Almanaque do Refúgio Essepê

Por Amanda Tucci, Bettina Borges, Paula Leal e Valéria Luizetti, alunas do 1º JOD

Sobre o Almanaque do Refúgio Essepê

Otema não é novo e parece ter perdido força na mídia nos últimos tempos. Mas a situação de refúgio é uma realidade mundial, que coloca em perspectiva questões como a dignidade da pessoa humana, o direito de deslocamento do indivíduo versus a soberania de Estado e suas regulamentações próprias acerca deste assunto.

Refugiado, segundo a Lei nacional nº 9.474/97, é aquele indivíduo que preenche os requisitos legais por sofrer grave violação dos direitos humanos ou perseguição por motivos de cor, religião, grupo social ou opiniões políticas dentro do seu país de origem.

No Brasil, a procura por acolhida de indivíduos em situação de refúgio cresceu em torno de 2.000% nos últimos anos, de acordo com Fabio Ando Filho, assistente de gestão de projetos do Centro de Referência e Acolhida para Imigrantes (CRAI) da Prefeitura de São Paulo.

Vivemos a maior crise humanitária de migração desde a Segunda Guerra Mundial. Diante de tema tão polêmico e delicado, buscamos entender como a maior da cidade da América do Sul tem se posicionado para acolher refugiados de cerca 80 nacionalidades diferentes, que escolhem o Brasil para fixar residência e iniciar vida nova. Entenda os primeiros passos do imigrante em solo nacional, conheça os abrigos e centros de acolhida da prefeitura, a ONG ADUS e exposições sobre o tema, além de ouvir histórias de refugiados que vivem na cidade.

Recém-saída do forno, a Lei Municipal 16.478/16, regulamentada pelo decreto 57.533 de 15/12/2016, consiste na mais nova legislação sobre imigração, e coloca São Paulo na vanguarda ao ser a primeira cidade do país a ter uma lei específica sobre o tema. Entrevistamos funcionários da prefeitura para saber o que a legislação tem feito pela população imigrante na cidade.

O trabalho que vem sendo realizado na capital paulista ganhou notoriedade e reconhecimento internacional, e a política para acolhimento de imigrantes e refugiados foi apontada como exemplo promissor pela Organização Internacional do Trabalho (OIT).

A visão do Poder Público na Política do Refugiado

TEORIA versus PRÁTICA. “A lei que estabelece a política para migrantes é importante por ser um instrumento menos sujeito a flutuações em diferentes gestões, e institui uma política que será seguida não importa quem estiver no poder. Dá uma segurança jurídica muito grande.” Quem diz isso é Andreia Zamur, advogada e coordenadora adjunta da pasta municipal de Coordenação de Políticas para Migrantes (CPMig)* de São Paulo.

Mas o pioneirismo da capital paulista não deve se reduzir à letra fria da lei. Que medidas concretas foram implementadas cerca de cinco meses após o advento do decreto municipal nº 57.533? O que mudou na vida dos refugiados que vivem na cidade?

Andreia esclarece que a lei foi elaborada visando a proteger e amparar direitos de todo tipo de imigrante, em qualquer situação, e não apenas o refugiado. Inclusive imigrantes não regulamentados, ainda que não possuam documentos. “Essa é uma característica da legislação, que tem como uma de suas diretrizes a flexibilização na identificação dos imigrantes”, comenta Jennifer Alvarez, assessora da coordenação.

Um dos objetivos da lei é a criação de um Conselho Municipal do Imigrante, que deve ser composto por membros do Poder Público e da sociedade civil. Essa reportagem, no entanto, verificou que o conselho ainda não foi formado. Segundo Andreia, será a Secretaria dos Direitos Humanos que nomeará os conselheiros, o que deve ocorrer até o final de junho. Mesmo assim, a formação inicial desse conselho terá apenas duas prerrogativas: aprovar o regimento interno e convocar eleições, para o final de 2017. Portanto, a atuação efetiva dos membros do conselho só poderá ser observada, se tudo caminhar conforme o previsto, em 2018, após as eleições.

