Espiritualidade dos animais

Por Anna Paula Dechechi, Beatriz Nery de Queiroz e Vivian Gonçalves de Souza, alunas do 1º JOD

“Morri como mineral,

E tornei-me planta.

Morri como planta,

E surgi como animal.

Morri como animal,

E sou humano…

Por que ter medo?

O que perdi ao morrer?

Mas de novo vou morrer como humano,

Para voar com os anjos, abençoado.

E mesmo como anjo, terei de morrer.

Todos perecem menos Deus…

Quando eu tiver sacrificado

A minha alma de anjo,

Me tornarei

O que a mente sequer concebe! (“…)”

Autor: ― Jalal ad-Din Muhammad Rumi

A espiritualidade é um tema que instiga a humanidade. Tema que tem se expandido ao universo animal, gerando discussões e posições diversas de diferentes religiões e culturas. Nesta página, analisaremos a questão espiritual dos animais por meio de entrevistas com representantes religiosos e especialistas de diversas áreas, como sociólogos e veterinários.

Umbanda — A essência primária animal

Muitas religiões acreditam na espiritualidade dos animais, que eles estão num processo de evolução espiritual e que os humanos possuem a responsabilidade de auxiliá-los neste caminho. É o caso da umbanda, aqui representada pela sacerdotisa Iracema Silvestre, que atua há vinte e quatro anos.

Quando lhe foi perguntado se os animais possuem espírito, a resposta foi: “Lógico, tudo que é criado por Deus tem vida e tudo que tem vida tem alma.” Ela também chama a alma de “essência primária”.

Iracema se afirma espiritualista, que crê na força dos espíritos e axé dos orixás, que, por sua vez, são ligados aos animais. Desse modo todos possuem ”animais de força”. Cada animal tem a sua representatividade. Segundo ela, podemos citar o cachorro, que representa a longevidade, fidelidade, amizade, abertura e compreensão. Dentro de uma ligação com eles podemos citar o de cachorro que pode significar que umas dessas características faltam na pessoa, contudo é importante ressaltar que cada caso precisa ser estudado em particular para definir a causa do medo.

Ao analisarmos o comportamento dos animais, percebemos que eles possuem sentimentos e comportamentos que se assemelham aos humanos de certo modo, bem como o contrário. Isso pode ser resultado de reencarnações, resquícios que permanecem de outra vida (fator que faz parte da doutrina da umbanda). Entretanto, diferente de outras religiões para a umbanda, não é algo corriqueiro pessoas reencarnam como animais. Casos assim ocorrem apenas quando o ser humano utilizando do livre arbítrio decide que a aprovação que precisa passar para se redimir é vir como um animal. De mesma forma, nem todos os humanos já foram animais, pois os seres humanos foram gerados por Deus na criação, mas dentro do campo da evolução espiritual animais podem reencarnar como humanos. O animal tem seu raciocínio, lógica e pensamento, dentro do padrão para que fossem criados e por isso podem ser manipulados, já o homem só pode ser manipulado se ele permitir, porque ele tem inteligência, raciocínio e sabedoria que pode desenvolver com rapidez e consciência diferente dos animais. Iracema afirma que dentro dos animais existem seres que são inteligentes, que possuem o objetivo de ter um estudo e amplificação do cosmo através da ótica do animal.

Diferente do que muitos afirmam o ser humano não é dono da natureza, mas o gerenciador. E como tal têm a responsabilidade de auxiliar os animais em sua evolução, desse modo quando questionada sobre a humanização dos animais, Iracema afirmou:

De acordo com a umbanda os animais são portos de defesa das pessoas, as protegem, o gato, por exemplo, considerado o animal mais negativo, puxa estas energias para si, isso é possível, pois sua alma é distendida, possuindo, sete vezes a expansão de áurea dos outros animais podendo proteger sete pessoas diferentes, enquanto os demais animais protegem apenas uma. Por isso, pode-se afirmar que os animais se doam pelos seus donos e quando é o caso de fazer um tratamento espiritual no animal é preciso fazê-lo com o dono também, caso o contrário ele não ficará bom, sempre pegando para si as energias do dono.

