Na próxima vida, quando nós dois formos gatos

Foram incontáveis quilômetros percorridos na esteira, horas e horas de filas e salas de espera e de olhares perdidos através de janelas imaginando como seria. A parte que importava era assim: eu estava linda, segura e espirituosa fazendo piadinhas que te faziam rir. Era uma festa de gala. Motivo: queria estar usando meu vestido vermelho arrebatador com decote nas costas que, segundo minhas amigas, me deixou sensual (algum amigo em comum podia se casar, vai saber). Pois bem, estou de vestido vermelho segurando um drink e aí ele aparece. Conversa vai, conversa vem, aquela risada que faz a gente inclinar a cabeça pra trás e jogar os cabelos. Lindo, hollywoodiano. Podia não dar em nada. Mesmo. Mas tinha que ser por motivos de forças maiores. Querida, você não vê, é um amor impossível. Uma coisa à la Richard e Ilsa em Casablanca. “Nós sempre teremos Paris”, entra no avião e vai embora. A segunda opção também é boa. Aquela frase da Penelope Cruz pro personagem do Tom Cruise em Vanilla Sky. “Maybe in the next life when we are both cats”. Eu falei isso uma vez pra um cara e ele ficou me olhando como se eu fosse louca. Valeu cada segundo. Enfim, a gente se despede com um olhar e é isso. Mas podia ter também uma terceira opção. Um beijo, um taxi, uma cama, uma manhã acordando juntos e tendo que passar por aquele vexame que é sair pelas ruas com maquiagem escorrida, vestido de festa e salto alto (que uma amiga maravilhosamente batizou de walk of shame).

Não deu tempo de pensar em piadas espirituosas e produções arrebatadoras naquela manhã gelada de quarta-feira, onde eu coloquei três camadas de roupa (porque mais importante que estar bonita é estar quentinha) e saí de casa atrasada para o trabalho. Minto. Antes deu tempo de tentar arrumar o cabelo que tinha secado estranho durante o sono. Tinha uma espinha também bem no meio da minha bochecha. Eu andava pela rua meio desconfortável, em parte porque tava muito mais calor que eu imaginava e a roupa me caía mal, em outra, porque minha amiga tinha mandado uma mensagem minutos antes contando que o cara que ela gostava tinha falado coisas que eu também tentava entender e me entristeceram. Ia com meus fones de ouvido naquele zapear interminável, sem parar em nenhuma música. Quando a Ariana Grande (se fosse no sonho seria Real Love Baby do Father John Misty) começou a cantar Problems, eu vi que eu também tinha um. Cara quente e vermelha, coração disparado, frases mal pronunciadas, risadinha nervosa, vontade de sair correndo. Quase não fiz contato visual. Fiasco completo. Talvez na próxima vida, quando nós dois formos gatos.