainda comenta sobre os incentivos realizados para os jovens permanecer nas atividades no campo. Confira o audio:

Segundo dados da Secretaria Nacional de Juventude, dos 51,3 milhões de jovens no Brasil, os jovens entre 15 e 29 anos representam 15,2 % de toda a população rural do Brasil. Na região de Frederico Westphalen, a maior parte dos jovens rurais estão envolvidos nas atividades gerenciais das famílias, como é o caso das agroindústrias. Essas são alternativas que viabilizam e incentivam a permanência do jovem no meio rural, obtendo renda e qualidade de vida, evitando também o êxodo rural.

Se de um lado percebe-se que muitos jovens agricultores estão optando em deixar as propriedades rurais, de outro, vê-se jovens buscando novas alternativas para permanecer no campo. Os números do IBGE mostram que mais jovens que estão fora dos centros urbanos estão conseguindo realizar o sonho de estudar. Em apenas uma década triplicou o número de pessoas que vivem na zona rural e que tem mais de 12 anos de estudo.

Texto: Gabriel Morcelli, Lillian Schlosser, Renato Padilha, Taís Milani e Yasmin Mafalda.

Edição de vídeo: Yasmin Mafalda.

Edição de imagens/ Infográficos: Marieli Pessotto.

Fotos e vídeos: Gabriel Morcelli, Lillian Schlosser, Renato Padilha, Taís Milani.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Lab Reportagem Convergente’s story.