Iracema já realizou três tratamentos espirituais com animais: Sua vizinha ao ficar viúva, entrou em grande tristeza, juntamente de seus cachorros que perderam o pelo, mas após o tratamento com banhos se recuperaram; Iracema também tratou seus próprios gatos. Após o nascimento de sua neta ela precisou doá-los, pois foi descoberto que sua neta possui alergia ao pêlo, para que seus bichinhos não sofressem ela explicou para eles a situação, pediu desculpas e orou por eles; o terceiro tratamento foi após a morte do Baby, um papagaio que com trinta e sete anos morreu de idade, deixando sua dona com depressão e inconformada com sua partida, o tratamento consistia em auxiliar a compreensão da dona de Baby com a desencarnação dele. É importante ressaltar que cada caso exige um tratamento específico.

Na umbanda não é obrigação ser vegano, contudo quando possível evitam comer carne, pois acreditam que a carne animal traz um peso dentro da espiritualidade. Por isso, em dia de trabalho espiritual não se deve comer carne. Para Iracema desistir de comer carne tem que ser um processo íntimo de cada um.

Na espiritualidade existem os reinos animais, dentro destes estão todas as classificações de espíritos que precisam aprender, onde todos tem sua essência primária e seu campo de evolução.

A reencarnação não favorece o ser humano naquilo que ele mais necessita, ele precisa ficar dentro de determinado reino, para ser tratado e aí reencarnar, para que haja o processo de expurgação. Estes reinos também são utilizados em casos quando em vida maltratamos os animais, sendo um fator que acarreta um carma pesado para a pessoa.

Para a umbanda, todos os animais possuem seus propósito de estar na terra e por isso devem ser respeitados como seres pensantes que são. Iracema afirma que “Pluralidade dos mundos é importante para entendermos a grandiosidade do mistério vida”.

Glossário (de acordo com a apostila do curso de Médiuns e Cambonos)

Obrigação — festa em homenagem aos Guias ou Orixás. São também as determinações feitas aos médiuns ou consulentes pelos Guias com o objetivo de auxílio ou como parte de um ritual do desenvolvimento mediúnico.

Trabalho espiritual — Parte da gira (sessão de umbanda) com cânticos e danças para cultuar as entidades e orixás.

Kardecismo- ASSEAMA: o lar deles

Aoouvir a palavra kardecismo, muitas pessoas pensam no médium Chico Xavier e suas cartas psicografadas. Ou nas cirurgias espirituais realizadas por João de Deus e noticiadas pelos mais diversos veículos de comunicação. Apesar de serem figuras que permitiram a expansão e popularização do kardecismo no Brasil, essa doutrina vai além do contato dos humanos com os planos espirituais e os desencarnados. Com a máxima de que “fora da caridade não há salvação”, os centros kardecistas buscam levar conforto para seus frequentadores e seus entes queridos.

Tendo em perspectiva essa questão de conforto, acalento e caridade, encontramos na zona norte de São Paulo, mais especificamente no bairro do Tucuruvi, a Associação Espírita Amigos dos Animais — ou simplesmente ASSEMA. Esse centro kardecista, diferentemente dos demais, realiza um trabalho cujo foco é o bem-estar dos bichinhos e a conscientização dos seres humanos em relação à forma com que esses seres devem ser tratados. Não por acaso, o líder espiritual da casa é São Francisco de Assis.

Funcionando semanalmente de quarta-feira até domingo, a casa oferece aos animais passe espiritual, tratamento de cromoterapia e cirurgia espiritual. Já para os humanos, há a possibilidade de tomar passe, receber uma psicografia que relata a vida do animal desencarnado no plano superior e também participar de uma “reunião de consolo” que ocorre todas as sextas- feiras e busca ajudar os tutores — nome dado pelo ASSEAMA aos responsáveis pelos animais de estimação — a entenderem a passagem de seus bichinhos para o plano espiritual.

