Memórias do Girondino
Por Ana Laura Ferrari, Enzo Volpe, João Pedro Ribeiro, Maria Eloisa Barbosa e Victor Spatafora, alunxs do 1º JO B

A s pessoas que entram no café variam entre jovens engravatados em seu intervalo de almoço e senhores que parecem veteranos do local. O horário de pico não implica mesas lotadas nem uma fila de espera, já que se define pelo ritmo dos próprios clientes. Não faltam mesas disponíveis. Os que chegam acomodam-se imediatamente, enquanto grupos se retiram de mesas vizinhas.
De arquitetura influenciada pela França do século XX, a “cafeteria, restaurante e choperia traz de volta aquela luz matinal do começo do século passado, oferecendo na medida certa a nostalgia e a modernidade, prestando uma merecida homenagem à memória paulistana”, segundo o próprio cardápio do local.

“Aqui já é nossa parada obrigatória toda vez que estamos em São Paulo. Pelo menos um chopezinho para repor as energias.” — Washington Reitz, Florianópolis, SC.
O Café Girondino original foi inaugurado em 1880, no Triângulo Paulista (Largos de São Bento, Sé e São Francisco). Surgiu no cenário de glamour da cidade, com a primeira linha de bonde elétrico e a febre cafeeira. Era um espaço privilegiado e requintado para aqueles que queriam apreciar um bom café e serviu de inspiração para o atual Girondino, aberto em 1989, na São Bento.
O comércio tem duas entradas. A primeira dá acesso à rua Boa Vista, que fica em frente ao Mosteiro de São Bento, imerso no cenário rudimentar de prédios envelhecidos do Centro Histórico de São Paulo. A outra encontra uma estreita galeria, onde finda o prédio do Girondino e se estendem pequenas mesas, cercadas por duas luminárias arcaicas. Assim, se forma um corredor, acomodando, ao mesmo tempo, pedestres e clientes do café.
A atmosfera nostálgica e refinada mistura-se com o imediatismo do consumo de shopping centers. Ao sentar nas mesas do lado de fora, defronte a uma loja de sapatos e acessórios, a sensação é de estar entre um mundo antigo e um recém-chegado. Cria-se um ambiente original em razão do choque de um lugar maduro, de personalidade e arquitetado cuidadosamente com um jovial, inexperiente e montado funcionalmente.
“Achei muito bonito e aconchegante o lugar. Gostei muito, principalmente do pão-de-queijo. O atendimento também é muito bom.” — Adelma Casé, São Paulo, SP, em sua primeira vez no café.
Os garçons são ágeis, receptivos e bem instruídos sobre a história do lugar. Quando pedida uma sugestão do que comer, a primeira resposta é o clássico arroz-doce, considerado um dos melhores de São Paulo. As cascas de laranja adicionadas à canela da receita original formam um sabor fresco e suave no doce de consistência cremosa.

“O Girondino é ótimo, os pratos são muito bons e a cerveja e o chope que eles servem também. Eu e o meu marido adoramos aqui.” — Susana de Mello Reitz, Florianópolis, SC.
Nos dias úteis, os fregueses sentam e levantam rapidamente, sem delongas, mas também sem pressa, com total controle do tempo que têm para passar ali. Fazem uma pausa em sua corrida rotina. Deixam as mesas após combinarem uma leve refeição com um bom papo em alguns minutos. Ao pisarem na rua, todos voltam normalmente a seguir o seu rumo de antes. Já nos finais de semana e feriados, o local se enche de famílias e turistas curiosos que se reúnem para refeições mais prolongadas.
“O café é muito bem tirado, muito bem-feito.” — Eduardo Araújo, São Paulo, SP, em sua primeira vez no café.
Os mais velhos, em geral, passam o tempo com maior naturalidade no café, a ponto de parecerem parte do Girondino, tal qual um quadro antigo pendurado na parede do local.

O andar térreo dispõe de uma série de mesinhas e cadeiras de madeira envernizada escura, um balcão com sobremesas visivelmente apetitosas e uma área externa com vista para as lojas da galeria da saída da estação São Bento. O ambiente é iluminado pela luz do Sol que entra pelas grandes janelas e pelos diversos lustres distribuídos no café.


Quando se trata do segundo andar e de uma terceira área, o espaço é mais amplo e possibilita a vista da cozinha. Representa um típico salão de jantar de antigamente, com grandes mesas cobertas por toalhas brancas e arranjos de flores naturais no centro. Ao lado das mesas, encontram-se mancebos, nos quais os clientes penduram seus casacos e chapéus.


Antigos quadros da época cafeeira adornam o ambiente, juntamente com dois bonecos no teto, que parecem ter saído diretamente de uma lavoura de café.


O Girondino carrega consigo inúmeras histórias de seus clientes, ultrapassando gerações. Como as do casal dona Márcia e seu Antônio Ferrari. O aroma do café em conjunto com o saudosismo do lugar cria memórias de uma época que há muito se foi.
