Gastronomia internacional no Brasil: muito diferente da original?

Por Caio Vinícius Teixeira, Giovanna Romano e Jennifer Lee, alunos do 1º JOD

O Brasil é um país com uma história de miscigenação cultural ampla, marcado pela diversidade dos povos que compõem a sua cultura. As imigrações tiveram início em 1530, com a chegada dos portugueses, e continuam acontecendo. Atualmente, os principais povos que vieram ao país são: portugueses, italianos, alemães, japoneses, bolivianos e espanhóis, entre outros. Eles trouxeram consigo uma parte de suas tradições, que se refletem na arte, na música, nos hábitos e também na gastronomia.

Colonizadores italianos no século XIX. Imagem: Autor desconhecido.
Primeira expedição japonesa ao Brasil. Imagem: Folha de São Paulo

O principal polo que representa tal variedade gastronômica é a cidade de São Paulo, uma das metrópoles mais conhecidas no mundo pelo seu ritmo agitado, com uma lista de restaurantes estrangeiros extensa, desde as culinárias mais tradicionais, como a italiana, até as mais exóticas, como a tailandesa. Há quem acredite que passear pelas ruas paulistanas é fazer um tour de gastronomia por vários locais do mundo, experimentando um pedacinho de cada cultura. Porém, esse pensamento é errado, porque, apesar dessa grande variedade, a maioria das comidas não é fiel às culinárias típicas.

Por exemplo, um japonês riria ao ver uma casa de sushi colocar cream cheese e cebolinha no temaki, até porque eles não comem temaki no Japão! (confira aqui a lista das comidas que o brasileiro tentou imitar e ficou bem diferente da original).

Em uma pesquisa feita pelo Gastronomia Mundo, com duzentas e cinquenta universitários, a maioria com 18 a 30 anos de idade e estudantes da Faculdade Cásper Líbero, o percentual de pessoas que comem todos os dias comidas que são provenientes de culinárias estrangeiras é muito maior do que o de pessoas que consomem apenas uma vez por mês. Isso mostra que os brasileiros, principalmente os mais jovens, têm um gosto forte pela gastronomia de outros países.

Na pesquisa, outro fator influenciador desses números foi a facilidade de encontrar locais que comercializam esse tipo de gastronomia. Os fast foods mais conhecidos, como McDonalds e Burger King, foram restaurantes muito citados que se adequam ao estilo de vida do brasileiro. Ademais, as culinárias italiana e japonesa apareceram como favoritas.

Entretanto, a pergunta crucial foi: “Em sua opinião, estrangeiros que vêm ao Brasil acham o país um bom representante de sua gastronomia?”, a qual obteve um total de 63,5% dos entrevistados afirmando que “sim”, e apenas 36,5% falando que “não”.

Confira, nos próximos tópicos, entrevistas na íntegra com gringos sobre a gastronomia estrangeira no Brasil e uma lista de comidas populares não tão parecidas com a originais.

A opinião de um italiano que já provou as comidas brasileiras

O Brasil tem uma quantidade grande de imigrantes italianos. A imigração da Itália para o Brasil teve como ápice o período entre 1880 e 1930. Grande parte dos migrantes veio ao país à procura de oportunidades de vida, pois o país era visto como um novo território, e, como o crescimento populacional não foi acompanhado pelo crescimento econômico, a opção era sair da Itália.

Bandeira italiana montada com comida. Imagem: Reprodução.

Os italianos que vieram ao Brasil trouxeram na bagagem as marcas culturais de seu país, as quais foram incorporada à cultura brasileira até os dias de hoje. A maior marca dessa migração, além do catolicismo, é a gastronomia. Pratos típicos, como massas — entre elas, macarronada, nhoqui, caneloni — e pizza são algumas das comidas de origem italiana mais consumidas no Brasil.

Os nossos repórteres buscaram italianos que já visitaram São Paulo e encontraram a história de Sebastian Bonolis, um cineasta de dezenove anos que, atualmente, vive em Roma, mas já morou em outras regiões da Itália. A entrevista foi feita por Skype, em inglês, e traduzida para o português.