A maior parte desses trabalhos que envolvem os animais ocorre no domingo, com a primeira sessão marcada para às oito horas. Diferentemente do que a princípio se possa imaginar, a ASSEAMA é muito popular. Na visita que fizemos ao centro, em um domingo, chegamos às cinco e quarenta e cinco e já havia pessoas do lado de fora aguardando o local abrir juntamente com seus animais.

Dentre os muitos frequentadores que passaram por lá, em um dos domingos em que visitamos, havia Paula Alves Washizuka. Ela nos contou que frequenta a ASSEAMA há nove anos porque Jack, seu cachorro, ficou paralítico quando tinha três anos. Disse que o período que sucedeu esse acontecimento foi marcado por diversos tratamentos, realizados tanto na ASSEAMA quanto em clínicas especializadas. Disse também que depois que seu cachorro melhorou resolveu parar de frequentar por um período para poder dar lugar àqueles animais que precisavam de atendimento. Mas que sempre que sentia que seu animal precisava de algum cuidado voltava lá.

Sendo a ASSEAMA um centro espírita voltado aos animais, uma das exigências básicas para ser voluntário é estudar a doutrina espírita por meio dos cursos que a casa oferece e ser adepto do veganismo (prática em que o indivíduo não consome nada de origem animal). O raciocínio que resultou nessa condição de vegano é o seguinte: se você não maltrata e ama um, porque maltratar o outro? Não é à toa, portanto, que dentro da área da ASSEAMA haja uma lanchonete que vende produtos veganos prontos para consumo e também uma lojinha que vende desde pasta dental que não foi testada em animais até ração vegana.

Lojinha da Asseama

Outro fato interessante é que, ao levar os seus animais de estimação para o ASSEAMA, os indivíduos também são afetados. É muito comum as pessoas diminuírem drasticamente o consumo de animais depois que passaram a ir lá ou então perceberem em seus lares e até mesmo em si mesmas uma sensação de paz e tranquilidade. É claro que há momentos, como quando um animal de estimação está para fazer uma cirurgia espiritual, em que o dono deste precisa ficar sem ingerir carne, álcool e sem fumar, mas é apenas por três dias.

Em um bate-papo com Sandra , presidente da ASSEAMA, ela contou a relação entre o kardecismo e os animais. De acordo com ela, o “próximo” que é sempre tão citado pelas religiões são os animais e a obrigação dos humanos é cuidar deles e amá-los para que consigam evoluir espiritualmente até terem condições de se tornarem seres humanos. Na opinião dela, o consumo animal, que fazemos atualmente, diminuirá ao longo do tempo e será considerado uma violência, assim como a escravidão é vista nos dias atuais. Sob seu ponto de vista, é tudo uma questão de evolução espiritual.

Sobre o fato de que nos dias atuais há muitos negócios que antes tinham como público alvo os seres humanos e se estenderam aos pets (padaria, hotel, carrinho para transporte, roupas), ela disse: “Essa realidade é algo esperado e faz parte da evolução humana. Há indícios de que em outros planos e universos os animais são ensinados a escrever e sabem se comunicar de maneira precisa e com fácil compreensão. Então, isso não me surpreende”.

Independente da crença de cada um, é possível reconhecer na ASSEAMA um lugar que pode trazer conforto para as pessoas e tem uma energia muito poderosa. Se o silêncio é presença em determinados momentos das cerimônias na igreja católica, no templo budista e no centro kardecista, na ASSEAMA não é diferente. Algumas pessoas podem pensar que, por haver um encontro com diversos tipos de animais, a formação de um estado de caos é certa. Contudo, eles não se estranham, não ficam agitados e não latem, miam ou reproduzem de maneira contínua e alta qualquer som. O que parece é que eles gostam de estar lá, assim como seus donos.

