O novo filho é a profissão

Por Ana Beatriz Marchiori, Bruno Cominatto, Georgia Ayrosa, Ivana Guimarães e Pedro Trajano, alunos do 1º JOA

“Crescei e multiplicai-vos!” O clássico conceito bíblico já não faz mais parte do cotidiano da sociedade contemporânea. Hoje, ter filhos se tornou uma opção do casal e não mais uma obrigação induzida pela família ou outro grupo social. “A mulher mudou muito. A mulher tem uma decisão importante no querer ou não querer ter filho hoje sim. Elas trabalham, são mais independentes, elas têm uma decisão firme, sim, de querer ou não ter filhos”, como afirma a ginecologista Carla Marino.

Segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a taxa de natalidade no Brasil tem diminuído constantemente no decorrer dos anos, em 2010 a Taxa de Natalidade por mil habitantes era de 15,88, já em 2015, essa taxa caiu para 14,6. Enquanto os números trazem a ideia de autonomia feminina, ao mesmo tempo assustam em relação aos planos para o futuro econômico brasileiro. Os reflexos sociais devem ser enfatizados, uma vez que essa mudança tem muito valor no movimento feminista, mas essa diminuição da quantidade de filhos atinge não só as mães.

Profissionais da psicologia colocam esse fenômeno como natural em nações economicamente emergentes, levando em conta que o grau de qualidade de vida interfere nas decisões familiares. Colocam a natalidade como algo que pode tanto elevar quanto diminuir a autoestima das futuras mães e, por isso, não pode ser pensada apenas em nível macro (toda a população). Assim, o apoio que as mulheres recebem entre elas mesmas e o apoio da própria família são cruciais como motivos dessa queda. O novo filho é a profissão.

A reportagem procurou investigar a fundo o que significa essa queda de natalidade e suas consequências na sociedade. Por isso, além das protagonistas (mulheres em suas diversas faixas etárias e sociais), também entrevistamos profissionais de diversas áreas, como sociólogos, psicólogos, ginecologistas, economistas e advogados.

Como fechar a conta

Com a diminuição da taxa de natalidade, a População Economicamente Ativa (PEA) também cai. Com isso, o Brasil se vê em uma difícil situação: sustentar cada vez mais idosos com a PEA diminuindo.

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população economicamente ativa (PEA) é aquela que está em idade e condições físicas adequadas para exercer sua profissão. Ela tem grande responsabilidade em definir como anda a economia de um país. O raciocínio é simples: quanto mais gente trabalhando, mais lucratividade para o Estado e, assim, maior facilidade para ele pagar as contas, como os gastos da previdência. Contudo, a redução da PEA complica o equilíbrio da balança econômica do Brasil, pois o saldo do país, em um futuro breve e nas condições atuais, não conseguirá arcar com suas despesas.

Os gráficos abaixo, retirados do site oficial do IBGE, mostram como a população brasileira vem envelhecendo. A base larga da pirâmide (alta taxa de natalidade) não se manteve constante e as previsões preocupam.

De acordo com Vinícius Torres Freire, colunista de política e economia do jornal Folha de S. Paulo, em situações como essa, conter gastos ou aumentar recursos é uma necessidade do governo. Freire ressalta que além da questão da previdência, o envelhecimento da população eleva os custos com cuidados pessoais e saúde pública, e a consequência disso é direta nos cofres do governo: mais gastos. O colunista afirma que se o país não fizer nada os problemas serão como uma bola de neve. “Se a despesa aumentar, sem contrapartida de receitas maiores, déficits públicos e dívidas aumentarão. Dívidas públicas maiores implicam taxas de juros e gastos com juros maiores.”

Nesse contexto, em dezembro 2016, o presidente Michel Temer propôs a Reforma da Previdência, endurecendo as formas de obter aposentadoria. O governo é enfático ao afirmar que se nada for feito quanto à aprovação dessas mudanças as contas públicas serão insustentáveis.

O Brasil está preparado para envelhecer?