EDUCAÇÃO. Uma iniciativa interessante da prefeitura ressaltada durante essa conversa chama-se Projeto Portas Abertas. Com previsão de início para o final de julho, serão oferecidas 600 vagas para imigrantes interessados em aprender a língua portuguesa. Escolas da rede pública municipal participam do projeto em diferentes regiões da cidade, e abrem as portas para receber os alunos internacionais, que terão acesso gratuito contínuo e regular às aulas.

Na esteira da educação, quando perguntada como os professores da rede municipal estão se preparando para recepcionar filhos de imigrantes, Jennifer respondeu que a coordenação já fez alguns treinamentos para formação de professores sobre sensibilização da temática migratória. Citou a Escola Municipal da Administração Pública (EMASP), que oferece cursos regulares de capacitação para servidores públicos e a sociedade civil. De acordo com o CPMig, entre 2014 e 2016, 1.071 servidores das áreas da saúde, assistência social, educação e da Guarda Civil Metropolitana foram formados em oficinas de capacitação, buscando garantir atendimento humanizado e acesso a direitos fundamentais a imigrantes.

SAÚDE E INTERCULTURALIDADE. Este termo, utilizado pela legislação, fica mais explícito na prática no trabalho desenvolvido pela secretaria municipal da saúde, como conta Jennifer: “Tivemos um grupo que trabalhou com a saúde da mulher imigrante. O grande destaque dessa ação foi a troca de experiências entre as diversas culturas e costumes das pessoas envolvidas no programa. A maternidade, questão central para as mulheres, foi priorizada com informações sobre partos humanizados e exames pré-natal que respeitassem os hábitos culturais de cada povo. As africanas têm o costume de colocar um pano no rosto dos bebês recém-nascidos. Isso precisa ser levado em consideração”.

CAMPANHAS DE CONSCIENTIZAÇÃO. “Apoiamos a celebração de festas e a promoção de manifestações artísticas e culturais, pois acreditamos serem ações para combater a xenofobia e a discriminação”, afirma Jennifer. Com o slogan “São Paulo tem lugar para todos e para todas. Menos para a intolerância”, a CPMig realiza campanhas de conscientização por meio de folders, banners em pontos de ônibus e redes sociais. Com uma proposta de sensibilização da sociedade, rodas de conversa são promovidas aos domingos na Avenida Paulista. A intenção é trazer o tema da imigração para perto da população e incentivar o debate.

Além disso, a CPMig intermediou a regularização de feiras gastronômicas e culturais junto às subprefeituras da cidade, garantindo espaço para que o imigrante possa celebrar suas tradições e interagir com a comunidade local.

EXPECTATIVAS. Uma cartilha elaborada pela Prefeitura de São Paulo reúne as principais ações da CPMig de forma didática e explicativa. Se a nova lei impactou a vida de imigrantes e refugiados que vivem na cidade, é cedo para dizer. A Política Municipal para a população imigrante ainda requer tempo para se consolidar e implementar todas as ações previstas no texto legal. Mas a iniciativa pioneira já sinaliza que o Poder Público está sensível a uma das causas humanitárias mais graves do mundo. Planejamento e organização são fundamentais para absorver o contingente atual de imigrantes e refugiados e os futuros fluxos migratórios. O Brasil está longe de ser o país que mais recebe refugiados no mundo. Mesmo assim, se políticas públicas não forem bem estruturadas, corre-se sério risco de aumento dos problemas sociais, que já não são poucos. Para Andreia, “os movimentos migratórios tendem a se agravar. Cada vez mais povos em situação de guerra, vítimas de desastres naturais e processos de desertificação ambiental e reféns de governos totalitários se veem obrigados a abandonar seus países de origem e migrarem para terras desconhecidas em busca de oportunidades”.

  • Coordenação de Políticas para Migrantes. Na contramão da anacrônica legislação migratória brasileira, a orienta suas políticas pelo viés dos direitos humanos, não da segurança nacional ou da proteção do mercado de trabalho. Além disso, foi o primeiro órgão público municipal especificamente criado para tratar da questão migratória no Brasil.

O CRAI como facilitador ao refugiado em São Paulo

Foto retirada do site: http://www.sefras.org.br/novo/servicos/sao-paulo/crai/

O Centro de Referência e Acolhida do Imigrante (CRAI) é um serviço público da Secretaria de Direitos Humanos da cidade de São Paulo, coordenado pela Secretaria de Políticas para Imigrantes e organizado pelo SEFRAS (Serviço Franciscano de Solidariedade). Imigrantes e refugiados, ao chegarem ao Brasil, podem encaminhar-se a este serviço a fim de obterem sua regularização, segundo as leis de imigração do nosso país.

