Autores Brasileiros no Mercado Editorial

Por Fernanda Caseiro Talarico, Letícia Giollo, Marina Bufon e Vitória Carvalho, alunas do 1º JOC

Como a literatura nacional resiste com novos nomes em tempos de crise

Por Fernanda Caseiro Talarico e Vitória Carvalho

Em 1920, nasceu, na Ucrânia, Clarice Lispector. Mesmo não sendo brasileira, a autora é, quase 100 anos depois, considerada um dos maiores nomes da nossa literatura. Com um salto temporal, vamos ao ano de 2014, lançamento do livro Dias Perfeitos, do autor carioca Raphael Montes, pela Companhia das Letras. O romance conta a história de um estudante de medicina que sequestra sua amada, Clarice, e, para deixá-la inconsciente, bate com um livro de capa dura em sua cabeça. O livro é uma compilação de textos justamente de Clarice Lispector. A nossa literatura nacional é, de uma maneira lúdica, construída com base e em homenagem a ela mesma. E por mais que tenhamos grandes nomes surgindo, ser um autor no Brasil não é fácil, muito menos algo animador logo de início.

Panorama do Mercado

Não é de hoje que a expressão “brasileiro não lê” é ouvida por aí. Em um país com cerca de 13 milhões de analfabetos, segundo o último levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), isso não seria tão absurdo. No entanto, esse cenário parece estar mudando, ou pelo menos é o que indicam os números.

Mesmo com a crise, a última década demonstrou um crescimento de mais de 17% de exemplares de livros vendidos no Brasil: 193,25 milhões vendidos em 2006 e 226 milhões em 2016, segundo dados da Câmara Brasileira do Livro (CBL) e do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel). Mas o mesmo não pode ser dito para o mercado editorial, que sofreu uma queda acumulada de 17% entre 2015 e 2016. De toda forma, o mercado ainda vê esperanças de melhora, especialmente com os resultados do primeiro trimestre de 2017, que, segundo o Snel, apresentaram um leve crescimento de 12,3% em relação ao período anterior.

É curioso o fato de que os atuais carros-chefes da indústria brasileira sejam livros religiosos, de ficção ou não ficção dirigidos ao público infanto-juvenil, de youtubers e outras web celebs. Na lista dos livros mais vendidos do ano passado, Ruah, do padre Marcelo Rossi, e O Diário de Larissa Manoela ocupam a segunda e quarta posições, respectivamente. Tais fenômenos, assim como os livros de colorir que fizeram sucesso há alguns anos, servem para aquecer a economia e elevar o faturamento das editoras.

Reflexos da Crise

Com o decréscimo nas vendas de livros, não seria de se esperar outro posicionamento das editoras senão o de frear o investimento feito em novos autores, pois é muito melhor apostar em nomes já conhecidos, que já têm seu público cativo, do que apostar em pessoas que ainda não estão no mercado, e vão precisar ser impulsionadas. É isso que faz com que muitos escritores recorram a opções diversas, como o caso do autor Chico Bicudo, que preferiu recorrer a uma editora independente para ter seu livro publicado.

A Festa Literária de Parati (FLIP) é um exemplo de como a crise tem feito o mercado livreiro perder a força. Uma das maiores e mais importantes festas literárias do Brasil, com um público gigantesco e internacional, ela tem tido seu investimento cortado com o passar dos anos. Segundo Mauro Munhoz, diretor da Casa Azul, que é a organizadora do evento, em entrevista coletiva de divulgação da programação da feira, o orçamento vem caindo uma média de 1 milhão de reais por ano desde 2014. Para 2016, existia uma verba de 6,8 milhões que, para 2017, caiu para 5,7 milhões.

A Leitura Online

A internet pode até parecer o monstro que tem causado esses péssimos números que vemos em pesquisas de vendas sobre o mercado editorial, mas, ao mesmo tempo, é ela quem cobre essa falta que as editoras fazem em ajudar novos autores. Prova disso são os meios digitais usados para a divulgação de livros, como o Wattpad, uma plataforma online de leitura, considerada um híbrido de livro com rede social. Ele permite que qualquer um publique ou leia o que os outros estão escrevendo, como nos contou a autora Tati Loupatiuk em entrevista.

Esse modo se tornou tão importante que a Editora Abril lançou, em parceria com o Wattpad, o livro Mundos Paralelos, com dez contos feitos por escritores-fenômenos brasileiros na rede. O livro, que é facilmente achado em livrarias ou bancas de jornais, explica em sua introdução que não se sabe de onde virá o próximo fenômeno literário e, por isso, dá a oportunidade de novos talentos se desenvolverem no site.

Segundo Felipe Sali, um dos autores publicados em Mundos Paralelos, o meio literário é imprevisível, porém permite alguns palpites, pois não são poucos aqueles que apostam que será da internet que sairá a próxima revelação. O que não poderia fazer mais sentido, se analisarmos que cada vez mais autores estão publicando online e testando novas ideias e histórias.

Outros países sabem do talento que vem de terras brasileiras e começam suas carreiras online. Um exemplo disso é a autora brasileira Lilian Carmine, que chamou a atenção da editora norte-americana Random House pelas suas publicações feitas no Wattpad. O livro hoje publicado no Brasil é, na verdade, uma tradução do que foi lançado nos Estados Unidos meses antes, já que a editora brasileira teve que negociar diretamente com a Random House. Um caminho desnecessário, considerando-se que Carmine poderia ter sido facilmente abordada por qualquer editora do mercado brasileiro.

Larissa Siriani, que nos concedeu uma entrevista, conseguiu chamar a atenção da Editora Record, mas a youtuber precisou, inicialmente, lançar seu livro de maneira independente.

