Ser “louco” era assim…

Por Daniele Candido, Giuliano Lagonegro, Johnny Taira, Thiago Picolo e Vinícius Lima, alunos do 1º JOD

Hospital Colônia de Barbacena, década de 60

Os quatro maiores genocídios da história da humanidade, por ordem de grandeza, foram:

1) Mao Zedong

Locais: China e Tibete

Duração: 1958 a 1969

Mortos: Entre 45 e 70 milhões

Entre 1958 e 1962, o líder comunista Mao Zedong (1893–1976) liderou o “Grande Salto Adiante”, uma reformulação econômica que pretendia transformar a China em potência industrial — mas que, no fim, provocou um colapso que levou pelo menos 40 milhões de pessoas a morrer de fome. Entre 1966 e 1969, uma nova perseguição: a chamada Revolução Cultural caçou minorias, seguidores de qualquer religião e cidadãos delatados por questionar o regime. O país ficou cheio de campos de concentração, e as famílias eram obrigadas a pagar pela bala usada para matar os condenados.

2) Gengis Khan

Local: Leste Europeu e Ásia

Duração: Século XIII

Mortos: 40 milhões

Gengis Khan exterminou todos os que não aceitassem sua ideia de uma grande confederação mongol. Homens mais altos que uma roda de madeira eram mortos. Mulheres, idosos e crianças viravam escravos. Vilas inteiras eram incendiadas. Khan eliminou todo mundo que encontrou pelo caminho — incluindo chineses, coreanos e afegãos.

3) Os expurgos de Stalin

Local: União Soviética

Duração: de 1930 a 1940

Mortos: Entre 20 e 25 milhões de pessoas

O tirano soviético adotou técnicas variadas para perseguir rivais políticos. Entre 1932 e 1933, forçou a Ucrânia e o Cazaquistão a exportar todos os seus alimentos, matando os nativos de fome. Populações inteiras de outros países foram desalojadas e exiladas na gelada Sibéria.

4) Holocausto

Local: Europa

Duração: entre 1939 e 1945

Mortos: entre 17 e 25 milhões de pessoas

Quando o mundo descobriu o horror dos campos de concentração nazistas, a palavra genocídio nem existia. Nunca antes, nem depois, um governo organizou uma infraestrutura tão eficiente em matar pessoas. A Alemanha de Hitler dizimou 6 milhões de judeus e 10,5 milhões de eslavos. Também perseguiu homossexuais, ciganos, romenos e sérvios.

A contagem do número de corpos, no entanto, não é o único nem o mais importante critério para avaliar o absurdo e a afronta que acontecimentos como esses representam. As circunstâncias, técnicas de extermínio e a atenção que o mundo deu para o fato também definem sua gravidade. Por isso, um quinto embora menos conhecido genocídio pode ser incluído nesta lista:

5) O holocausto brasileiro

Local: Hospital Colônia de Barbacena, Minas Gerais

Duração: entre 1903 e 1980

Mortos: 60 mil pessoas

O hospital psiquiátrico de Barbacena teve seu período mais sombrio entre 1930 e 1980, quando pessoas sem qualquer histórico de deficiência mental eram internadas. Criado originalmente para atender os deficientes mentais, o hospício foi transformado num campo de contenção para os indesejados socialmente: homossexuais, negros, prostitutas, alcoólatras. Projetado para abrigar 200 pessoas, chegou a ter 5 000 internados, mandados para lá por pessoas influentes, como delegados, coronéis, maridos que buscavam se livrar de suas mulheres para viver com amantes. O que constava nos documentos de internação? Senão nada, apenas um rídiculo “tristeza” listado como motivo da internação.

Os internos passavam frio (pois vestiam trapos ou ficavam nus), fome (pois não eram alimentados), sede (pois os únicos líquidos disponíveis eram esgoto e urina). Dezenas morriam todos os dias. Agressão física, estupro e contenção eram banais. A morte se tornou um negócio, pois os cadáveres dos internos passaram a ser vendidos. Foram encontrados registros de venda de 1 853 corpos, entre 1969 e 1980, para faculdades de medicina, por 50 cruzeiros cada. 600 mil reais de lucro total com a morte, se atualizarmos s valores. Depois de algum tempo, o mercado deixou de comprar tantos cadáveres. Os funcionários passaram, então, a decompor os corpos dos mortos com ácido no pátio da Colônia, diante dos próprios pacientes, para comercializar também as ossadas.