Para conhecer melhor como funciona este serviço e saber como a atual Lei de Imigração vem sendo posta em prática, entrevistamos Fábio Ando Filho, assistente de gestão de projetos do CRAI.

Saiba:

Quais são os serviços e órgãos relacionados ao CRAI e sua forma de atuação: https://soundcloud.com/val-ria-luizetti/entrevista-fabio-parte-1

Como os tratados, protocolos e vistos relacionados aos migrantes funcionam: https://soundcloud.com/val-ria-luizetti/entrevista-fabio-parte-2

Sobre a Lei da imigração e a ação do CRAI na cidade de São Paulo: https://soundcloud.com/val-ria-luizetti/entrevista-fabio-parte-3

Saiba mais sobre o Centro de Acolhida do Imigrante

A assistente social Elayne Sartori, que trabalha no Centro de Acolhida para Imigrantes da Bela Vista, concedeu entrevista em que nos conta um pouco sobre a dinâmica do Centro, a política de recepção e rotina dos refugiados.

O prédio que abriga o Centro de Acolhida é tombado pela Prefeitura de São Paulo e pertence ao Sefras — Serviço Franciscano de Solidariedade.

Entrevista :

Qualquer imigrante pode ser acolhido no Centro?

Existe um critério de tipificação dentro do Centro para acolher os imigrantes. Mas a maioria dos nossos abrigados são recém-chegados ao Brasil, homens e mulheres, independente da nacionalidade, e da condição de ser refugiado ou ter visto humanitário. Geralmente eles chegam sem documentação. Alguns apresentam um protocolo com a solicitação de refúgio, outros apresentam visto humanitário, como caso dos haitianos.

Qual a nacionalidade de imigrantes que vocês mais recebem aqui no Centro de Acolhida? Quantas vagas existem no Centro? Existe um prazo máximo que um imigrante pode permanecer?

Varia muito, mas no momento a maior parte é de angolanos. São 110 vagas no total, e não existe período máximo de permanência na casa.

Como o Centro de Acolhida é mantido?

Os responsáveis pela manutenção do Centro são o Sefras — Serviço Franciscano de Solidariedade — e o convênio com a prefeitura por meio da Secretaria de Assistência social e desenvolvimento.

E como o imigrante, que chega ao país, pode conhecer e encontrar um Centro de Acolhida como esse na cidade de São Paulo?

Alguns já chegam ao Brasil com o contato do Centro de Acolhida por intermédio de um parente ou amigo que já veio anteriormente. Mas a maioria chega até nós por meio do CRAI — Centro de Referência e Acolhida para Imigrantes da Prefeitura. O acolhimento nunca é feito diretamente por nós. Sempre tem a intermediação de uma outra instituição, que são parceiras do Centro e indicam o nosso trabalho. Pode ocorrer ainda, a transferência ou permuta de um imigrante egresso de outro Centro de Acolhida.

Como funciona a comunicação com o imigrante que não fala português dentro do Centro?

A maior parte dos funcionários que trabalha aqui fala outra uma outra língua. Eu, por exemplo, falo inglês, espanhol e entendo um pouco de francês. Assim que o imigrante chega ao Centro nós já encaminhamos para ter aulas de português. E eles, em geral, aprendem rápido.

Como é a rotina de um imigrante que vive no Centro?

São 3 quartos destinados só para mulheres. Os demais são para os homens. Os quartos para homens são fechados durante o dia para limpeza e manutenção, mas eles podem retornar no horário do almoço. Sobre os quartos das mulheres, um deles também fica fechado durante o dia. Nos demais, elas podem permanecer e acessar sem restrição. Temos atualmente duas mulheres com bebês recém-nascidos. A partir das 16 horas, todos podem acessar os quartos e demais dependências do abrigo.

E final de semana é livre.

Quais são as atividades oferecidas pelo Centro?