Visão Brasileira

Em maio de 2017, os editores Paulo Werneck e Fernanda Diamant lançaram a revista Quatro Cinco Um, uma publicação brasileira, voltada para resenhas literárias e indicações de livros.

O nome é uma referência a Fahrenheit 451, romance distópico do norte-americano Ray Bradbury. Quatrocentos e cinquenta e um graus Fahrenheit é a temperatura (233 graus Celsius) necessária para que o papel entre em combustão e livros sejam consumidos pelo fogo. Na história de Bradbury, obras literárias são consideradas subversivas, pois abrem a mente de quem lê para o conhecimento e o faz pensar, por isso são queimadas pelo governo. A homenagem vem da ideia de que ler é necessário para sair da mesmice e pensar fora do padrão.

É interessante se ter uma revista brasileira que fale sobre isso e dê ao leitor — por mais “nichado” que seja seu público — opções e novidades do mercado literário. Poderia ser uma maneira de ajudar autores brasileiros a serem lançados e conhecidos, porém, em sua primeira publicação, a capa e a reportagem principal falam de Elena Ferrante, autora italiana que lança, no Brasil, o volume final da sua série de livros. Foi uma oportunidade perdida de enaltecer algo brasileiro e novo, que precisa ser impulsionado. Já o segundo volume da Quatro Cinco Um trouxe mais resenhas sobre livros de autores nacionais e sua matéria de capa fala de dois livros de escritores brasileiros que tratam da crise política que vive o país. O assunto pode até ter sido pautado pelos escândalos que ocorreram envolvendo grandes nomes políticos recentemente, mas a revista, dessa vez, não deixou de lado a chance de mostrar que temos grandes autores que devem ser lidos. Pode ser que, erroneamente, passe a impressão de que brasileiros saibam somente falar de fatos que aconteçam no Brasil, mas é motivo de orgulho estar na capa de uma revista literária.

Diferentemente do livro Mundos Paralelos, comentado acima, a revista Quatro Cinco Um não é uma publicação fácil de ser achada. Ela é vendida em apenas algumas bancas de ruas, como as elitizadas que se situam na Avenida Paulista, e em livrarias “chiques”, como a Da Vila e Cultura. Seu preço é salgado: 17 reais, mas, em seus primeiros seis meses, está sendo enviada como cortesia aos assinantes da revista Piauí, conhecida pelo modo diferente como suas reportagens são abordadas, tornando seu público pouco diversificado. A Quatro Cinco Um tem planos diferentes para assinantes, com um fato curioso: pessoas abaixo de 26 anos são considerados “leitores em formação” e, por este motivo, pagam menos.

Será mesmo que são em formação ou apenas não estão lendo o que a revista considera que deveria ser a escolha de um leitor formado?

Clássicos e novos

Muitos começam a ler quando crianças, impulsionados por quadrinhos ou livros infanto-juvenis, mas são poucos os que mantém os hábitos de leitura, principalmente no Brasil. Há os que relutam em ler, pois entendem este ato como algo feito apenas por uma elite intelectual, que não é facilmente alcançado.

Autores como o russo Dostoevsky são colocados em “pedestais” da literatura, em um patamar onde apenas pessoas tidas como cultas conseguiriam ler e entender o que ele quer dizer em sua obra. Este posicionamento pode ser explicado pela barreira da língua e das diferenças do português para o idioma russo, porém José Saramago, único representante da língua portuguesa a ganhar um Nobel de Literatura, também sofre relutância ao ser lido, pois sua escrita seria difícil demais para ser entendida. A justificativa, neste caso, pode até ser verossímil, se ela não se estendesse a todos os autores clássicos da literatura de nosso idioma e brasileiros.

Alunos do ensino médio são obrigados a ler Machado de Assis, Eça de Queiróz, Jorge Amado, Manuel Antônio de Almeida, entre outros importantes nomes. Mas a maneira como eles são introduzidos causa o inverso do que se esperava, pois os estudantes se traumatizam com as leituras, que talvez não sejam as mais apropriadas para a faixa etária, o que causa um bloqueio para que estes mesmo jovens leitores continuem a descobrir a literatura nacional.

Autores internacionais, do gênero novo-adulto, preenchem esta lacuna e essa literatura internacional é massivamente lida por jovens, enquanto muitos escritores brasileiros são deixados de lado, não somente os clássicos, pois isso atinge também os iniciantes. A ideia de se apresentar diferentes gêneros aos estudantes seria a melhor maneira de atrair estes leitores que ainda estão se encontrando. Uma autora como Lygia Fagundes Telles, que completou 90 anos em 2017, é uma ótima maneira de trazer os mais novos para perto dos livros brasileiros, pois como é uma leitura fácil e de contos de diversos gêneros pode atingir diferentes pessoas. Esta pode ser uma porta de entrada para outros autores, como Hilda Hirst e Clarice Lispector, que se diferem entre si, mas se assemelham a Fagundes Telles. Uma vez familiarizado com Lispector, por exemplo, o romance policial Dias Perfeitos, citado no início desta reportagem, pode se tornar mais atrativo, voltando os olhares a autores como Raphael Montes, que com apenas 25 anos já tem quatro romances publicados.

Amor à literatura

É curioso notar que, como nos conta Joyce Lukower em entrevista, a publicação de livros acadêmicos e técnicos não segue o mesmo trâmite de lançamentos de outros gêneros. Em contrapartida, a defasagem do conteúdo é mais rápida e a tiragem, menor. Quando uma história alcança o sucesso, ela talvez não precise passar por edições e mudanças, acaba se mantendo no topo das listas da maneira como foi escrita. Mas, como já discutido, o método tradicional não é o mais fácil e está perdendo sua força.

