O olhar de quem vê, mas não enxerga

Por Isabella Tagliapietra, Maria Luiza Capp, Melissa Aoki, Samantha Castro e Victória Bechara, alunas do 1º JOA

Expor o funcionamento do projeto SP Invisível, sua história e algumas das experiências vividas, abordando a questão da falta de visibilidade dos moradores de rua na cidade de São Paulo. Esse é o objetivo dos posts a serem compartilhados por nós, estudantes de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero, após acompanharmos um dia desse projeto. Para isso, entrevistamos os fundadores e registramos conversas com moradores de rua.

No Facebook, a página SP Invisível tem mais de 300 mil curtidas, mesmo sem fazer publicidade, e virou um ponto de encontro dessa gente que se une para ajudar. Os precursores do projeto publicam fotos dos moradores seguidas de textos explicativos sobre suas respectivas histórias de vida, buscando humanizar o olhar do público ao mostrar que essas pessoas também têm uma história.

Vinícius Lima, o pai do SP

Umdos fundadores do SP Invisível, Vinícius Lima explica alguns pontos importantes sobre o projeto e seu impacto. Toca em questões como o seu surgimento, em dezembro de 2013, impulsionado pela revolta com a futilidade das redes sociais, para confrontar o superficial com o invisível.

Aborda também o objetivo de fazer o público entender que os moradores de rua não estão nessa situação por vontade, mas sim por falta de oportunidade, visando denunciar tal realidade.

O entrevistado comenta sobre a hesitação inicial dos moradores de rua ao serem abordados pela equipe, porém que logo esse sentimento se ameniza ao se identificarem com a questão da falta de visibilidade vivida no dia a dia.

Vinícius conta histórias marcantes de moradores de rua, dizendo que, em sua grande maioria, as que mais o impactam são aquelas que se parecem com a sua, trazendo-lhe uma certa empatia.

Ressalta as dificuldades do projeto, sendo a principal delas o desafio de desconstruir a ideia de que quem deve mudar são eles, quando na verdade somos nós.

Segundo o fundador, a divisão de tarefas dentro do grupo é feita originalmente entre texto e fotografia, se expandindo para a administração das redes sociais, porém não se restringindo a isso, buscando explorar diferentes áreas.

Discorre ainda sobre o livro A Cidade Que Ninguém Vê, feito entre amigos, que ele enxerga como “o fim de um ciclo”. Acredita que, além da atuação da mídia, o principal fator que impulsionou o crescimento do projeto foi a empatia que as pessoas sentem ao conhecer a história dos moradores de rua, entendendo que poderia ser qualquer um no lugar deles, o que gera uma certa mobilização.

Vinícius faz suas observações finais mencionando planos para o futuro, pretensões em participar de outros projetos, a influência que o SP Invisível tem em sua vida e outros assuntos.

A Cidade Que Ninguém Vê

Lançado em 22 de dezembro de 2016 pelos colaboradores do projeto SP Invisível, o livro A Cidade Que Ninguém Vê reúne 100 histórias reais de pessoas que moram nas ruas, registradas ao longo de dois anos, com prefácio do ator Lázaro Ramos e posfácio do teólogo e escritor Ed René Kivitz. Trata-se de um livro fotográfico, com capa dura e tamanho 21 x 25 centímetros, que contou com um financiamento coletivo reunindo 874 pessoas e totalizou R$ 99.340,00.

Para mais informações sobre o livro, acesse: https://www.youtube.com/watch?time_continue=1&v=FqaKgNF8Yu4

“somos tão egoístas, não? Tão preocupados em declarar nossas conquistas, nossos próprios sofrimentos e nossas agonias, naquela ansiedade de vomitar todo o sentimento do mundo ali mesmo, no chão, ao vivo, todos assistindo o espetáculo escatológico da vida.

Somos tão egoístas, não?

Ignoramos o que o outro diz, não estamos preocupados em saber da conquista do outro, do sofrimento alheio e suas respectivas agonias, pois tudo o que conseguimos imaginar é que a sujeira vai sobrar pra nós ou que era para nós termos gorfado primeiro naquele chão, para o mundo perceber a nossa própria morte interna. O pessoal da limpeza que limpe, mesmo.

‘qualquer coisa fala comigo’, diz enquanto compra a primeira passagem de ônibus para qualquer cidade longe do caos alheio. E livra a mente dos problemas de alguém, enquanto joga na costas do outro os próprios problemas.

sou o outro. A jangada da jornada até o destino real, que percorre os mares em trajetórias que não são suas. E, enquanto resisto às intempéries sem que percebam que a minha estrutura já se racha ao ponto de quebrar, escrevo.