Quais são os pratos típicos do seu país? E qual é o seu favorito?
Sebastian: Os pratos típicos variam de região para região. A minha região, Toscana, é famosa pelo queijos e salames, além de um bom vinho (risos). O meu prato favorito típico é fusilli feito no queijo grana padano.
Quantas vezes você veio para São Paulo? Qual foi o motivo da sua vinda?
Sebastian: Fui para São Paulo uma vez. Meu pai trabalha em uma multinacional italiana. Ele foi a uma reunião na cidade de São Paulo e me levou junto. Passamos menos de uma semana aí.
Quando você veio ao Brasil, visitou algum restaurante italiano?
Sebastian: Claro! É muito comum, em viagens, frequentarmos restaurantes italianos. Sentimos muita falta da nossa comida. Pesquisamos no Google e fomos parar em um restaurante chamado Gero, um dos restaurantes mais renomados da cidade segundo a nossa pesquisa. (Gero é uma cantina italiana.)
Você gostou da gastronomia italiana na cidade de São Paulo? O que achou de estranho nos restaurantes daqui?
Sebastian: Eu achei o molho de tomate pouco apurado. Na Itália o cuidado com o molho é essencial para a qualidade dos pratos. Também fiquei assustado com a quantidade de opções de sabores que existem nas pizzarias daí, além do que em algumas pizzarias a quantidade de recheio é exagerada.
Para você, quais são as maiores diferenças entre os pratos típicos italianos feitos no Brasil e no seu país?
Sebastian: A maior diferença, para mim, está nos temperos. A comida do Brasil é mais forte do que a italiana.

Mesmo com os chefs do Brasil tentando se assemelhar ao máximo às gastronomias estrangeiras, eles falham quando se fala do tempero por causa dos diferentes paladares ao redor do mundo. A seguir, a entrevista com orientais também mostra tais comentários sobre os temperos marcando a forte presença de uma característica brasileira nas comidas estrangeiras.

A opinião de orientais que provaram as comidas brasileiras

A gastronomia oriental também é muito presente na cidade de São Paulo. Os paulistanos podem se deliciar com as culinárias mais conhecidas, como a japonesa e a chinesa, ou com as menos conhecidas, como a coreana. Isso tudo por preços que variam e opções que nem são tão orientais.

A comida japonesa já é um amor brasileiro. Chega a ser estranho não existir ao menos um restaurante japonês em algum bairro ou praça de alimentação de shopping center. É tamanha a paixão pela comida do Japão que paulistano até modificou alguns pratos típicos para adaptar ao paladar brasileiro, como o temaki com cream cheese e o sushi de morango, pratos inexistentes no Japão.

Em 2016, viralizou o vídeo de um japonês, Takashi Kanazawa, experimentando a culinária japonesa aqui de São Paulo, no canal “Yo Ban Boo”. O vídeo contou com mais de um milhão de visualizações só no youtube, além da repercussão gigantesca no Facebook e em outras mídias digitais. A reação dele ao experimentar os pratos de seu próprio país roubou muitas risadas, como também deixou todo o povo curioso sobre sua opinião.

Mas será que realmente é tão diferente? Decidimos entrevistar nós mesmos um imigrante japonês. Gustavo Takeshita Uemura, 22 anos, estudante de engenharia, não autorizou o uso de sua imagem, mas, neste breve bate-papo, nos deu sua posição em relação às diferenças culinárias entre a comida japonesa de São Paulo e a do Japão.