A internet vem ajudando muito autores que não conseguem o apoio de grandes editoras e, para os brasileiros que têm como sonho a publicação de um livro físico, o modo independente pode ser uma opção.

Heloisa Jahn, editora de livros que já passou pela Companhia das Letras e Cosac Naif, hoje edita autores independentes e também os auxilia a mandar suas obras nos padrões aceitos por editoras. Jahn conta que, com a crise, não existem mais funcionários o bastante para que um projeto de livro seja analisado por alguém da editora, volte ao escritor, sofra alterações e, assim, seja publicado. O processo está encurtado, sem tempo de pegar um novo autor pela mão e mostrar-lhe o caminho. “Eles têm medo do novo”, diz Heloisa.

Quando perguntada se há alguma dica que possa dar a um aspirante de autor, Jahn é pragmática: “Escreva, escreva e escreva. Só assim você vai saber sua maneira de escrever e método”. A editora ainda diz algo que, assim como Celso Unzelte em entrevista, apenas encoraja a todos que querem seguir este caminho. Ambos trazem em seus discursos que escrever é algo que está na natureza das pessoas, pois, quando se ama a literatura, não há o que ser feito senão se jogar de cabeça e tentar, da maneira que for, se lançar neste mundo. Seja escrevendo em um guardanapo, assim como fez J.K. Rowling com o rascunho de Harry Potter, ou em uma plataforma online; seja batendo na porta de editoras ou tendo a sorte de ser achado em meio a vários escritores, não desistir já é o primeiro passo para o sucesso.

“Cego é aquele que só vê a bola”: o caminho de Chico Bicudo para publicar seu grande amor, o futebol

Fã de Nelson Rodrigues, o autor e professor explica a escolha pela editora independente Chiado e quais as dificuldades de ser escritor no Brasil

Por Marina Bufon

Chico Bicudo, autor, professor e jornalista, em entrevista na Livraria Cultura.

Francisco Bicudo, pontualmente e com seus óculos a lá anos 60, chegou sorridente ao café da Livraria Cultura, na Avenida Paulista, para nossa entrevista. Não nos conhecíamos em carne, osso e olhos, mas algo me fez sentir como se Chico (acredito que posso chamá-lo assim) fosse um conhecido de longa data.

Talvez por gostarmos de futebol ou pela facilidade com que ele me explicou tudo (característica imprescindível para o professor, que leciona na faculdade Anhembi Morumbi no curso de Jornalismo), a meia hora que ficamos sentados e gesticulando, nas cadeiras vermelhas e acolchoadas do café, nos rendeu boas histórias e muitas informações importantes para aqueles que algum dia sonham em ser escritores.

Chico é autor de quatro livros, sendo que dois deles foram “encomendados”: um, sua dissertação de mestrado na USP, e outro sobre saúde, área na qual trabalhava na época. Os outros dois, Memórias de uma Copa no Brasil (2014) e Crônicas Boleiras (2016), foram publicados pela Chiado Editora, sediada em Portugal. Por que a Chiado Editora? Chico explica: “Eu acho que hoje, por mais que as dificuldades ainda resistam, o mercado editorial brasileiro ainda é muito limitado, muito restrito, o número de grandes editoras que têm potencial para chegar, para desembarcar em livrarias e demais prateleiras é bastante reduzido”.

Editoras e publicações

O Brasil vem passando por muitos problemas internos, sejam eles políticos ou econômicos. Uma das áreas mais afetadas, e isso desde que a internet teve seu boom há mais de uma década, é a da publicação dos livros. Grandes editoras, como a Cosac Naify, viram suas portas se fecharem, e até livrarias estão saindo do Brasil, como a FNAC.

Nessa onda, as editoras independentes nadam no sentido contrário. Mesmo sofrendo de problemas financeiros e também com a rasa relação que o brasileiro mantém com os livros, como afirmou Chico Bicudo, as editoras independentes encontraram novas formas de estar próximas dos seus autores e, consequentemente, leitores específicos: as redes sociais. “As editoras nas redes prospectam autores no Facebook, nas redes, autores que escrevem, têm um bom texto, um capítulo que de repente pode gerar um bom romance ou um conto, então existe essa sintonia. Esse bloqueio hoje é menor. E mais do que isso, a gente tem também, claro que não com o mesmo alcance e com o mesmo tamanho, mas uma série de brechas e oportunidades de independentes digitais.”

Chico Bicudo comentou sobre a Chiado Editora, que o procurou para a publicação de seus livros. Ele explicou que a editora originária de Portugal trabalha com diversos catálogos e segmentos diferentes, e estava, na época, abrindo escritório no Brasil, o que foi ótimo para ele, já que precisavam de autores brasileiros. O autor ainda comentou que muitas editoras têm se debruçado sobre a internet para encontrar a solução dos problemas financeiros, como é o caso da E-Galáxia, uma editora voltada apenas para livros digitais, o que acaba diminuindo certos custos que uma editora convencional teria, como papel e distribuição, entre outros. Esses custos foram diminuídos com a obra Memórias de uma Copa no Brasil, publicada pela Chiado Editora, quando Chico Bicudo viu, numa postagem sem pretensão em seu Facebook, a realização de um grande sonho seu: publicar um livro sobre futebol de sua autoria. Rindo, o autor contou a história:

Com relação a Crônicas Boleiras, publicado em 2016, Chico Bicudo afirma que o sucesso do livro anterior o ajudou na publicação do segundo, que já foi mais pensado, pois fez uma coletânea dos textos que tinha na gaveta. “Crônicas Boleiras é uma coletânea de crônicas que eu escrevi de 2011 a 2015. Tinha mais, até, mas a gente foi selecionando aquelas que a gente achava mais bacanas, mas ele já um livro mais pensado, planejado, a gente passou o ano de 2015 todinho indo e vindo, e lançamos em maio do ano passado. E agora a ideia é, quem sabe, talvez ter um Crônicas Boleiras Segundo Tempo, Crônicas Boleiras Prorrogação [risos].”

