Vozes da Vila: histórias do bairro mais boêmio de São Paulo
Por Ana Júlia Guimarães, Gabriel Chilio Jordão, Laísa Lie, Larissa Rangel e Nicole Pires, alunxs do 1° JOD. Fotos Larissa Rangel

Exibições musicais que se misturam entre MPB, Elvis Presley e a clássica “Smoke on the Water”, do Deep Purple. Mais de um bar por esquina. Por mais impressionante que seja, todos cheios de gente, e gente muito diferente. Se os bares em si apresentam uma enorme diversidade cultural, nada mais natural que seus frequentadores expressem o mesmo. Caso existam dúvidas sobre essa diversidade, um exercício de escuta: português não é nem de longe a única língua ouvida.
Para analisar a Vila Madalena no que ela mais representa para São Paulo, uma viagem ao seu coração: a Rua Aspicuelta. Enorme e em linha reta, nela acontecem os principais encontros da Vila e é onde as melhores histórias estão esperando para serem contadas.
Entre bitucas de cigarro jogadas no chão, jovens lentamente se embriagando e luzes que iluminam a noite paulistana, quem vive a Vila Madalena? Como é estar acostumado àquela atmosfera?
O Raw Burger ‘n Bar: a juventude que sobrevive como pode

Logo nos primeiros metros, onde os sons de copos se chocando, pessoas conversando e rindo sobre temas indecifráveis surgem e o característico odor de cerveja e outras bebidas alcoólicas começa a subir, a Vila começa a nascer. No primeiro cruzamento, entre a Aspicuelta e a Harmonia, um pequeno e aparentemente despretensioso restaurante é visto. Com suas mesinhas do lado de fora, um espaço pequeno decorado com dizeres em inglês (a maior parte deles se referindo à temperatura ideal da cerveja e a hambúrgueres) e nenhuma música sendo tocada (algo raro para aquela região e aquela rua em específico), a lanchonete disfarçada de bar (ou bar disfarçado de lanchonete) Raw Burger’n Bar é um espaço muito mais acolhedor para faixas etárias abaixo dos dezoito. Não só crianças como animais também são bem-vindos. Segundo diz seu próprio cardápio, “adoramos crianças, especialmente as bem-educadas” e “adoramos cachorros, sem exceção”.
Servindo incansavelmente a clientela, que varia desde pessoas em um jantar em família a grupos de amigos se encontrando depois de um cansativo dia de trabalho, duas figuras chamam a atenção pelo carisma e pelas histórias. A primeira delas é Emanuel. Ouvir uma única frase do rapaz sorridente e de cabelos castanho-claros no limiar entre liso e cacheado já diz que ele não é daqui. Natural de Buenos Aires, Argentina, Emanuel mora na Terra da Garoa há oito meses, hospedando-se com a família. Apesar do pouco tempo de casa, mostra estar entrosado e confortável no “trampo”, como ele mesmo definiu. Prepara os drinks alcoólicos e mistura os ingredientes com a maior naturalidade do mundo, sem nunca tirar o sorriso do rosto.

O entrosamento com os colegas de trabalho é evidente no aperto na bochecha e no carinhoso apelido de “Manu” dado por Fernanda, uma garçonete.
Trabalhando na lanchonete/bar há um ano, a especialidade da jovem parece ser o público infanto-juvenil. Com seus cabelos escuros presos e um enorme par de óculos, ela se diverte enquanto ajuda os mais jovens a escolherem seu pedido. Conversando com os mais próximos de sua idade, reclama de ter que sair do serviço à meia-noite e não ter onde ir para comer. Um momento de desabafo de uma jovem que demonstra o melhor dos humores enquanto conversa e atende os clientes.
A voz da experiência
Quando os sons de copos e garrafas, música ao vivo e conversas começam a diminuir, e a Rua Aspicuelta começa a dar lugar à Simão Álvares, o aviso vem de quem conhece. Mesmo com o olhar exausto, carregando sacolas de supermercado e ao celular com uma tal “Dona Antônia”, Ivanir, com um sorriso branco e simpático, não vê o menor problema em pedir um “segundinho” para a amiga do outro lado da chamada para conversar conosco. Com um perceptível sotaque nordestino, a mulher, que parece beirar os cinquenta anos, mora na região há mais de três décadas, e dá o recado: “O principal é só até aqui. Pra lá tem uma hamburgueria mas acho que está fechada”.
Preocupada com os jovens que acabou de conhecer, diz, antes de se despedir: “Se eu fosse vocês não ia pra lá não, porque não tem nada e é perigoso uma hora dessas”. Mesmo com incontáveis bares e opções de lazer na Vila, são figuras como Ivanir que ajudam a entender como é morar lá e ver aquilo todos os dias.
De dia Robson, de noite Tigrão

