Mulheres no funk — da origem até os dias de hoje

Por Giulia Romagnollo e Gabriela Gasparini, alunas do 1º JOC

É evidente que se trata de uma expressão cultural majoritariamente masculina. Mas o funk é a maior e mais potente voz das periferias do Brasil e não seria diferente para as mulheres. Empoderador, o ritmo de batida solta faz as mulheres periféricas serem ouvidas, terem lugar de fala e representatividade.

Voltemos no tempo. Década de 70, favela no Rio de Janeiro. O que se ouvia era soul music e black music, os bailes tocavam isso, essa seria a primeira influência para a origem do funk.

A segunda influência, o RAP, chega ao Brasil na década de 90. As letras contam o dia a dia de comunidades e relatam a vida dos moradores. Em 1995, o funk melody, uma variação mais romantizada do funk, ganha cena no Brasil, época em que Claudinho e Buchecha se tornam notórios nas emissoras, até então sem nenhuma representatividade feminina.

Chegam aos discos na primeira década dos anos 2000 o funk e o funk consciente, popularmente escutado nos dias de hoje, junto com sua primeira representatividade feminina: Tati Quebra Barraco, carioca e negra, traduz em suas letras o cotidiano da mulher que vive na periferia, e põe em discussão que mulher não precisa ser santa para ser respeitada. Com o hit “Boladona”, Tati estoura nos bailes e agrega o público feminino para esses eventos.

O público feminino nunca esteve tão presente nos bailes funk. As músicas cantadas pelos Mc’s passam mensagens de objetificação da mulher, entretanto há Mc’s mulheres que transmitem a força da mulher negra e periférica, assim como Tati, Valeska e Deise Tigrão, quebraram e quebram paradigmas.

A presença das mulheres no funk nos dias de hoje

O cenário ainda é misógino e machista, tanto pelas letras retratadas como pela forma que as mulheres são tratadas.

Mas apesar do saldo negativo há um lado positivo.

E é esse lado que trazemos.

É evidente que não temos o cenário atual como desejado, mas vemos uma luz no fim do túnel quanto à representatividade. É com isso que se obtém respeito. Com visibilidade, é que se rompe barreiras e as pessoas constroem informações.

É importante ressaltar o preconceito que existe na sociedade com o funk, o rechaçamento desse som pelas classes econômicas mais altas, que não percebem que é um ritmo percursor de discussões sociais.

Na caminhada para encontrar a batida perfeita, encontramos muitas Mc’s empoderadas e que não aceitam mais as músicas atuais que as colocam em posição inferior ao homem.

Conversamos com a Baronesa, que tem 23 anos e está iniciando sua carreira de funkeira há três meses e nos contou um pouco sobre a representatividade feminina no funk.

Áudio 1 — Baronesa.m4a
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Lari Moraes, que inicia a carreira como funkeira, tem uma opinião contrária, não acha que o ambiente seja machista, acha que depende da mulher impor respeito.

Áudio 2 Lari Moraes.m4a
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6 MÚSICAS DE FUNK QUE EMPODERAM AS MINAS

1º Valeska — “Tá pra nascer homem que vai mandar em mim”

2º Tati Quebra Barraco — “Fama de Putona”

3º Mc Carol e Karol Conka — “100% Feminista”

4º Valeska — “ Agora eu tô solteira”

5º Mc Cacau Rocha — “ Minha xota manda no seu pau”

6º Mc Carol — “Meu namorado é mó otário”

Liga do Funk: você sabe o que é?

A Liga do Funk, é um projeto social que acontece na cidade de São Paulo e incentiva diálogos sobre o que os Mc’s estão cantando, além de atividades para melhorar o desempenho de quem está começando nos palcos, como aulas de canto, dança e fotografia, tudo isso gratuito. (Quarta-feira, às 13h30, na Ação Educativa — Rua Gen. Jardim, 660 — Vila Buarque, São Paulo — SP)

(Páginas 25 e 26)

Cheguei lá para conhecer a rapaziada e trocar uma ideia sobre o cenário atual do funk, fui recebida muito bem. Logo de cara percebo que a maioria dos jovens é de homens, mas que há algumas meninas por ali.

Não dá para deixar de notar o quanto o funk é predominante naquele ambiente, é o que pulsa na veia e na mente de todos aqueles meninos. Não só pelo sonho de ser Mc, mas por poder, naquele espaço, se expressar, contar sua história e seu dia a dia.

E a molecada arrebenta, na rima improvisada, no beat pronto, eles estão ali com um propósito: soltar a voz. Politizados, todos sabem por que o Brasil é tão desigual.

Percebendo o quanto o funk é uma chave para discussões, bati um papo com a socióloga Mc Cacau Rocha, que também já fez parte da Liga do Funk. Ela me contou sobre a representatividade da mulher no funk e como podemos mudar esse cenário misógino. Acompanhe:

Áudio 3 — Mc Cacau Rocha.mp3
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O funk é cultura, é arte, é desejo, e é um precursor de discussões, um lugar que evidentemente pode combater o machismo e ser pauta para outras discussões.

Lá fora, o funk não é visto como um som à margem da sociedade:

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