O que torna este episódio tão ou mais nefasto quanto os outros citados aqui foram as circunstâncias em que ele se deu: o desconhecimento quase que completo de boa parte do país, que hoje mal se recorda disso; a institucionalização do extermínio pelo Estado e seus líderes; a blindagem do caso feita pela ditadura, em 1969; e o mais importante, talvez: tudo isso aconteceu em um país membro fundador da ONU, que reconhece e dizia cumprir a declaração dos direitos humanos emitida por essa mesma entidade em 1948. Ninguém jamais foi punido por esse genocídio.

Em abril de 2001, após doze anos de tramitação, foi aprovada a Lei Federal de Saúde Mental nº 10.216, que regulamenta o processo de Reforma Psiquiátrica no Brasil. Mas essa história não pode nem irá se dissolver entre tantos outros registros históricos esquecidos. Esse é o motivo desta produção jornalística: lembrar os mortos, celebrar as mudanças promovidas pela reforma e contribuir para que ser “louco” nunca mais seja assim.

Serviço de Saúde Doutor Cândido Ferreira: da insanidade à referência

O projeto arquitetônico do prédio onde está localizado o Serviço de Saúde Doutor Cândido Ferreira, em Campinas (SP), pouco mudou ao longo das décadas desde a sua fundação, em 1924. Se uma pessoa que conheceu o Cândido nos seus primeiros dias o visitasse hoje, ainda subiria uma suave colina para ficar em frente aos mesmos dois prédios azul-claro e brancos, rodeados por uma mata de árvores frondosas, varridos pela leve brisa morna e regados por amistosos raios de sol.

Prédio do antigo núcleo de retaguarda

O Cândido Ferreira surgiu como o primeiro sanatório psiquiátrico sem fins lucrativos do Estado de São Paulo, num período em que havia uma enorme fila de espera para o tratamento psiquiátrico, já que as vagas se concentravam no hospital Juqueri (o único público à época), em Franco da Rocha. Antes de ganhar o nome atual, o Serviço de Saúde era chamado Hospício de Dementes de Campinas.

O hospital, atualmente, é considerado pela Organização Mundial da Saúde um modelo para o tratamento de pessoas que sofrem de distúrbios psiquiátricos, mérito conquistado a partir de 1993. No entanto, ao longo de sua história, já utilizou métodos de tratamento de saúde mental considerados, hoje em dia, agressivos e invasivos, como eletrochoque, camisa de força e medicação forçada. Isso se deve à forma como a psiquiatria evoluiu com o passar do tempo, e o Serviço de Saúde acompanhou essa evolução. É possível dizer que a história da instituição acompanha a história da própria psiquiatria, culminando na luta antimanicomial nas décadas mais recentes. A evolução do tratamento psiquiátrico, trocando métodos invasivos e pouco eficientes por uma abordagem mais voltada à reinserção social dos pacientes, deu-se a partir de 1990, pela implantação de uma reforma psiquiátrica que trouxe o fim a utilização dos tratamentos citados acima, trocados por um processo de reabilitação dos pacientes à sociedade, através de inclusão de atividades em grupo, remoção de grades e capacitação profissional, entre outros. Segundo a descrição encontrada na página do hospital no Facebook, “A ressocialização dos usuários tornou-se e torna-se possível a partir do momento em que estão entranhados no meio da sociedade”.

A despeito das poucas alterações na parte externa do centro de saúde, a estrutura interna e a forma como o local trata seus pacientes foi bastante alterada ao longo dos anos. O interior do Cândido mudou significativamente nos últimos trinta anos. Os azulejos marrons desgastados pelo tempo viram as áreas de contenção e as grades serem substituídas por áreas de convivência e lazer terapêutico. Os quartos em que alguns pacientes eram praticamente trancafiados receberam um merecido embelezamento e agora podem ser orgulhosamente chamados de alojamentos. O prédio secundário, já designado para práticas como eletrochoque, impregnação medicativa, camisas de força, quartos-forteS e tantas outras técnicas já encaradas como simples tratamento médico, agora tem uma caprichosa loja de artesanato, uma rádio e salas com computadores para navegar na internet. Tudo mantido pelos próprios pacientes do Cândido.