Quais são os principais pratos típicos do seu país? E qual o seu preferido?
Gustavo: Okonomiyaki, teppanyaki, sukiyaki, udon, lamen, sashimi, sushi, tamagoyaki, entre muitos outros. Entre estes da culinária japonesa, não tenho um preferido, mas se for para escolher prefiro o lamen.
Para você, quais as maiores diferenças dos pratos típicos japoneses em São Paulo, quando comparados com a do seu próprio país?
Gustavo: No Brasil, colocam muito tempero, muito sal. No Japão acharíamos isso um excesso.
Você gosta da comida japonesa daqui de São Paulo? O que você acha estranho ou ruim nos restaurantes japoneses de São Paulo?
Gustavo: Eu, pessoalmente, gosto. A maioria dos peixes usados, na maior parte dos restaurantes, é congelada, isso faz com que a comida perca o sabor. E muitos restaurantes adotam uma receita “abrasileirada” com muito tempero e muito sal, talvez para agradar o paladar brasileiro. Como também o cream cheese no temaki, é muito estranho.

Essa conversa despertou nossa curiosidade sobre as opiniões de pessoas de outros países orientais, como a China, cujos pratos também são muito tradicionais na cidade de São Paulo. Em uma entrevista feita com o empresário chinês, Leandro Jiangyuan Yang, de 21 anos, vivendo no Brasil atualmente, descobrimos algumas similaridades no pensamento relacionado ao de Gustavo. Confira:

Quais são os pratos típicos do seu país? E qual o seu preferido?
Leandro: Na China, tem mais de dez culinárias diferentes. Todo estado tem uma culinária diferente uma da outra. É difícil para mim escolher entre tantos e variados tipos de pratos que a China tem, mas se for realmente ter que escolher um eu gosto muito de um prato que consiste em costelas de porco em molho agridoce, e também um de ovos mexidos com tomate.
Quais as maiores diferenças entre os pratos típicos de São Paulo e os do seu país?
Leandro: Da culinária chinesa, pessoalmente, não gosto dos nossos pratos típicos em São Paulo. Tem alguns que só o nome chega a ser igual ao da China, porém o modo que ele é feito diverge da maneira que eu costumava ver no meu país.
Você gosta da comida chinesa daqui de São Paulo? O que você acha estranho nos restaurantes chineses de São Paulo?
Leandro: Não gosto. Os restaurantes chineses de São Paulo sempre confundem a comida chinesa com a japonesa. Como, por exemplo, vendem yakisoba na maior parte dos restaurantes japoneses.
Qual sua opinião sobre o Yakisoba? Um prato que muitos brasileiros amam.
Leandro: O yakisoba é um prato bem comum da China, é fácil e saboroso. No Brasil, o único problema é que vocês colocam muito molho e sal. Eu nunca cheguei a comer yakisoba assim na China, pelo menos nunca vi.
Já comeu China in Box, ou outro “fast food” chinês daqui de São Paulo? Qual é sua opinião sobre tais restaurantes?
Leandro: Não consigo considerar o China in Box como uma comida chinesa verdadeira, só no nome que está escrito “China”, eu realmente acho que esses restaurantes são ruins.

É possível concluir, então, que o brasileiro adaptou as culinárias orientais com base em temperos e sabores que agradavam mais o lado ocidental do mundo, sendo esse o principal motivo que as diferenciam. Por mais intensa que foi a migração oriental para o Brasil, os costumes culturais vão se convergindo conforme as décadas e se mesclando com os já existentes.

Comidas estrangeiras consumidas pelo brasileiro

(…e que não são nada parecidas com as originais)

As tentativas de imitar uma gastronomia são, muitas vezes, frustradas. O Brasil, como um dos países de maior miscigenação cultural, conta com diversas culinárias estrangeiras. Porém o que o brasileiro não sabe é que muitos pratos consumidos aqui não são parecidos — e algumas vezes nem existem no país de origem. Descubra, a partir da opinião de alguns chefs de cozinha (como Diogo Leandro) a seguir, quais são esses pratos e como são feitos originalmente.

1. Pizza

A pizza, proveniente da Itália, é consumida no mundo todo, por sua facilidade de preparo e diversidade de sabores. Entretanto, em cada lugar ela é feita de modo diferente, sempre se adaptando ao gosto dos fregueses. No Brasil, a pizza é massuda e a variedade de recheios enorme: desde a simples muçarela até a de batata frita. O que o brasileiro não lembrou é que a pizza da Itália, mesmo, é a tradicional Margherita, com massa fina e muito molho de tomate.