Humanos x Não humanos

Sociólogo Liráucio Girardi Júnior

Aespiritualidade dos animais é um tema que abrange diversas visões e ideias, para alguns uma simples fala pode tornar todo contexto polêmico uma espécie de tabu perante a sociedade, para outros a questão é vista como algo natural, ou seja, se a sociedade evolui, com o tempo debater vertente como está é normal e necessário. Dentro deste cenário conversamos com o sociólogo Liráucio Girardi Júnior, professor da Faculdade Cásper Líbero na disciplina para saber qual é a visão deste campo de estudo sobre o fato de as pessoas aderirem à tese de que um animal tem espírito, que este vai evoluir e mais futuramente pode reencarnar como humano e o uso de tratamentos espirituais para tratar doenças. O professor fica surpreso não só com a pergunta mas com as informações dadas antes dela sobre a ASSEAMA e as atividades ali feitas. Ele não tinha conhecimento sobre esses tipos de tratamento.

Lira nos conta que atualmente há uma discussão bem forte sobre humanos e outros animais e humanos e as máquinas, que para muitos se resumiria em um embate entre humanos e não humanos. Explica que “quando você define humanidade acaba por consequência determinando o que não é humanidade”, excluindo uma série de coisas. Humanos, máquinas e outros animais sempre estiveram integrados em uma experiência comum. Girardi cita também a dimensão simbólica do humano. “Um humano cria essa ideia de evolução, mas precisamos saber se ela existiu ou é só uma forma de crença.” Ele explica que o próprio fato de se imaginar que um espírito pode evoluir, reencarnar, é uma construção simbólica que só nós, humanos, podemos fazer. “É difícil saber se o animal tem noção disso.”

Liráucio vê o humano como centro de toda essa experiência. Ele observa e tenta a todo momento interpretar atos, por isso o animal é sempre visto dentro dessa perspectiva. “Não dá pra saber o que o animal pensa do humano.” O fato de enxergarmos estes dentro de um processo simbólico dá um lugar social para eles dentro de nossa sociedade, o que nos leva a humanizá-los, a ter uma relação de parentesco com o bicho. “Essa relação é sempre construída, o animal em si não teria essência nenhuma sem o humano.”

No entanto, não são todos os animais que têm significados ou uma percepção social perante a sociedade. No Brasil, por exemplo, o cachorro é visto como um amigo do homem e tratado como tal, pode viver com o dono. Em contrapartida, na China, esse mesmo animal é considerado um alimento, o que causa aversão de muitas pessoas, pois, como ele se encontra dentro de um ciclo humanizado, utilizá-lo de outra forma se torna um tabu. O professor ainda complementa que não só o animal pode entrar nesse ciclo de desumanização como o próprio humano pode compor este curso. Um exemplo dessa temática seriam os moradores de rua, que vivem muitas vezes como invisíveis perante a sociedade.

Perguntamos a ele se o fato de criarmos relações de parentesco humanizando determinados animais pode ser causado porque nós estamos mais individualistas, o que ocasiona uma carência que pode substituir o contato humano pelo dos animais. Ele acredita que sim. “Não só com os animais, o lugar que os animais podem ocupar hoje as máquinas podem ocupar no futuro.” Girardi ainda complementa: “Se um coletivo acredita que o que ele vive é real, então isso é real e não sua consequência. Se você acredita que os animais têm uma alma ou algo, além disso, você age como se eles tivessem mesmo”. É a partir dessa crença que o animal atinge um determinado lugar na sociedade.

A religião, para ele, vê a humanidade como parte de um processo, então é humano o que distingue os animais, é a diferença de grau em que eles estão, em estágios inferiores aos nossos. Como foi dito pela sacerdotisa da Umbanda, o animal pode reencarnar como humano e não ao contrário, pois seu espírito estaria regredindo. Do ponto de vista sociológico, o professor considera essa visão totalmente evolutiva. “É como se não tivesse retrocesso.” Ele ainda cita o carma, que é falado pelos kardecistas quando você fica mais tempo em uma determinada condição antes de evoluir. Ele diz desconhecer como ocorre esse processo, ou seja, o que deve acontecer ou quais atitudes devem ser tomadas para o fim desse carma. “São coisas para se perguntar: como se define isso?” Girardi afirma não ter nenhuma religião, mas vê na espiritualidade um “potencial incrível do ser humano, só ele pode crer e essa crença tem um poder que dá uma força para esse”.