Pois a caneta é o meu outro.”

Gabriel Catite, um doador de fotos

Depois do crescimento e da grande repercussão do projeto no Facebook, o SP Invisível começou a procurar a ajuda de voluntários que possuem diferentes funções, não necessariamente edição de texto e fotografia, que vão de redator a psicólogo. Em nossa visita, entrevistamos um dos fotógrafos do projeto, Gabriel Catite, voluntário há três meses. Ele nos contou um pouco da sua experiência, da sua visão antes e depois do projeto e o que isso acrescentou em sua vida. Revela que é muito diferente ver as histórias apenas pelo Facebook e vivenciá-las. E que passou a dar mais valor a sua vida depois do projeto, acreditando que todos deveriam fazer o mesmo.

Luís Benedito de Andrade, um sonhador

Luís Benedito de Andrade veio para São Paulo por dificuldades em pagar o aluguel de sua casa em Barretos. Hoje, aos 58 anos, mora na rua, pois assim como muitos outros foi enganado pelo encanto da cidade grande e suas promessas de uma vida melhor.

Nunca casou e os únicos familiares que tem são tios e primos morando próximos a Barretos. No início, quando estava em São Paulo, Luís tinha um trabalho, mas teve um problema de saúde e perdeu o emprego. Ficou, então, morando por um tempo num albergue, mas está na rua agora e não consegue mais arranjar um emprego, nem “bicos”, já que tem uma doença de nascença em seu braço que não permite que ele faça trabalhos pesados.

Luís fala que nunca teve passagens pela polícia e, ao contrário de muitos outros moradores, diz que é possível, sim, fazer amizades nas ruas. Mas, além de tudo, fala sobre seus sonhos. Um é mudar de vida. O outro é algo tão simples que para muitos seria até insignificante: ele queria apenas um chinelo novo. Esse sonho, pelo menos, Vinícius pôde realizar.

“Não é desse jeito, não, tem muito morador de rua que tá morando na rua porque não teve uma oportunidade igual a muitos.”

Doidinha, da loucura à sanidade das ruas

Numa tarde nublada no Vale do Anhangabaú, conhecemos Maria Aparecida de Jesus, mais conhecida como Doidinha. Vinda da cidade de Frei Jorge, Minas Gerais, aos 22 anos, Doidinha teve problemas com a família e está na rua desde então. Seu primeiro contato com a droga foi por meio de seu primeiro marido, mas foi no segundo casamento que o vício realmente começou. Agora, aos 44 anos, Doidinha não pretende sair da rua, não só pela droga, mas também pela liberdade que a rua traz. “Não é só o vício da droga, é a doença da rua também”, afirma ela. Segundo Vinícius, um dos fundadores do SP Invisível, “existem pessoas que não querem sair da rua, como Doidinha, mas elas não são piores que as que querem e nem devem ser privadas dos serviços oferecidos à população em situação de rua ou tratadas de outra maneira”.

Doidinha nos deu uma aula de simplicidade, amor à vida e liberdade. Assista nossa conversa.

Edson Júlio, um morador sem rumo

Logo na saída do metrô Anhangabaú, tivemos a oportunidade de conversar com Edson Júlio, um jovem de 20 anos que está vivendo nas ruas desde 2015. Ele nos contou quais foram os motivos que o levaram à situação de rua e como é viver dessa maneira. “Eu tô aqui pra não dar trabalho pra minha mãe, a gente brigava muito, ela sofria muito comigo em casa e aí eu não aguentava ver ela assim. Hoje sou eu que sofro.”

Edson ainda faz algumas visitas a sua mãe, que mora na Penha, bairro onde ele morava antes e também onde teve o primeiro contato com traficantes, que o influenciaram de maneira negativa. Sobre a vida nas ruas, Edson acredita que a maioria das pessoas só está nessa situação por falta de oportunidade e conta o quanto é difícil conseguir um cobertor nos dias frios. “Tudo é difícil aqui. Você acha que eu queria tá nessa? A gente passa fome, passa frio, não tem um trampo, não tem casa. A maioria tá nessa por falta de opção mesmo. Aqui tem de tudo: tem noia, ladrão de celular, mas não é todo mundo que é assim, tem muita gente do bem que só tá procurando uma oportunidade.”

Edson Júlio é apenas um entre milhares de casos como esse, em que más influências e atitudes erradas podem levar a um caminho sem volta.