Para Vinícius Torres Freire, está, mas com algumas dificuldades. O Brasil está envelhecendo sem antes estar rico, fato que preocupa, pois o colunista afirma que é necessário aproveitar o momento em que a PEA tem seu apogeu para guardar recursos que deverão ser usados com gastos que serão demandados, principalmente, pela população idosa. Ele acredita que o Brasil já perdeu tempo em aproveitar o auge da PEA, mas pode ainda conseguir arrecadar nos últimos tempos em que ela se encontra em grande quantidade. Caso o Brasil não trate isso mais a sério, várias áreas poderão ser negativamente atingidas. “Gasta-se mais com isso [aposentadoria] e, entre outros problemas, há redução da quantidade de recursos disponíveis para investir no aumento da capacidade produtiva, tanto em educação quanto em capital ou bens produtivos.”

Elas que decidem!

“Tenho convicção do que a mulher faz pela casa” Michel Temer, presidente da República, em seu discurso de 8 de março de 2017

Esse pensamento ilustra uma verdade aceita pelo senso-comum na sociedade brasileira. Frases como “lugar de mulher é na cozinha”, “mulher nasceu para ser mãe” e “pai é quem paga, mãe é quem cria” evidenciam o machismo arraigado no pensamento coletivo. Assim como a fala do presidente, o histórico da sociedade reafirma a rotulação do papel feminino como a mulher Amélia — aquela da música composta em 1942 — , a mãe perfeita e dona de casa exemplar, ou seja, “a bela, recatada e do lar”, padronização tão debatida nas redes sociais e reforçada recentemente em uma reportagem da revista Veja sobre a mulher do próprio Temer.

Contudo, a inserção da mulher no mercado de trabalho pode trazer problemas psicológicos e questionamentos quanto ao seu papel social. Elas são dentistas, médicas, engenheiras, advogadas, mas, muitas vezes, pela pressão que recebem enquanto mulheres, questionam-se quanto à legitimidade de suas escolhas.

Ser mãe ou se dedicar integralmente à carreira?

A psicóloga Cristina Santana afirma: “Abandonar a carreira atinge a mulher na autoestima. Na verdade, é abrir mão de seus desejos”. Ela também reflete sobre o planejamento familiar. Algumas, com um poder aquisitivo mais alto, conseguem conciliar trabalho e maternidade de forma mais equilibrada. “Mesmo com mulheres não querendo ter filhos, temos aquelas que se organizam para acompanhar o desenvolvimento do bebê nos primeiros anos”, diz Cristina.

Observa-se que, apesar do crescimento do discurso feminista e da libertação sexual da mulher, as preocupações inerentes à relação entre mulher e maternidade ainda se mostram retrógradas, e muitas dessas preocupações vêm da pressão de pessoas do convívio social, como parentes e amigos. Luciana Nagayoshi Alves, 42 anos, farmacêutica que atuou nessa área por mais de 15 anos e optou por não ter filhos, afirma que se destacou no mundo coorporativo por essa decisão: “Na empresa onde trabalhei, em comparação com minhas colegas de trabalho, possuía uma rotina mais flexível e, por isso, podia me adequar a interesses da empresa, como viagens a outros estados”. A farmacêutica foi e ainda é muito cobrada por essa decisão: “Minha família e amigos próximos me questionaram sobre minha decisão, mas o que mais me impressiona é como as pessoas se incomodam com isso”.

“Elas que decidem!”

É o que afirma a ginecologista Carla Marino, formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Com a difusão dos métodos contraceptivos e dos ideais do empoderamento feminino, hoje, em muitos casos, ter filhos não é mais exclusivamente fruto do acaso. O peso da opinião da mulher tem aumentado na decisão final. Antigamente, a mulher não possuía autonomia de escolha sobre a quantidade de filhos que teria. Como era comum uma forte submissão da mulher ao marido, essa decisão era submetida tanto ao acaso, pelo desconhecimento de métodos contraceptivos, quanto ao machismo, por meio da imposição da maternidade à mulher, como afirma a psicóloga Cristina Santana: “Se formos pensar, há 30, 40 anos, as mulheres já se casavam com a idade das atuais mães adolescentes, com homens com muito mais idade do que elas. Isso acontecia e era comum”.