Um dos usuários do Serviço de Saúde utilizando a sala de informática do hospital. Foto por: Thiago Picolo

Uma quadra de basquete e um campo de futebol também foram acolhidos nesse processo, e recebem campeonatos do Cândido regularmente.

Espaço de vivência do hospital. Ao fundo, uma quadra esportiva

Um desavisado poderia entrar hoje nessa instituição e pensar que está em um centro de convivência comum e muito bem mantido. A única coisa que resta do extenso passado do Serviço de Saúde Cândido Ferreira são as grossas grades de ferro no prédio principal, que separam a recepção dos alojamentos de tratamento intensivo.

Entrada do núcleo da retaguarda

Atualmente, o Cândido Ferreira atende mais de 2 000 usuários por mês. Dispõe de uma estrutura que possibilita e dá insumos ao tratamento dos pacientes visando à capacitação e reinserção, através de:

  • Quatro Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).
  • Um Núcleo de Oficinas e Trabalho (NOT), que oferece vagas em cursos profissionalizantes para diversas áreas de conhecimento, de artesanato a culinária, passando por serralheria e construção civil dentre outros.
  • Três Centros de Convivência e Arte.
  • Um ponto de cultura e uma rádio — esses dois últimos, autodenominados “Maluco Beleza” -, dentre outras atividades e centros que promovem a participação coletiva e capacitação dos usuários.
Entrada da rádio Maluco Beleza

Por conta dessas iniciativas e de toda uma luta antimanicomial existente nos últimos anos, mudando sua postura quanto à saúde mental, o Serviço de Saúde Cândido Ferreira tornou-se uma referência e um modelo a ser seguido pela Organização Mundial da Saúde.

O Cândido de perto: nossas entrevistas

Grupo e Silvana, no dia da entrevista

Ao chegarmos ao Hospital Psiquiátrico Cândido Ferreira, nos deparamos com uma surpresa em aspectos dimensionais. A estrutura conta com três setores principais de gestão administrativa, oficinas e o antigo ambiente recluso da internação por período integral, hoje quase vazia de pacientes e com previsão de desativação para julho de 2017. Quem nos recebeu foi Maria Eugênia, uma das coordenadoras do Hospital desde 1980. Ela deu um norte a respeito das atividades ali exercidas, abordou as polêmicas da reforma psiquiátrica — o antes e o depois — e forneceu sua visão de todas as nuances da interação entre instituição, Estado e pacientes.

Maria Eugênia explicou, sempre enfatizando o contexto, como a instrução aos funcionários do hospital era feita. Confessou, sem hesitar, que já usou o método da camisa de força. A visão de Maria Eugênia esclarece como os que condenam hoje a maneira como os funcionários lidavam com os pacientes há 30 anos têm uma visão anacrônica e pouco embasada em fatos. Disponibilizamos, abaixo, o áudio da entrevista com a diretora. Acompanhe :

Extinto núcleo de retaguarda do Hospital

Após a entrevista com Maria Eugênia, seguimos para a sede da Rádio Maluco Beleza, onde encontramos Silvana, uma ex-paciente que trabalha como locutora. Ou como “loucotora” — ela mesma se denomina assim, sempre com ótimo humor. Percebe-se como Silvana se encontra no estado de lucidez e harmonia consigo mesma e como a vivência proporcionada pelo hospital é a causa principal de sua saúde mental hoje.

Silvana, em uma de suas transmissões

Silvana, primeiramente, foi diagnosticada como maníaco-depressiva — uma denominação dos antigos hospitais psiquiátricos compulsórios — porém atualmente é considerada bipolar, um quadro que, para Maria Eugênia, condiz muito melhor com o que Silvana demonstrou em seus últimos casos de surto.

Nesta entrevista, a locutora da rádio Maluco Beleza faz uma linha cronológica de sua vida em que expõe a mudança temporal dos hospitais psiquiátricos brasileiros. Silvana é também militante na luta antimanicomial . Acompanhe:

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