Há dezenove anos, Robson, um rapaz alto, nem tão magro nem tão gordo, sorriso branco, cabelo escuro e curto e olhos castanhos, recebeu a alcunha de Tigrão no seu trabalho. No tradicional bar Posto 6, decoração que lembra um restaurante carioca, onde o futebol dita a decoração, com camisas, bandeiras e quadros de ídolos do passado, dar apelido aos garçons é recorrente. Robson (ou deveria dizer Tigrão?) conta ter recebido o nome pelo tamanho de sua cabeça. Estranho, sendo que sua cabeça não chama atenção por ser muito grande ou pequena. Nem ele sabe explicar.
Numa noite de terça, onde o movimento na região não é nem sombra do que costuma ser nos dias de pico, Tigrão exibe todo seu gingado, brinca com a clientela, tira sarro dos colegas de trabalho. Já num sábado, onde a própria rua fica fechada aos carros devido ao movimento tão intenso, ele torna-se um felino muito mais tranquilo: passa suas horas de trabalho servindo mesas e mesas, sem tempo para suas brincadeiras ou mesmo para esboçar um sorriso, tão característico do Tigrão de outros dias.
Um pedacinho da Europa e da África

Durante uma noite tão tranquila como aquela estão dois rapazes ao ar livre no mesmo Posto 6. Não tinham a intenção de se sentar, provavelmente porque queriam prestar muita atenção tanto na peleja entre River Plate e Boca Juniors sendo exibida no telão quanto no cigarro, que fumavam desde o início. Yas chamava muita atenção pelo sotaque. É um homem de altura mediana e poucas palavras (parecia ser introvertido), mas que sempre abria um sorriso tímido com seus lábios carnudos, e também com uma barba escura e preenchida. Branco, sobrancelhas grossas e escuras, um pouco acima do peso e com seus 32 anos, trabalhava. No final da noite, sua nacionalidade já era revelada: veio do Marrocos há três anos, por isso ainda puxava bastante certas consoantes como o “L’’ e o “’R’’ durante a conversa.
“Viemos para cá por causa do jogo no telão mesmo.’’ Foi o que Marco, amigo de Yas, de 36 anos, disse sobre escolher aquele bar específico em uma terça-feira. Juntamente com o marroquino, ele trabalha na empresa de games Red Cerberus, porém tem uma vantagem sobre uma língua tão complicada como o português: sua mãe é brasileira. Falava perfeitamente o idioma, a informação de que era nativo da Holanda só viria à tona caso ele decidisse revelar (o que fez, no caso).
Quem observa essa dupla junta nem imagina que Marco, um cara esguio, alto, cabelo curto e barba escura (contudo nem tão preenchida quanto a de Yas), olhos castanhos profundos e um pouco mais extrovertido, mora no Brasil há apenas dez anos no bairro do Paraíso, não muito longe do local, o que explica sua presença em um dia tão atípico.
A cultura negra respira