A maior parte das atividades são oferecidas no período noturno, já que durante o dia eles ou estão procurando emprego, ou já estão trabalhando. Oferecemos aulas de português, rodas de conversas, palestras oferecidas por outras instituições. Nas quartas-feiras, pela manhã, oferecemos para mulheres curso de pintura e tecido. Aos finais de semana também oferecemos atividades variadas como passeios, aulas de confecção de bijuterias, por exemplo.

Vocês tem parceria com alguma empresa ou Instituição para auxiliar o imigrante a procurar emprego?

Geralmente, encaminhamos o interessado para o CIC do Imigrante — Centro de Integração de Cidadania — que é um espaço que governo do Estado oferece e que reúne uma diversidade de serviços voltados à população imigrante. Também encaminhamos para a organização Missão Paz, tem o projeto Eixo Trabalho e que também possibilita o imigrante a ter acesso a uma entrevista de emprego, inclusive com tradução em outras línguas, caso ele não domine o português.

Tem algum segmento no mercado que esteja empregando mais o imigrante em São Paulo?

Não percebo um segmento em específico. Tem muitos que trabalham em restaurante ou empresas de limpeza em geral. Tivemos, por exemplo, o caso de um abrigado que fazia mestrado em Petroquímica na USP. Dependa também da qualificação dele no próprio país de origem.

Em caso de necessidade de assistência à saúde, como funciona a situação do imigrante que mora no Centro?

Como nós não recebemos imigrante em situação irregular, quando ele chega ao Brasil e passa pelo CRAI, por exemplo, ele já recebe um número de CPF. Com isso, é possível adquirir uma carteira do SUS e ser atendido pelo poder público em caso de problemas de saúde.

Você acha que o imigrante que chega ao Brasil tem intenção de permanecer aqui por longo prazo?

Salvo alguns casos de imigrantes que já possuem família em outros países, e que desejam encontrá-los, a maior parte quer permanecer no Brasil, até porque outros países são mais rigorosos com a política de entrada do imigrante.

Você acredita que os fluxos migratórios vão continuar no Brasil?

Depende mais da legislação do Brasil do que questões externas. Por exemplo, quando o Brasil recebeu um grande número de haitianos, foi porque foi estabelecido um acordo mútuo entre os dois países para recebê-los. Acredito que a tendência é que os conflitos no mundo se agravem e que as populações das regiões afetadas migrem para outros países em busca de novas oportunidades.

A ADUS e a situação de refúgio

Espaço da ADUS — foto de Valéria Luizetti

A condição de um refugiado não é simples, não importa a região do globo escolhida ou imposta como novo lar. Xenofobia, dificuldades de inserção no mercado de trabalho no local de refúgio e de comunicação gerados pelas diferenças de línguas são alguns dos problemas mais recorrentes. Diante dessas e de tantas outras dificuldades, instituições como a Adus atuam para fornecer apoio a estas pessoas em estado de vulnerabilidade.

A Adus — que significa caminho em latim e também é conhecida como Instituto de Reintegração do Refugiado — no Brasil, atua na cidade de São Paulo desde outubro de 2010 e em Curitiba desde março de 2016. Com cerca de 230 voluntários, seu principal objetivo é a reintegração do refugiado à sociedade, tanto no âmbito econômico quanto nos campos social e político.

Alguns dos projetos mantidos pelo Instituto voltados aos refugiados são: Trabalho e Renda, que busca a inserção do refugiado no mercado de trabalho; aulas de português, ministradas por professores brasileiros; Sabores e Lembranças, aulas de culinária ministradas pelos próprios refugiados para que ocorra uma maior troca de cultura e auxílio psicológico.

Espaço ConectAdus — foto de Valéria Luizetti

Outra iniciativa importante é o ConectAdus, projeto em que os próprios refugiados ministram aulas de inglês, francês e árabe na sede da ADUS. Esses cursos são pagos à parte e podem ser feitos tanto pelos próprios refugiados quanto por brasileiros.

Beneficiados do ADUS por região em todo o mundo

Para se manter de portas abertas, a instituição faz parcerias corporativas e institucionais com empresas. Eventos como o Bazar Solidário também são realizados todos os meses. Nele, além da ADUS arrecadar recursos para sua manutenção, os próprios refugiados podem vender artesanato, comidas e roupas. Outro meio para a arrecadação de fundos é por meio das doações do Amigo ADUS, campo de contribuição presente no site da instituição. Caso exista interesse em se tornar voluntário, basta entrar no site https://www.atados.com.br/ong/adus e inscrever-se nas vagas à disposição.