A ginecologista Carla Marino também disserta sobre o peso da escolha feminina, avaliando-a nos dias atuais:” A mulher mudou muito. A mulher tem uma decisão importante no querer ou não querer ter filho hoje, sim. Elas trabalham, são mais independentes, elas têm uma decisão firme, sim, de querer ou não ter filhos. Elas que decidem.”

A Cultura do Ajuda, que designa aos pais a função de auxiliadores, enquanto às mães cabe a maior responsabilidade na criação, é extremamente prejudicial e também influencia na queda da taxa de natalidade, como afirma Vanessa Hamazaki, terapeuta e life coach: “As mulheres não querem mais ter filhos para os criarem sozinhas. Não deve existir o termo ‘ajuda’, e sim divisão de tarefas”.

Nossa equipe foi às ruas perguntar às mulheres o que pensam sobre tudo isso, acompanhe abaixo:

A maternidade imatura

Mesmo sendo o desejo de tantas mulheres, algumas que nem chegaram à maioridade já estão tendo que carregar o peso da gestação. O tabu da gravidez na adolescência é muito discutido na sociedade atual e separa a população em duas partes: os que defendem a decisão da mulher e os que perguntam “onde estava a família dela? ”.

A preocupação das nações sobre o caso tem aumentado. No dia 6 de junho de 2017, representantes dos ministérios da Saúde e da Educação do Brasil, Argentina, Chile, Paraguai e Uruguai se organizaram para assinar um projeto que tem como objetivo a diminuição da natalidade entre menores. Países como esses, economicamente instáveis, são os que comportam maior número de fecundidade das adolescentes, deixando entender a ideia de que a qualidade de vida está relacionada, também, à vida sexual.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a falta de qualificação na educação em países subdesenvolvidos ou emergentes é o principal causador da maternidade precoce. A baixa escolaridade das mulheres pode ser determinante em relação à quantidade de filhos e à idade da mãe quando eles forem gerados. A psicóloga Cristina Santana entende que “os adolescentes tendem a acreditar que são inatingíveis, achando que nada pode acontecer com eles, mas acontece”. Isso se agrava quando não existe um conhecimento aprofundado sobre sexualidade.

IBGE, disponível em: http://atlasescolar.ibge.gov.br/images/atlas/mapas_brasil/brasil_infancia.pdf

Como mostra o gráfico acima, a maior concentração de filhos cujos pais não possuem escolaridade básica se dá justamente nas regiões Norte e Nordeste do país, as quais apresentam menor qualidade de educação e índices mais altos de analfabetismo.

“Se ela tiver um apoio saudável, ela se desenvolve com a criança”

A doutora Cristina, mesmo reconhecendo os problemas psicológicos que podem ocorrer a uma mãe sem maturidade, acredita que “meninas de 16, 17 anos podem ter o filho e amadurecer para se enquadrarem no papel de mãe, mas isso depende totalmente da base familiar. Uma família que permite autonomia faz com que a adolescente se sinta responsável pelo filho, mas também são comuns os casos em que os pais veem a nova mãe como incapaz e criam o neto como um filho, enquanto a adolescente continua vivendo apenas como filha. ”

Numa observação da história, “se formos pensar, há 30, 40 anos, as mulheres já se casavam com a idade das atuais mães adolescentes, com homens de muito mais idade do que elas. Isso acontecia e era comum, porque a família era responsável pelo matrimônio”. A questão atual, segundo a psicóloga, é que a família deixou de decidir pela mulher, mas ela não tem amadurecimento e conhecimento suficiente para lidar com a gravidez, ocasionando as gestações por acidente.

A ginecologista Carla Marino deixa claro: “A partir de 15 anos as meninas já estão começando a utilizar métodos anticoncepcionais”. Portanto, torna-se necessário tanto por parte dos pais quanto das instituições de ensino oferecer o auxílio necessário a essas garotas antes mesmo da vida sexual começar. Não se pode permitir que uma pequena mulher tenha menos chance de conquistar sucesso acadêmico e/ou profissional no futuro por conta de um erro de aprendizado no passado.