Liráucio ainda fala da questão da evolução desses animais que é analisada sempre da perspectiva do humano. No entanto, existem filmes que nos mostram o contrário, como O Planeta dos Macacos e Ela, entre outros, em que os animais ou máquinas, ao reconhecerem a humanidade, não se tornam necessariamente humanos, mas, sim, outras coisas que fogem do ciclo de humanidade. por fim, Lira ainda comenta como a antropologia vê essa temática. Para as tribos indígenas os animais não são animais exatamente, são vistos como parentes simbólicos. “Não é uma questão de evolução, para eles não existe algo ou alguém que é mais evoluído que o outro.”

Medicina “terrena”

Depois de entrevistas com a líder de um centro de Umbanda, frequentadores e trabalhadores da Asseama e um sociólogo, resolvemos conversar com uma pessoa que estuda o cuidado dos animais a partir da medicina “terrena”. No caso, a veterinária Adriana Moraes, de 39 anos, que atualmente trabalha na clínica veterinária Arca de Noé e oferece serviços de clínica geral e cirurgias.

A primeira pergunta que fizemos a ela foi se acredita que os animais possuem espírito. Disse acreditar que sim, mas que não tem como comprovar isso porque não existem estudos que façam essa análise se tornar verídica. “Assim como nós, humanos, não sabemos o que acontece depois [da morte], apesar de acreditarmos que algo acontece, com os animais é a mesma coisa.”

Por ela ter cursado medicina veterinária há 16 anos, indagamos se durante o curso teve temas como esse abordados em alguma disciplina. Adriana nos relata que quando estava na graduação tópicos como esse nunca foram abordados, mas em sua pós, sim. Diz que hoje há uma área na psicologia humana voltada para essa questão. “Há psicólogos que atuam em consultórios, hospitais, centros espíritas e que possuem uma ligação direta com os tutores de animais que querem lidar com a questão do luto, por exemplo”. Há também, segundo Moraes, veterinários que trabalham a questão do comportamento e bem-estar do animal.

Questionada sobre a crescente humanização pela qual os bichinhos vêm passando, como as relações de parentesco “mãe/pai e filho” e o uso de acessórios nos animais de estimação, ela alega não ser contra nem a favor. Para a veterinária, os tutores devem avaliar como o animal se sente em relação a isso. “Tem animais que se sentem mal, outros se sentem superbem. São os donos que têm que observar isso e respeitar o gosto de seus bichos.” Ela ainda ressalta que há hábitos para nós, humanos, que são normais, como tomar banho todo dia, mas que, diferentemente do que alguns proprietários pensam, não podem ser aplicados aos animais. “A pele deles é sensível, sendo assim os banhos são recomendados a cada quinze dias. Quando se é recém-nascido tem que esperar cerca de três meses até ter todas as vacinas.”

Adriana conta que já trabalhou com dois animais que faziam tratamento na ASSEAMA e que nesses casos os bichinhos apresentavam problemas crônicos. Ou seja, as chances de terem uma vida longa eram mínimas. “Um deles apresentava insuficiência renal, necessitando de um tratamento a longo prazo com hormônios. Como essa doença não tem cura, os donos resolveram buscar alternativas para ajudar o bem-estar do animal e passaram a levá-lo uma vez por semana na Asseama.” Ela afirma que não sentiu melhora nos sintomas dele, mas que os donos notaram que ele estava mais calmo e não sentia tantas dores.