Esporte, meios de divulgação e paixão

No esporte, Chico Bicudo encontrou sua paz. Mesmo nas salas de aula às quartas e quintas-feiras, dias nos quais o futebol mais frequentemente acontece nos campos, o professor conta com a ajuda da filha, que o atualiza sobre os resultados do seu time do coração, o Santos. Não só ele, mas muitas pessoas no Brasil são completamente apaixonadas pelo futebol, no entanto o professor avalia que nem sempre elas leem sobre o tema, se preocupam mais com o factual. “A minha sensação — e é uma sensação mesmo, não existe nenhum estudo, nada mais apurado, nada disso — é que há um encanto, um gosto, um prazer enorme de uma leitura de coisas mais cotidianas, as principais, notícias, os resultados, os jogos. (…) Acho que valeria muito a pena investir, e a importância das editoras, dos livros, dos blogs, dos independentes, porque embora a gente seja o país do futebol, se você procurar a quina pra futebol aqui na Livraria Cultura, a produção bibliográfica sobre o tema não é grande, ela é pequena.”

De fato, não só a Livraria Cultura, mas muitas outras não possuem setores dedicados ao esporte ou, se os têm, são pequenos e escondidos. Chico Bicudo também avalia que a produção de livros na área é, além de pouca, discriminada, pois ainda possui um rótulo de editoria mais “descontraída e fácil” que outras, como política e economia. Além desse problema, autores do nicho (e de outros também) encontram obstáculos no momento da publicação, pois são temas muito específicos. É aí que entram as editoras independentes também, pois elas “têm um papel fenomenal, não é só tarefa delas, mas é função delas apresentar pro mercado os autores que têm potencial e ainda não chegaram numa editora grande”. Chico Bicudo comenta que, além de tudo isso, o autor precisa se preocupar, também, com a divulgação das obras.

Mesmo com todo o caminho, cheio de curvas, tortuoso e com dificuldades, o autor, professor, jornalista e pai não mede esforços para unir suas paixões enquanto escreve. Grande fã de Nelson Rodrigues, cronista esportivo em quem se inspira, afirma que para escrever sobre o tema é necessária uma mistura de sentimentos, os quais precisa embriagar o leitor sempre. “Precisa ter essa coisa da emoção, a sensibilidade, sentimento de pertencimento do leitor cria identidade, exatamente para conectar. Um texto pode ser maravilhoso tecnicamente, mas ele morreu ali, não tem vida.” E fim. Da entrevista, porque Chico não pretende parar, assim, tão cedo.

Será que vale a pena?

A publicação de livros técnicos e acadêmicos no Brasil

Por Fernanda Caseiro Talarico

Nem só da venda de romances vive o mercado editorial brasileiro. Há uma grande demanda por livros técnicos, ou seja, aqueles que são como guias e podem ensinar algo. A abordagem feita por editoras e consumidores é diferente da feita com romances, pois a intenção não é o entretenimento, o foco é o conhecimento.

Para entendermos um pouco mais este outro gênero de livros, conversamos com a dentista Joyce Lukower, de 43 anos, que lançou, em 2009, Sorrindo na Melhor Idade — Uma Abordagem Atual da Reabilitação Oral na Terceira Idade(Editora Santos), o qual ela nos apresenta e conta o surgimento da ideia de escrevê-lo no vídeo abaixo.

Quando comparamos livros técnicos com romances parece que estamos tratando de mercados diferentes, em que apenas o modo de ser ter contato com o conteúdo publicado é o mesmo. Enquanto autores brasileiros de romances encontram mil e uma dificuldades para conseguirem que suas obras sejam aceitas e publicadas, livros acadêmicos e técnicos, como no caso de Sorrindo na Melhor Idade, recebem um tratamento diferenciado por parte das editoras. Para o lançamento de seu livro, Joyce conta que a Editora Santos foi até a faculdade — na época, ela era assistente na USP, onde cursou odontologia — e procurou autores que poderiam lançar livros com um enfoque na área da saúde. Esse fato vai de encontro com a realidade vivida por muitos romancistas que tentam a todo custo ter seus livros publicados, mas recebem várias negativas durante suas jornadas, o que torna a tentativa de ser acolhido por uma editora uma verdadeira epopeia.

Para a publicação de Sorrindo na Melhor Idade, a autora elogia a Editora Santos e relata que lhe deu muito suporte para a produção do livro, pois, segundo Lukower, “a editora tem o interesse que o livro fique top”. Então ela teve muita ajuda com bibliografia, texto e formatação, sendo que o único stress durante toda a confecção da obra foi na questão de imagens. “Elas tinham que estar em 300 dpi e fiquei sabendo disso apenas quando já estava com todas as imagens para o livro”, conta a autora, que ri ao lembrar do alívio que sentiu ao se dar de conta que, mesmo sem perceber, estava com todas no tamanho e formato necessários. Joyce conta que foi muito bem amparada pela editora de seu livro, e a elogia, afirmando que teve o suporte necessário para fazer um bom trabalho.

O papel do editor foi de grande importância no desenvolvimento do livro, sendo ele a pessoa que teve de dizer “chega de escrever, vamos publicar”. A autora relata ter encontrado certa dificuldade de achar que o livro estava com as informações suficientes. “A responsabilidade da transmissão do conhecimento é muito grande”, conta Joyce.