Vivemos a maior crise humanitária de migração desde o fim da Segunda Guerra Mundial, e iniciativas como essa, em conjunto com uma atuação efetiva por parte do setor responsável do governo, são fundamentais para, ao menos, tornar possível o não agravamento dessa situação.

Imigrante da República Democrática do Congo conta sobre sua nova vida no Brasil

James é um imigrante da República Democrática do Congo que mora no Brasil há aproximadamente dois anos. Encontrei-o em um domingo chuvoso no Largo da Batata, em pinheiros, zona oeste de São Paulo. Apesar do frio e do aguaçeiro, vestia apenas uma bermuda, uma camisa e um tênis, que já estava ensopado. Decidimos andar até uma padaria para conversar ao abrigo da chuva, que piorava a cada instante.

Durante o caminho ele me explicou que logo após a entrevista iria conversar com o dono de uma pensão ali por perto para negociar um quarto pois, acabara de sair da ocupação em que estava. Perguntei onde estavam seus pertences e ele respondeu que os havia deixado na casa de alguns amigos na Vila Madalena. Depois perguntei por que ele saiu da ocupação em que estava. Disse que os “donos”estavam “metidos com drogas e tráfico”.

Depois de atravessar o largo inteiro procurando um lugar que não estivesse passando o jogo (naquele domingo os clubes de futebol Vitória e Corinthians se enfrentavam na série A do Brasileirão) para que a conversa fosse mais tranquila, achamos uma padaria onde entramos e sentamos em uma mesa perto da entrada.

Logo no início da entrevista, James contou que saiu do Congo junto com outros imigrantes. Pegaram um barco rumo à América. Disse que, na época, não sabia ao certo onde iria desembarcar e nem o que o esperaria do outro lado do oceano. Desembarcou, 23 dias depois, no porto de Santos com outros imigrantes africanos.Veio no mesmo dia para São Paulo onde passou a morar de ocupação em ocupação. James fala português fluentemente, disse que aprendeu para que pudesse compreender as entrevistas que osjogadores de futebol brasileiros davam na televisão. Explicou também que, pela proximidade com Angola, há muitas pessoas que falam português em seu país. Isso facilitou seu aprendizado.

Quando perguntei sobre os motivos que o fizeram sair de seu país, ele contou que havia um político que o ameaçara de morte. Insisti para que ele revelasse o tal motivo, James trabalhava como motorista para a família de um deputado. Ele se envolveu com a filha do chefe, que o perseguiu ameaçando-o de morte e fazendo com que deixasse tudo para trás. Perguntei ainda se em algum momento não havia passado pela sua cabeça denunciar as ameaças. E, ele respondeu apenas que “lá as coisas não funcionam assim”.

Depois de conversarmos um pouco, achei inevitável perguntar sobre o preconceito que possivelmente sofria, e ele respondeu afirmativamente. “Isso é complicado, muita moça segura a bolsa e atravessa a rua correndo quando me vê, teve um dia que tava brincando com uma criança lá na escola onde eu estudo e uma outra (criança) veio e disse para ele parar de falar comigo porque eu era preto, e ele respondeu que não iria parar porque eu era amigo dele. Para você ver, duas crianças brancas que pensam diferente isso é a educação que cada um tem em casa.”

Perguntei de que mais gostava no Brasil, e ele respondeu explicando que aqui ele se sente em casa, a comida, o povo, a vida são muito parecidas. “Lá, eu comia feijão com fubá, aqui aprendi a comer feijão com arroz, a música brasileira eu conheci lá, antes de vir para o Brasil já conhecia.”

Sobre a sua nova rotina, ele contou que estuda eletricidade na parte da manhã e durante o resto do dia trabalha em uma indústria têxtil em Embu, SP. Mesmo fora de sua cidade natal, longe de sua família e morando provisoriamente sem saber o que esperar do futuro, James revelou-se uma pessoa extremantente otimista. Sorria o tempo inteiro, e diz estar muito feliz com o Brasil e com o modo que foi recebido pelos brasileiros.