Perguntamos sua opinião sobre os centros espíritas ajudarem mais os seres humanos do que os animais. Ela afirmou: “Um pouco de cada, o proprietário vê essa alternativa como uma forma de conforto, de que está fazendo tudo o que pode”. Ela ainda completa dizendo que considera o tratamento espiritual um reforço para levar conforto ao tutor e para o animal. Em seguida, afirma: “Para mim é indiferente, desde que os donos não abandonem o tratamento de medicina humano eu apoio qualquer decisão”.

A visão cristã

Santo Católico São Francisco de Asssis

Uma pesquisa do Datafolha publicada em 2016 indicou que cinquenta por cento da população brasileira se declara católica. Pensando nesse fato e também na influência que podemos notar na sociedade brasileira (escolas católicas, diversas igrejas espalhadas por diversos bairros, símbolos católicos em edifícios corporativos e judiciários), resolvemos abordar a espiritualidade dos animais no contexto do catolicismo.

Primeiramente, deve-se dizer que a religião Católica Romana também se volta para a preocupação relacionada à proteção e ao cuidado com os animais. Há nela dois santos considerados protetores: São Francisco de Assis e São Felipe Neri.
Apesar de muitos os conhecerem, poucos sabem que em outubro é realizada
em várias Instituições Católicas a bênção aos animais, tendo o primeiro santo como padroeiro. Nesse evento, pessoas levam seus bichos de estimação ao local em que será realizada essa bênção e padres oram e os benzem. A Paróquia São Francisco, localizada na Vila Clementino, zona sul de São Paulo, realiza este evento durante um período do mês de outubro, como uma parte das igrejas católicas. O diferencial dela é que, além de os bichos receberem a água benta, os donos ganham um pacote de ração benzida que é destinado, obviamente, aos animais.

Em 2015, o papa Francisco escreveu sua Encíclica Papal. Intitulada Laudato Sí (Louvado Sejas, em português), a carta tem como objetivo discutir a questão da deterioração ecológica do planeta, o que engloba também a questão animal. Nela, Francisco defende a ideia de um consumo menos agressivo da carne animal como alimento, porque esse hábito interfere no desmatamento de áreas verdes e como consequência afeta o equilíbrio natural. Além disso, ele diz no texto que com São Francisco de Assis “nota-se até que ponto é inseparável a preocupação pela natureza, a justiça para com os pobres, o empenho na sociedade e a paz interior”.

Apesar de o próprio papa admitir uma postura sensível e compreensiva em relação aos animais e à natureza, e de muitas igrejas católicas dedicarem tempo e esforços ao bem-estar animal, há membros da Igreja Católica Romana que possuem uma visão mais utilitária. No portal online Padre Paulo Ricardo, por exemplo, é possível encontrar uma tese interpretada a partir de um trecho da Bíblia que defende a ideia de que “os animais estão sujeitos ao governo daquele que foi criado à imagem de Deus, ou seja, ao homem. Isso quer dizer que é lícito utilizar os animais para alimentação, para vestimenta, como auxílio no trabalho, no lazer (após domesticados), e também em experimentos científicos. As experiências médicas e científicas em animais são práticas moralmente admissíveis desde que não ultrapassem os limites do razoável e contribuam para curar ou poupar vidas humanas”.

Outra questão que também pode ser considerada divergente é o posicionamento que a líder da ASSEAMA, do centro umbandista e esse portal católico possuem a respeito da humanização dos animais. Enquanto aquela afirmava que não há problema nenhum em “humanizar” os animais (comprar chupetas, roupas, carrinhos de bebê para uso animal), esses acreditam que a prioridade deve ser o cuidado e a superação da miséria humana. Muito mais do que ser contrário a isso, esse portal católico é favorável à ideia de priorizar o amor ao ser humano. “O Catecismo ainda explica que é contrário à dignidade do ser humano cobrir de luxos os animais, ou seja, gastar com os animais de estimação uma soma que poderia ser revertida para uma criança órfã, por exemplo. Igualmente, não é correto amar os animais mais que às outras pessoas. O Catecismo é muito claro nesse sentido, não deixando margem para qualquer dúvida.”

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