Pensar em publicar um livro implica a ideia de ter uma obra montada por você, que lhe agrade e faça parte de quem você é, o que se torna plausível se pensarmos em autores que escrevem poesias, crônicas, romances… mas quando estamos falando sobre escrita acadêmica, é possível manter a singularidade? O fato de se escrever algo mais “sério”, com um assunto de técnico, pode passar a impressão de se tornar algo impessoal, porém Lukower conseguiu colocar uma parte da sua história em seu livro. Uma maneira de fazer uma homenagem a algo particular seu: a foto que está na capa é de seus tios-avós, tirada por ela mesma, no aniversário de seus filhos. A autora conta que, com os avós já falecidos, quis representar a terceira idade através de sua família, então tirou a foto como outra qualquer que se faz em uma festa infantil. Como se tratava da publicação de um livro, tratou dos direitos de imagens com as filhas do casal. Ambos só foram descobrir que faziam parte da obra no dia do lançamento, o que causou emoção em todos.

Joyce é muito grata pelo lançamento de seu livro e diz ter sido uma grande emoção, por exemplo, ter uma noite de lançamento, mas, mesmo assim, ama ser dentista e não trocaria a profissão por nenhuma outra, nem para ser escritora. Ela brinca que já plantou uma árvore, teve filhos e escreveu um livro, portanto já alcançou vários de seus objetivos na vida, mas que existe a vontade de se voltar a outro lado da literatura e escrever um romance com uma temática diferente, como conta no seguinte vídeo.

A venda e distribuição de livros acadêmicos e técnicos é diferente de outros gêneros, pois, por se tratar de um assunto muito específico, o público é menor, o que reduz a tiragem e acaba fazendo com que poucos lugares o tenham para venda. Joyce conta que fez muitas palestras assim que aconteceu o lançamento de sua obra e que, naquela época, andava com uns dez exemplares sempre. Como se trata de um livro da área da saúde, segundo a autora, ele já precisa de uma reedição, com acréscimo de técnicas e casos que ocorreram nesses quase dez anos de seu lançamento. “Hoje eu o encaro como um livro de memórias”, diz Joyce.

A autora, na concepção da ideia de publicar seu livro, se perguntou se valeria a pena realmente cuidar da saúde bucal de um idoso debilitado, e chegou à conclusão de que sim. Depois disso, o caminho que partiu em um esboço feito em casa até a publicação da obra deu bastante trabalho, mas ao mesmo tempo foi prazeroso. Diferente da realidade de autores novos de romances, em que a ideia e enredo parecem ser pré-existentes e o problema é fazer com que editoras queiram bancar seus livros, quando falamos do gênero técnico e acadêmico as coisas se invertem. Parece existir um grande interesse para que profissionais das mais diversas áreas escrevam sobre suas especialidades, fazendo valer muito a pena passar por todo o processo de criação e desenvolvimento de uma literatura que é muito bem recebida pelo mercado editorial brasileiro.

A trajetória de Larissa Siriani, uma jovem escritora nacional

Por: Letícia Giollo

Lançamento do livro Amor Plus Size na Livraria Saraiva, no Rio de Janeiro. (Foto: Arquivo pessoal)

Maio de 2017. Livraria Cultura. São Paulo. Entre centenas de estantes e livros, na sessão de suspense, onde fantásticas histórias estão à espera de um leitor ávido para mergulhar nas suas palavras. Ali, no meio de tantos outros leitores, estava uma em especial, Larissa Siriani.

Olhava atentamente a sinopse de cada livro como se não houvesse mais ninguém no mundo além dela e do exemplar. Qualquer um podia perceber, mesmo de longe, sua paixão pelo universo literário. Esse fascínio pelas histórias tem uma bela explicação, afinal — ela também as escreve.

Com apenas 25 anos, essa paulistana realizou um sonho de infância quando publicou, no ano passado, seu mais novo livro pela editora Verus, do grupo editorial Record. Intitulada Amor Plus Size a história é sobre Maitê, uma garota de dezessete anos e mais de cem quilos. Em meio aos desafios e “paixonites” do ensino médio, ela vai descobrir que não precisa ser igual a todas as outras meninas magras para ser feliz. Narrado em primeira pessoa de uma forma doce e encantadora, APS — nome carinhosamente abreviado pela própria autora — tem como premissa tópicos importantes: bullying, insegurança, amizade, família e, o principal, ACEITAÇÃO.

O lançamento de Amor Plus Size na Bienal do Livro de 2016 foi uma experiência inexplicável para a jovem escritora. Fãs pedindo autógrafos, centenas de selfies tiradas, abraços e mais autógrafos. Mas nem sempre foi um “mar de rosas”.

Siriani já passou por alguns desafios que todos os autores nacionais passam até ver seu livro nas estantes das principais livrarias brasileiras.

A felicidade de Larissa Siriani é inegável ao encontrar um exemplar do seu livro na Cultura, da Avenida Paulista. (Foto: Arquivo pessoal)

O início

Larissa parecia totalmente confortável com a câmera ligada e apontada para ela. Essa intimidade é devida ao Youtube, onde a autora tem um canal — intitulado com seu próprio nome — com mais de 500 vídeos, em que posta vlogs literários com resenhas de diversos livros. “Eu sempre tive vontade de criar alguma coisa própria, e acho o Youtube um meio sensacional de atingir muitas pessoas gastando pouco”, relata.

O vlog surgiu da necessidade de ter um veículo diferente para fazer seu marketing, como também da sua vontade de aprender a se comunicar melhor. “Eu sempre tive dificuldades em expressar minhas ideias na fala. Sabia que os vídeos seriam um bom exercício — e foram mesmo. Com o tempo, peguei gosto pela coisa.” Por esse mesmo canal, ela também mantém uma relação muito afetiva com seus leitores, respondendo a comentários e perguntas.

