Eu e as travestis

A primeira vez que tive contato com uma travesti foi na rua, em 2009. Eu estava voltando do trabalho tarde da noite, e um grupo de três transexuais fazia programa lá perto. Uma delas estava encostada no meu carro. Pedi licença, e uma delas me perguntou se eu tinha um isqueiro. Não tinha.

Eu morri de medo e nunca mais parei o carro lá. Travestis para mim se resumiam a pessoas que se prostituíam nas ruas e podiam ser perigosas. Qual exatamente era o perigo eu não sabia, mas relacionava elas a um submundo de drogas e crimes, e eu não queria estar lá e nem pensar no assunto.

Aí veio a Laerte. Era 2010 e ela (que ainda estava deixando de ser ele) começou a aparecer aqui e ali com umas roupas femininas, um pouco desajeitadas no início (quem nunca? rs). Deu uma entrevista para a Folha e disse: estou experimentando. A piada foi geral ao meu redor. Eu achei engraçado, estranho, bizarro. Coisa de artista, ia passar. Mas fiquei com aquilo na cabeça. Li umas entrevistas. E fiquei com mais coisas na cabeça.

Laerte mudou meu mundo

E já admirava o trabalho dela, o humor ácido dos quadrinhos. A inteligência, a serenidade e a elegância que ela desfiava nas entrevistas me dizia que tinha algo mais ali. Por que um artista (então homem) que tinha tudo, prestígio, dinheiro, fama, família, se arriscaria tanto assim? Por que isso era tão importante para ele?

E então mais pessoas que eu admirava começaram a dar atenção para a Laerte. Começaram a entendê-la, a falar sobre ela e convidá-la para palestras. Fui a uma conversa com ela na Casa TPM, foi muito legal (fiz uma pergunta e tratei ela pelo gênero masculino, que vergonha). Era difícil me acostumar a uma figura pública com um novo gênero, mas eu não conseguia mais ver por quê não. Qual o benefício de insistir para que ela “seja” homem, se claramente ela se sente melhor assim?

Mas eu ainda engatinhava no tema.

Então em 2012 veio o discurso de Lana Wachowski. Ela fez o filme Matrix!! Ela é um gênio do cinema. E, meu Deus, ela faz tão mais sentido como mulher. Eu não conheci muito de sua atuação enquanto figura masculina, então ficou mais fácil. Era apenas me concentrar nela como está agora e ver que diante de mim havia uma mulher só querendo existir e ter uma carreira, e fazer filmes fabulosos, só isso.

Então veio a página Travesti Reflexiva, em 2014. Uau. De todas as páginas feministas que eu conhecia, era a mais elegante, a mais alto nível. Aprendi tanto… Aprendi que o correto é A travesti, não O travesti. Aprendi quem é João Nery e como ele é importante. Aprendi sobre o nome social, e como nem todo mundo respeita. Aprendi todo um novo significado para as palavras humilhação e dor.

Mas sobretudo aprendi que as pessoas trans não são integrantes de um submundo tenebroso como eu pensava. Elas são como eu e você. Querem estudar, ter página no Face, namorar, ter família, serem amadas pelos pais, ter uma carreira, mudar o mundo ou só viver a vida delas em paz. E tudo isso é difícil hoje para essas pessoas por causa de gente ignorante, como eu fui no passado.

Depois de descobrir a linda da Sofia na Travesti Reflexiva, comecei a pesquisar sobre o tema. Descobri Laverne Cox, uma das primeiras atrizes trans a ser respeitada. Descobri que essa é a mais nova fronteira dos direitos civis. Descobri a Gender Mom, uma mãe que conta na internet os dilemas, medos e alegrias que enfrenta desde que seu filho, aos 3 anos, revelou para ela que é uma menina. Descobri que há todo um mundo das crianças e adolescentes trans que estão se descobrindo agora e que a única chance dessas pessoinhas não terem uma vida infernal é se a gente conhecer e respeitar, e conhecer e respeitar, e conhecer e respeitar. Conhecer cada vez mais, para respeitar cada vez mais.

Laverne Cox. Mulher, negra, trans e capa da Time. Tá bom pra você?

Por isso hoje, no dia da visibilidade trans, quero agradecer a todos que, com sua imensa coragem deram a cara a tapa e me possibilitaram quebrar meu preconceito. Obrigada Laerte. Obrigada Sofia. Obrigada Lana. Obrigada João. Obrigada Laverne. Obrigada Gender Mom.

Obrigada a todas as mulheres trans e homens trans que juntaram forças, ousaram viver como são e além disso gastaram energia contando sobre isso para o mundo. Eu sei que não foi fácil. Mas queria dizer que pelo menos uma pessoa vocês conseguiram transformar. E hoje eu espero transformar outras.

Antes que eu esqueça: acabei de descobrir uma youtuber ótima. Foi a Mandy Candy que me lembrou do dia de hoje e me motivou a postar esse texto. Obrigada, Mandy. ❤