Créditos: Pizzaria Locomotiva

2. Torta Holandesa

Ao chegar à Holanda e pedir uma torta como essa, os holandeses não entenderiam nada. Por que, afinal, ela é mais brasileira do que qualquer outra. Tal prato foi criado em Campinas e recebeu esse nome por causa de sua criadora, Silvia Leite, em homenagem a sua paixão pela Europa — mais especificamente pela Holanda. Porém a torta consumida pelos holandeses é a de maçã (a tradicional appeeltaart), que não tem semelhanças com a que é consumida aqui.

Créditos: Confeitando

3. Pão Francês

O pão francês, sempre encontrado nas diversas padarias do Brasil, não existe na França. O nome ficou assim porque, provavelmente, quando a elite brasileira viajava à França, em meados do século XX, voltava descrevendo aos seus padeiros como seria aquele famoso pão. Assim, o pão francês brasileiro foi inspirado nas baguetes tradicionais francesas, as quais não levam açúcar e gordura na massa, como os pãezinhos.

Créditos: Pilotando Fogão

4. Churros

O verdadeiro churro é espanhol e tem grandes diferenças em relação ao que é comercializado aqui. A maior delas é que na Espanha não há recheio. O mais comum é degustar o churro acompanhado de uma xícara de chocolate derretido ou mesmo com um cafezinho. Já no Brasil, quanto mais doce melhor, com recheios variados, sendo os mais populares chocolate e doce de leite. Mesmo assim, a base do churro é a mesma: farinha de trigo e água.

Créditos: Receitas de Pai

5. Strogonoff

Em seu país de origem, a Rússia, o strogonoff é basicamente um picadinho sem molho acompanhado de batatas chips. Aqui, o molho é indispensável na receita, além do tradicional arroz como acompanhamento.

Créditos: Predilecta

6. Crepe

Os famosos crepes franceses são muito diferentes dos das creperias de São Paulo. A principal diferença é a cor e o nome. A sarraceno é uma farinha escura usada nos crepes salgados que, na França, são conhecidos como galettes. No Brasil, a massa básica leva apenas ovo, leite e farinha. Os recheios também são mais exagerados no país tropical, uma vez que o crepe francês tem menos variedades de sabores.

Créditos: Crepe da Zil

7. Rolinho Primavera

O “rolinho primavera”, conhecido como harumaki na culinária japonesa, é recheado apenas de legumes. Como de costume, os brasileiros implementaram os sabores, e o rolinho hoje conta até com variações doces — e, claro, o de queijo, sempre presente nos restaurantes japoneses do Brasil.

Créditos: Cultura Mix

8. Paella

Muito consumida entre as famílias brasileiras. O prato, de origem espanhola, passou por algumas modificações e acabou perdendo a sua essência. Na Espanha, a paella é feita com carne bovina e de coelho, enquanto no Brasil assemelha-se mais à portuguesa — também chamada de valenciana -, feita de frutos do mar.

Créditos: Taste AU

9. Macarrão Instantâneo

O miojo brasileiro é uma tentativa de imitar o lamen — macarrão japonês muito famoso ao redor do mundo. Porém o prato no Brasil não passa de uma massa frita e pré-cozida com um pozinho para tempero. No Japão, o lamen é mais encorpado e saboroso.

Créditos: HypeScience

10. Temaki

A maior surpresa para o brasileiro é que não existem temakerias no Japão. Sim! Se você é fã do prato e procurar um lugar especializado japonês, o achará apenas em São Paulo. O motivo é simples: os temakis, lá, são muito mais simples do que aqui. Outra surpresa é que o famoso temaki de salmão cru, com cebolinha e cream cheese, também é invenção total do brasileiro.

Créditos: Domo Sushi