Vivendo até hoje na mesma casa em que cresceu, Larissa é formada em Cinema, mas sempre sonhou em ser escritora. Começou ainda criança, com pequenos contos que foram dando lugar a histórias cada vez maiores. Inspiração é o que não falta. “Todo mundo tem boas histórias para contar e eu amo ouvir cada uma delas. Sempre me deixa inspirada”, diz a jovem escritora.

Aos 14 anos, Larissa já mandava livros para as editoras nacionais, mas por diversos empecilhos, como a dificuldade de encontrar público e aprender a fazer seu próprio marketing, acabou recebendo toneladas de mensagens negativas. “Naquela época, não havia muitos autores nacionais fazendo sucesso e eu não tinha para onde recorrer. Fui tendo que abrir meu próprio caminho”, afirma.

Da publicação independente à Editora Record

Sem conseguir uma editora que ajudasse a publicar suas obras, com apenas 17 anos, ela decidiu lançar seus primeiros livros — Toda Garota Quer e O Senhor das Armas — de forma independente. Hoje, Larissa Siriani percebe que fez isso por pressa e deveria ter esperado. “Sempre sonhei em ser escritora e quando surgiu a primeira oportunidade, mesmo tendo que pagar por ela, eu agarrei! Passei por vários perrengues, desde o despreparo até a falta de oportunidade de vendas. Mas no final, valeu a pena pelo tanto que eu aprendi!”, conclui.

Siriani acredita que a publicação independente é uma opção válida e não diminui em nada o trabalho ou o valor do autor que opta por ela, mas é preciso que as pessoas estejam preparadas e cientes dos desafios, pois a publicação é só o início do processo.

Após alguns anos de árduo trabalho, suas noites mal dormidas finalmente valeram a pena. Em 2016, seu novo livro foi publicado por uma das editoras mais renomadas no mercado brasileiro, a Record. “Foi uma surpresa muito boa que veio num momento em que eu já tinha basicamente desistido totalmente da minha carreira. Eu gritei muito quando recebi a ligação, chorei, e então pensei: o trabalho está só começando!”, relata alegremente, lembrando-se da sensação de vitória.

No entanto, fazer parte de uma editora de grande porte não significa facilidade, significa trabalhar em dobro. Tenho tentado fazer por merecer todos os dias desde então”.

Siriani, sempre empolgadíssima, ao encontrar um pôster do seu livro na Livraria Leitura, do Shopping Cidade São Paulo. (Foto: Arquivo pessoal)

Quando se tem amor, todo desafio é insignificante

Com todos os desafios que um escritor enfrenta no atual mercado editorial brasileiro, Siriani decidiu começar a trabalhar com uma agência literária — a Increasy— e todo o contato com as editoras é mediado por ela. Segundo a autora, trabalhar com uma agência é algo crucial na vida de um escritor nacional. O processo é facilitado, porque as grandes casas editoriais raramente recebem ou mesmo avaliam o trabalho que é enviado diretamente pelo autor. “E ter um agente mediando coloca seu nome na fila prioritária, por assim dizer”, afirma.

Trabalho de marketing do livro Amor Plus Size pela agência literária Increasy. (Foto: Arquivo pessoal)

Quando relembra os problemas do passado, Larissa relata situações inusitadas pelas quais já passou com editoras independentes. “Preços exorbitantes, contratos absurdos, promessas que nunca são cumpridas. Tem de tudo para pegar autor desavisado. Até livro meu sendo vendido depois de contrato desfeito — já tive. Tem pilantra de todos os tipos”, confirma.

Sobre os famosos e temidos livros de youtubers — acusados de serem a razão pela qual a literatura brasileira está se desvalorizando com o passar do tempo — Larissa tem uma opinião muito clara. Ela os vê como um “mal necessário”. Segundo a autora, são livros de venda rápida, que geram capital para que as editoras possam investir em outras publicações, como de autores nacionais. “Profissionalmente, é preciso entender que livros que vêm atrelados a nomes de sucesso ou que são publicados em épocas de ‘hype’ muito grande (como os livros de colorir — e agora os de youtubers) são necessários para movimentar o mercado. Precisamos lembrar que editoras são empresas, com contas a pagar e funcionários pra receber, e não organizações de caridade”, diz.

Apesar de tudo, para Siriani, o mercado editorial brasileiro amadureceu muito na última década. Ela afirma que é uma boa época para ser escritor no Brasil, não pelo retorno financeiro, mas pelo reconhecimento. “O público já está acostumado a ouvir falar de nós e está mais receptivo, e isso por si só já facilita o nosso trabalho.”, relata. Mas isso não quer dizer que não existam problemas na indústria literária, pois existem, e muitos.

A jovem escritora em uma tarde de autógrafos na Livraria Saraiva. (Foto: Arquivo pessoal)

Em sua opinião, há mais pontos negativos do que positivos na profissão de escritor, mas ela acredita que no final, se ama verdadeiramente o que faz, sempre valerá a pena, apesar de todos os desafios envolvidos. “Nós não somos bem pagos, gastamos muito mais do que lucramos, nossa profissão é desvalorizada e muita gente sequer considera isso trabalho. É difícil sobreviver como escritor. Mas, por outro lado, viver de uma coisa que se ama e ver histórias ganhando forma e conquistando leitores é tão gratificante que faz tudo valer a pena”, diz, com um grande sorriso no rosto.

Ao final da entrevista, a escritora ainda comentou a falta de editoras dispostas a investir na construção do nome do autor, sendo que a indústria literária está tão habituada a pegar sucessos prontos que poucas vezes vemos editoras arregaçando as mangas junto com os autores para fazer seus livros desconhecidos crescerem. “Acredito que é um trabalho em conjunto e um precisa do outro pra crescer, mas da mesma forma como vejo autores despreparados, também vejo editoras desinteressadas. Tem que ser uma via de mão dupla”, conclui Larissa Siriani.