Da Síria para a Vila Madalena

Uma entrevista com Adam

Um produtor no furacão do Hotel Cambridge

OFilme Era O Hotel Cambridge estreou em 16 de março de 2016 e conta a história de refugiados que moram numa ocupação do antigo Hotel Cambridge, em São Paulo, juntamente com outros moradores sem-teto. É uma criação coletiva que mistura realidade e ficção, atores e não-atores, imagens de arquivo e de outros documentários num filme que se propõe a ser um instrumento de luta. Colaboram a Frente de Luta por Moradia (FLM), a Escola da Cidade e o Grupo de Refugiados e Imigrantes Sem Teto (GRIST).

Conversamos com André Montenegro, um dos produtores do filme.

Há no filme cenas de uma invasão da ocupação pelo Estado para reintegração de posse.

Como foi a relação da equipe de produção com a prefeitura, com a Polícia Militar, com o poder público em geral durante a filmagem?

Era material de arquivo a cena da reintegração de posse. O hotel foi a primeira ocupação da FLM (Frente de Luta por Moradia). O que aconteceu na ocupação com a Conurb foi antes de a gente filmar, essas imagens são um material encontrado durante a montagem. Foi tranquila, a produção.

Como está a situação dos refugiados e dos outros moradores depois da repercussão do filme?

O filme é muito sobre a questão do refugiado e da pesquisa sobre os personagens. Mas, de fato, não havia muitos refugiados morando no hotel. Nenhum dos estrangeiros que estão no filme mora lá. O Isam Ahmad Issa, por exemplo, não era de lá. Depois do fim das filmagens que ele foi morar no Hotel Cambridge. O Pitchou (Luambo, um dos fundadores do Grupo de Refugiados e Imigrantes Sem Teto) foi morar lá na época da produção do filme.

E qual é a situação do próprio Hotel Cambridge hoje em dia?

Os moradores conseguiram a posse do edifício. Ele era da Prefeitura de São Paulo já havia algum tempo, mas durante a filmagem conseguiram a posse e também conseguiram um financiamento da Caixa Econômica pelo Minha Casa, Minha Vida. Há projetos envolvendo os moradores, rodas de conversa, trabalhos sociais.

O que esse projeto lhe trouxe de diferente?

Foi ótimo ter conhecido novos profissionais. O filme teve co-produção francesa e espanhola. Também trouxe novidades, institucionalmente falando, para a produtora. Foi o primeiro filme da Aurora Filmes a ser inscrito na Ancine, o público cobra a exibição em estados do Brasil onde o filme ainda não chegou. Também está circulando internacionalmente. Em setembro temos exibições na Espanha, em outubro na Suécia. Outra coisa boa foi a diretora de arte Carla Caffé ter trazido a Escola da Cidade numa parceria para fazer o desenho de arte. Acho que foi a melhor coisa que aconteceu para o filme.

O filme ainda está em cartaz no Caixa Belas Artes e no Espaço Itaú Augusta, em São Paulo.

Era O Hotel Cambridge (99 minutos)

Direção: Eliane Caffé

Elenco: Carmen Silva (II), Isam Ahmad Issa, José Dumont, Suely Franco, entre outros.

O refúgio no cinema

Criado pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), o Dia do Refugiado é comemorado em 20 de julho no mundo inteiro e tem como objetivo conscientizar a população sobre as pessoas em situação de refúgio ao redor do planeta.

No Brasil, durante todo o mês de junho de 2017, a mostra Olhares Sobre o Refúgio traz filmes com histórias de refugiados de várias partes do mundo. A entrada é franca.

De acordo com a Fundação Cultural de Curitiba, onde foi realizada a primeira fase da mostra de 1 a 4 de junho, a recepção foi boa. Entre o público presente, Maristela Peixer, empresária, disse estar encantada: “Assisti Era O Hotel Cambridge e Exodus. Acho importante esse tipo de ação de conscientização através da arte”.

