Tambores

Vez ou outra leio textos que me fazem chorar no primeiro parágrafo. Certamente que não são os meus, primeiro porque reviso tanto que já decorei as palavras que virão e segundo porque eu não tenho essa suavidade que geralmente toca as pessoas.

Não é somente na escrita que isso me ocorre, no cotidiano também, um pouco menos nas minhas poucas amizades, um pouco demais nos meus quase-romances, enfim, de pouco em pouco o meu espírito não me parece um dos mais leves que conheço. Longe de mim ser uma dessas pessoas negativas que anda de mal com a vida, longe de mim… mas é que eu não levo uma vida de poeta, por assim dizer… não encaro nada a princípio com sensibilidade, só quando minha intuição me grita para fazê-lo. Não lembro se algum dia já tive esse tato emocional belíssimo voltado para meus iguais, talvez eu tenha tido e precisei abrir mão para me entender melhor e percebi que eu não era nada suave.

Apesar de pequena, tenho muita força física. Apesar de pequenos, meus olhos enxergam até o quilômetro seguinte. Apesar de branca, tenho muita tolerância ao sol. Apesar de fina, minha voz é alta. Apesar de triste, dou gargalhadas dignas de um rei. Apesar de não ser capaz de sentir a todo momento, tenho amor que não cabe no mundo. Tenho ódio também. Os sentimentos mais variados são as notas da minha sinfonia diária, que comporta diversos instrumentos e gêneros musicas.

Ainda nessa metáfora musical, talvez os diversos instrumentos sejam apenas de percussão, mas que por vezes fazem o trabalho de melodia. É assim que eu me enxergo — alguém que supostamente não foi feita para outra função mas que, por teimosia ou por talento, consegue ter várias. Mas às vezes isso não é o suficiente para o ego de um ser humano, infelizmente não sou de verdade um instrumento, mas às vezes minha tabla quer ser um piano clássico. E isso quando meu pandeiro não quer ser um sintetizador! Como ser vivo animado, de carne e osso, cabe ao meu humor barato e porcamente sarcástico para lidar com o fato de que eu nunca serei aquilo que não sou mas gostaria.

Gostaria de ser aquela moça que gosta de astrologia que tudo que ela emana é paz e boas resoluções de vida. Ou aquela mulher que consegue ser boa com os homens e que os homens são bons com ela de volta. Ou aquela colega de faculdade que está com as leituras em dia e sempre descansada e sorridente pois gosta muito do que faz e de como faz. No fundo eu sei que talvez eu já as tenha sido, talvez nessa ou em outra vida, mas em algum momento — como todo pandeiro que tenta ser algum instrumento que não o pandeiro — tive uma crise de identidade e as abandonei.

Eu questiono o mundo e a ordem “natural” das coisas mais do que o recomendado pela OMS — inclusive juro que tentei muitas vezes pensar em tirar os parenteses do “natural” mas não tem necessidade contrariar minhas incertezas dentro do meu próprio texto. Enquanto escrevo falho miseravelmente na empreitada de tentar escrever algo que tenha a melancolia de sempre mas sem a brutalidade habitual das minhas palavras. Sinto muito, mas não sinto nem um pouco por falhar. Não hoje, não essa semana.

Estou me deixando falhar hoje. Exatamente como falhei na última vez em que disse “mas eu te amo”. Não me julguem, fica mais difícil ainda de dizer quando existe um “mas”.

Tambores ainda não conseguem reproduzir a percussão de um coração ruindo.