Confira as DICAS da Larissa Siriani para quem deseja INICIAR UMA CARREIRA DE ESCRITOR

Celso Unzelte, jornalista e professor, afirma que “sempre vai valer a pena” escrever livros

Mesmo com o mercado brasileiro sendo tão difícil, o escritor acredita que sempre existirão pessoas interessadas em ler alguma coisa

Por Marina Bufon Nunes

Celso Unzelte, em entrevista na Faculdade Cásper Líbero (Foto: Fernanda Caseiro Talarico)

“Será que neste lado da sala não ficaria melhor?” Foi assim que Celso Unzelte, em um dos intervalos de aula da Faculdade Cásper Líbero, recebeu nossa reportagem. Para os desinformados, além de comentarista, Unzelte também leciona no curso de Jornalismo da instituição — motivo pelo qual este “pitaco” inicial (acatado, por sinal) foi encarado como mais uma de suas dicas extradisciplina.

Jornalista e pesquisador, Celso Dario Unzelte iniciou sua carreira na revista esportiva Placar, em 1990, especializou-se na área de esportes com ênfase na pesquisa histórica, leciona na Faculdade Cásper Líbero desde 2003 e é comentarista dos canais ESPN e TV Cultura. Como se não bastasse, o professor-pesquisador-comentarista ainda é escritor e tem mais de 20 livros publicados, contando as republicações.

À vontade e vestido com calças compridas, camisa social de manga longa e óculos (mesmo sendo difícil imaginá-lo com outra roupa senão uma camisa do Corinthians), Celso explicou que desde criança, por gostar muito de quadrinhos, pensava em publicar livros. “Pensar em publicar livros a gente pensa. Eu sempre tive uma queda pelas Humanas. Brinco que muitos de nós acabam optando por uma faculdade de Jornalismo porque não há uma faculdade para escritor.”

Na conversa, o professor comentou que existem muitos jornalistas escritores justamente por isso, já que um livro não é, para ele, sua principal atividade, mas sim uma renda e trabalho extras. Principalmente no Brasil, “um país que precisa convencer as pessoas a comprar livros, a ler livros, a valorizar um livro”, desabafou.

Pode-se imaginar, então, que os caminhos percorridos pelos escritores brasileiros para realizar suas obras sejam bem tortuoso. Com Celso não foi diferente, mas ele confessa que teve um pouco de sorte:

Celso Unzelte acredita que quando o assunto é esporte as coisas se tornam ainda mais difíceis. Sim, mesmo sendo um assunto tão amado e comentado no país, ele não acredita que as pessoas gostem de ler sobre o tema, principalmente na sua área, que é mais abstrata, factual e histórica, mas que as redes sociais têm ajudado neste aspecto. “Elas proporcionam você a encontrar também, mais facilmente, onde estão essas pessoas. É nicho, você está trabalhando com nicho. Em compensação, hoje fica mais fácil de avaliar onde está esse nicho e se vale a pena produzir para este nicho. Sempre vai valer a pena, sempre terá alguém.”

Ainda sobre a internet, o autor comentou sobre os e-books, que acredita ser um complemento e que poderá, um dia, substituir o papel dos livros.

Alívio para os próximos escritores? Talvez, mas muitos outros aspectos envolvem a produção de um livro, seja no que concerne à preocupação do escritor seja de edição, distribuição, entre outros. Ao que produz, é necessário, se for o caso, ser referência na área, como é com Unzelte, há anos considerado um especialista em dados históricos sobre clubes de futebol e que ainda mantém um aplicativo com todos os jogos do Corinthians, seu time do coração.

Falando em paixão, Celso também comentou sobre os rivais Palmeiras, Flamengo e Santos, e dos livros que já fez sobre esses clubes.

Seja sobre Corinthians, manuais de outros times, livros para cursos de Jornalismo, Celso Unzelte pretende estar nas prateleiras por muito tempo, já que considera, além do futebol, o livro como uma de suas paixões, tanto na produção quanto ao tê-los em casa. Se você pensa em, algum dia, tornar-se um escritor, Celso dá mais algumas dicas e avisa que, sim, livro é mesmo a porta para muitos horizontes e não deve nunca ser desvalorizado.

Nunca Diga Nunca

O caminho de uma autora nacional na internet

Por Fernanda Caseiro Talarico

A tecnologia sempre traz consigo uma necessidade de inovação da sociedade, não importa a área em que ela esteja inserida. Com o mundo literário não foi diferente: se por um lado encontramos uma grande resistência das editoras de abrirem suas portas para novos rostos, por outro temos a internet como ferramenta para impulsionar o desenvolvimento desses novos autores.

Este é o caso de Tati Loupatiuk, que, mesmo formada em contabilidade, não deixou de lado seu amor pela escrita e, hoje, com 33 anos, é redatora publicitária e tem dois livros publicados em e-book, disponíveis na Amazon: Malvarrosa e Invisível. Loupatiuk encontrou na internet uma maneira de desenvolver sua habilidade como autora de crônicas, ensaios e romances.

A autora, que começou com um blog, nos contou qual sua relação com a literatura, como foi o contato com editoras e muito mais. Confira nossa entrevista abaixo.

Fernanda Talarico: Qual foi o seu primeiro contato com a literatura?

Tati Lopatiuk: Meu pai tinha uns livros velhos da Agatha Christie e eu lia para passar o tempo. Até hoje ela é das minhas autoras mais queridas.

FT: Quando você começou a escrever?

