Desabafo de uma freira em 1780
Abri os olhos. Mais um dia reverberando aquele apático telhado sobre minhas retinas molhadas e inquietas por conta dos pequenos índices solares que refletiam pela janela. Não estava feliz, pois acordei sabendo exatamente onde eu estava; prefiro despertar desnorteada e, por lapsos que duram alguns minutos, fazendo-me esquecer que fui colocada aqui contra minha vontade. Esse teto branco e sombrio é uma metáfora do que me tornei nesse lugar. Sou mínima, reduzida a um ser que sequer sabemos se realmente fez-se presente em nosso mundo.
Pensam que não temos vontades e que somos castas por servir ao deus deles, mas eu não faço parte dessa castidade fúnebre que tanto proliferam. Todos daqui são podres, cometem erros que eles mesmos condenam no mais puro cinismo cristão, abafados com sacos de ouros e acordos políticos. Tal incoerência desperta em mim uma coragem imensurável de denunciar ao primeiro guarda que nossa igreja peca, que somos sujos aqui dentro. Mas, se fazê-lo, irei para a fogueira. Portanto, contento-me com quem está disponível — e há muitos em oferta: Da mesma forma que acordo desejando o toque de alguém, inúmeros clérigos desejam nosso corpo sob sua posse, e até fazem à força.
Um dia, enquanto caminhava dentre as plantações de orquídeas em nosso jardim, um seminarista me parou e iniciou um monólogo a respeito das frutas e da dádiva de seu senhor; de como somos abençoados pelos frutos da terra e por nossos irmãos. Concordei para livrar-me depressa daquele diálogo egoísta, mas, quando fiz menção de caminhar, o homem pegou em minha cintura e, em poucos segundos, fez-me sua posse. Outras freiras passavam pelo corredor de cima do jardim, mas não impediram que aquilo acontecesse. Elas sabiam que naquele mesmo momento outras estariam em uma situação análoga a minha e seria inútil tentar abortar aquele acontecimento. Todas estamos sujeitas aos homens aqui dentro mais do que éramos lá fora, pois antes de habitamos este lugar, sabíamos que, mesmo que fosse de uma condição diminuta, éramos livres. Aqui, estamos submissas em tempo integral, seja por homens espirituais ou por homens de carne e osso.