No cruzamento entre Aspicuelta e Fidalga, há três estabelecimentos que chamam muita atenção por tocarem essencialmente black music: o Seu Domingos e o Dona Nina, porém o fervo mesmo está no terraço do bar Quitandinha.
A parte de baixo da casa, com um ambiente confortável, mas muito estiloso, já chama atenção. Exibe uma estante enorme na parede com muitas garrafas de bebidas alcoólicas diversificadas, o nome escrito na parede com uma luz vermelha, um lustre no teto que é decorado com muitas frases chamativas. Agora, imagine a parte de cima. Amantes da música black distribuídos por todas as partes. A interna, marcada pela alegria estampada nos olhos e nas feições do rosto e observada no movimento que aqueles corpos faziam ao delirar-se com o som de músicas que lá representavam sua tribo, era um ambiente escuro, cheio de quadros nas paredes, estampados por grandes personagens da cultura negra e um letreiro em vermelho, escrito:

Lá, as pessoas se aglomeravam em efervescência ao redor do DJ, que, com seus olhos fechados, “mandava” o som que todos queriam ouvir. Frases como “eu amo essa música” eram bastante comuns.
Um pequeno bar cheio de bebidas alcóolicas dispostas sobre as estantes também era motivo de aglomeração no ambiente. A parte externa, por sua vez, era menor e apresentava um local mais apropriado para o fumo e a conversa. Lá era mais claro devido aos estilosos lustres brancos e redondos pendurados nas paredes, que tinham quadros enormes também ilustrando a vida black. As pessoas pareciam realmente entretidas com suas conversas em grupinhos de três ou quatro. Ninguém estava sozinho. E dentre todos, Caren, uma negra muito bonita que, vestida de rosa e com seu cabelo preto e enrolado preso em um charmoso rabo-de-cavalo, segurava seu cigarro e conversava com suas amigas com um largo sorriso no rosto.

A moça, de 33 anos, era uma ex-funcionária do bar e dizia que continuava frequentando lá devido à representatividade, tranquilidade e acolhimento que o ambiente lhe proporcionava. “Aqui a gente desce até o chão e tá tudo certo, tá todo mundo na mesma vibe!”
Quem protege a diversão

As noites dos finais de semana na Vila Madalena são notórias pelos bares, sempre cheios, e pluralidade de pessoas nas ruas. Os jovens, que são a maioria do público, parecem ser os que mais se divertem. A maioria dança e canta com todos ao seu redor, sem muita preocupação com a quantidade de bebida alcoólica sendo consumida. A única preocupação é aproveitar ao máximo as companhias e a música até o amanhecer.
Apesar da sensação de alegria e êxtase com a mistura de estilos musicais e danças, para alguns as noites badaladas do bairro não significam diversão. É o caso de Jaqueline, uma mulher alta e loira, de aparência séria porém muito receptiva, que trabalha como segurança credenciada no bar Pátio SP. Ela fica do lado de fora mantendo a ordem e de olho em tudo, já que o que divide a calçada e o bar são apenas portas de vidro que podem ser abertas o tempo todo. Do lado de dentro se ouve MPB e samba, acompanhados de diversas rodas de jovens conversando alto. Jaqueline pede aos clientes que não deixem as portas abertas pois são elas que mantêm o som abafado. “A gente precisa ficar de olho, se algum vizinho passar e ver as portas abertas pode tirar uma foto e nos multar. A maioria me escuta, mas sempre tem algum mal-educado que dá problema.” Ela diz que é um trabalho difícil e cansativo, a música só vai parar à uma hora da manhã e vai poder ir para casa perto das quatro, mas mesmo assim ela aguenta.
Outro grupo que trabalha a noite toda são os guardadores de carros (os famosos flanelinhas), encontrados por todas as ruas do bairro em meio à multidão. Em frente ao Presley Pub, um pequeno bar descolado que toca rock para todos os públicos, Nivaldo José trabalha guardando carros. Um senhor negro de 49 anos, baixo e muito simpático, ele conta que já trabalha em frente ao local há dezessete anos, apesar de não ser fã de rock. Conta ter se acostumado com o som alto que sai do bar, e ainda diz gostar de trabalhar ali, mesmo que seja “bem puxado”.

Emanuel. Fernanda. Ivanir. Tigrão. Yas. Marco. Caren. Jaqueline. Nivaldo José. Eles vivem a Vila Madalena. E estão mais do que acostumados àquela atmosfera.