TL: Em 2003 eu abri o meu primeiro blog, que nem existe mais, o “Respeite Meus Mullets”, e não parei mais. Com os anos, fui mudando o formato da minha escrita. Comecei com crônicas do meu cotidiano, depois fui fazendo ensaios mais engraçadinhos, depois textos mais intimistas, aí resenhas de livros e discos e, agora, escrevo romances. Profissionalmente, eu mudei da contabilidade para a redação quando mudei do Paraná para São Paulo e resolvi ir atrás de trabalhar com o que realmente gostava. Isso foi em 2009.

FT: Como você começou a publicar?

TL: Comecei no Wattpad, que é uma plataforma onde você publica capítulo a capítulo e as pessoas podem ler online pelo link ou pelo app. Isso foi em 2014 e como era (ainda é um pouco) uma coisa um pouco underground, foi um bom modo de começar a publicar sem fazer disso algo muito importante, que me pressionasse. Foi meio que só para mim, mas aí, como fez algum sucesso, me vi empenhada em escrever mais e mudar para a Amazon.

FT: Você pretende ganhar a vida sendo escritora?

TL: Como escritora eu acho difícil, mas escrevendo é possível, já que é o que eu já faço trabalhando com a escrita dentro da publicidade e das mídias sociais.

A autora Tati Loupatiuk (Acervo Pessoal)

FT: Você já entrou em contato com editoras?

TL: Já mandei meus manuscritos para várias editoras! Elas sempre dizem que o livro é bom, mas não é o que elas querem publicar agora. Mesmo com indicações, indo direto com o editor, a resposta é sempre essa.

FT: Você pretende publicar livros físicos?

TL: Não tenho planos, mas como diz o Justin Bieber, “nunca diga nunca”. Eu nunca planejei nem mesmo escrever livros digitais e olha eu aqui. ​ ​A Amazon dá a opção de você comprar sob encomenda​ ​uma versão física dos livros virtuais, mas ainda não estudei a fundo esse formato. Eu me sinto feliz como uma escritora de e-books. Não acho que preciso ​obrigatoriamente me prender ao modo antigo, ​como se só ele validasse o meu trabalho. Eu já rompi com ​o modo antigo quando escolhi ser uma “escritora digital”​ e isso para mim não é um problema. Tenho muito orgulho da trajetória que escolhi e estou segura dela​. Além do mais, o futuro é digital.

FT: Por que você decidiu publicar na Amazon?

TL: Porque cansei de as pessoas pedirem para ler meu livro e acharem que era muito difícil pelo Wattpad, assim como cansei de mandar meus originais para editoras e receber “não” como resposta incontáveis vezes. Publicar na Amazon é um jeito de ter seus livros publicados; pode não ser o mais glamoroso nem o mais lucrativo, mas é o jeito de realizar um sonho e no fim do dia é isso o que conta.

FT: Vale a pena publicar na Amazon?

TL: Para alguém que escreve sem muita pretensão, acho bem ok. O valor recebido é bom e você tem total autonomia para lançar suas obras, não responde a ninguém. Vale também, como eu disse, pela realização do sonho. De saber que você foi e fez, não ficou esperando pelos outros.

Foto de divulgação dos livros “Malvarrosa” e “Invisível”, ambos pela Amazon (Imagem Divulgação)

FT: Qual outra plataforma que você usa ou usou para lançar seus livros?

TL: Usei o Wattpad no começo, mas depois, por exigência de contrato, retirei meus livros de lá para lançar com exclusividade na Amazon. Divulgo meus livros nas minhas redes sociais, como Facebook, Instagram e Twitter.

FT: Você tem dois livros na Amazon, o Invisível e o Malvarrosa. Quais outros você tem?

TL: ​Eu tenho esses dois já na Amazon e mais três que estiveram no Wattpad e eu vou revisar para colocar na Amazon. Ao mesmo tempo, estou finalizando mais um, totalmente inédito, que devo lançar nos próximos meses.​

FT: Você já pensou em desistir?

TL: Não, porque não tem como. Faz parte do que eu sou, é algo natural meu. Mesmo quando era contabilista eu escrevia “escondido”, hoje é algo totalmente inserido na minha rotina e na minha identidade.​

FT: Qual seu critério para comprar livros físicos ou e-books?

TL: Hoje em dia só compro livro físico se realmente gosto do autor ou se já li o ebook e quero ter o livro na estante de verdade.

FT: Qual seu livro preferido?

TL: O Morro dos Ventos Uivantes, da Emily Brontë​. Nenhum jamais superará.

FT: Qual sua maior vontade como escritora?

TL: ​Quero que as pessoas leiam um livro meu e se sintam bem, felizes, motivadas e inspiradas. Esse é o meu maior incentivo para continuar, saber que eu mudei nem que seja um pouquinho o dia de alguém.

FT: De onde você pega inspiração para seus livros?

TL: Músicas, principalmente. Ouço muita música e presto bastante atenção nas letras. Também me inspiro em filmes e séries que assisto.

​​ FT: Você tem alguma dica para quem quer começar a escrever?

TL: Eu acho que o principal é que você deve escrever o que você gostaria de ler. Não importa se alguém vai ler, se vai “bombar de like”, se vai vender. Escreva o que você gostaria de ler, da forma que te faz feliz, e as coisas vão acontecer.

FT: Você acha que o Brasil não dá o devido reconhecimento aos escritores iniciantes?

TL: É difícil. Acho que vem da nossa própria cultura dar mais valor para quem já é conhecido, não “confiamos” em gente nova. Buscamos muito mais a fama, o glamour de quem já tem alguma notoriedade. Para ser publicado também é preciso ter uma boa rede de contatos, coisa que nem todos têm. É preciso ter coragem e batalhar sozinho pelo seu se quiser que as coisas aconteçam para você.