A mostra terminou no dia 11 de junho em Porto Alegre e passará pelo Rio de Janeiro. Ainda segue por Brasília e São Paulo. Confira abaixo datas e horários:

Curitiba: de 1 a 4 de junho, sempre às 19 h

Local: Cinemateca de Curitiba (Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1.174)

· 1/6: Bem-Vindo ao Canadá

· 2/6: Estou com a Noiva

· 03/06: Exodus: de onde eu vim não existe mais

· 4/6: Era o Hotel Cambridge

Porto Alegre: de 8 a 11 de junho, sempre às 19 h

Local: Cinemateca Paulo Amorim, Casa de Cultura Mario Quintana (Rua dos Andradas, 736)

· 8/6: Bem-Vindo ao Canadá

· 9/6: Estou com a Noiva

· 10/6: Exodus: de onde eu vim não existe mais

· 11/6: Era o Hotel Cambridge

Rio de Janeiro: 6, 13, 20 e 27 de junho, sempre às 19h

Local: Oi Futuro (Rua Dois de Dezembro, 63, Flamengo)

· 6/6: Bem-Vindo ao Canadá e Exodus: de onde eu vim não existe mais

· 13/6: Era o Hotel Cambridge

· 20/6: Estou com a Noiva

· 27/6: A Casa de Lúcia

Brasília: 17 de junho (a partir das 14h)

Local: Museu da República (Setor Cultural Sul)
 14h: Abertura

· 17/6: Bem-vindo ao Canadá (15h30)

· 17/6: Era o Hotel Cambridge (16h30)

· 17/6: Estou com a Noiva (18h30)

· 17/6: Exodus: de onde eu vim não existe mais (20h15)

São Paulo: de 22 a 27 de junho, sempre às 19 h

Local: CineSesc (Rua Augusta, 2075)

· 22/6: Bem-Vindo ao Canadá

· 23/6: Estou com a Noiva

· 24/6: Exodus: de onde eu vim não existe mais

· 25/6: A Casa de Lúcia

· 26/6: Terra Firme

· 27/6: O Pacote Completo

Na cola do refúgio

Emmaio de 2017, o Museu da Imagem e do Som de São Paulo (MIS) trouxe para o público uma mostra com sete exposições de fotografias, sob a curadoria de André Sturm.

O destaque ficou para os registros do fotógrafo brasileiro Mauricio Lima, que acompanhou por seis meses a jornada de migração de refugiados da Síria à Suécia. O título da mostra, Farida, um Conto Sírio, é uma bela homenagem ao nome do bebê nascido em Karlstad, interior da Suécia.

Após uma travessia entre os dois países que durou mais de cinquenta dias, os pais de Farida enfrentaram todas as dificuldades físicas e emocionais para que a criança pudesse nascer distante da guerra.

Seguem algumas fotos que ilustram cenas de horror, desespero e, mais que tudo, esperança por dias melhores.

Perseverança — Amamentação no caos — Jacob, um combatente
Sem Fronteiras — O fim de um sonho — Não seja bem-vindo
Nazdar num campo de refugiados — Última chamada
Ajuda — Montanha

Um olhar feminino do refúgio

Localizado no bairro da Mooca, zona leste da capital paulista, o Museu da Imigração é mantido pelo Estado de São Paulo e preserva a história de milhares de imigrantes de mais de 75 diferentes nacionalidades que vieram tentar a sorte na cidade, ainda no século XIX e no XX. Em 1978, a Hospedaria de Imigrantes do Brás, como era chamada, encerrou suas atividades e foi reformada para abrigar o atual museu.

O acervo permanente inclui itens e objetos antigos utilizados pelos imigrantes, além de fotografias e móveis como cadeiras, camas e armários. A interatividade é um diferencial do museu, que promove o contato com o público por meio de vídeos e entrevistas, mapas, jogos e projeções nas paredes laterais e no teto.

A visita rende uma tarde de nostalgia e reflexão sobre o passado. A atualidade do tema dos refugiados faz pensar que muitos brasileiros são frutos da acolhida que nossos antepassados receberam no país. Nos fluxos migratórios da Europa para cá, italianos, poloneses, alemães, japoneses, entre outros, receberam a oportunidade de recomeçar a vida, gerando crescimento econômico e prosperidade para o Brasil.

Em março de 2017, o Museu da Imigração realizou a exposição de fotos com o tema “Vidas Refugiadas.” O projeto, concebido pela advogada Gabriela Cunha Ferraz e o fotógrafo Victor Moriyama, retrata por meio da fotografia a vida de oito mulheres refugiadas em cenas do cotidiano na cidade de São Paulo. Confira algumas fotos!

Quem se interessar em saber mais acesse o site do projeto: vidasrefugiadas.com.br

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