Toureando o Diabo

Desde pequena eu noto um certo padrão em algumas pessoas que ouvem meu nome pela primeira vez: as mais velhas questionam se é por conta de uma música do Roberto Carlos e passam a cantarolar, outras apostam que é uma homenagem à princesa Diana, as mais novas são mais sucintas e apenas comentam que é diferente, enquanto o Facebook disse que é nome falso.

E só estou dizendo tudo isso porque comprei o livro Toureando o Diabo, escrito por Clara Averbuck e ilustrado por Eva Uviedo, e quando disse o meu nome pra Clara fazer a dedicatória descobri por ela qualéqueé a do meu nome: sou uma lady que cospe, como tá no livro. Por isso só já teria sido sensacional, além do fato de ter conhecido uma pessoa que admiro muito e que me inspira pra caramba, mas tinha ainda o livro pra ler.

É um livro sem numeração de páginas que oferece uma leitura tão fluida que em uma sentada se vai da capa à contracapa, mas sem que a intensidade de se ler passe despercebida. No meu caso o trajeto de metrô e ônibus até em casa com Bob Dylan nos fones de ouvido foram suficientes pra engolir aquelas palavras, os desabafos da personagem Camila.

No início pode parecer que as histórias são sobre suas relações (des) amorosas, mas você logo percebe que é na real sobre ela própria, que ela pode até tentar se deixar levar em alguns momentos, mas tem sempre um espelho por perto pra lembrar que no fim do dia é com ela mesma que precisa acertar as contas, o boleto tá sempre ali. I always have respected her for doing what she did and getting free – cantava Robert quando eu fechava o livro.

Destaquei a questão da numeração porque numerar páginas é… padrão. Mas a Clara não é padrão e é por isso que eu gosto muito do trabalho dela. É por isso que ela está entre as melhores autoras e autores contemporâneos: escreve com sinceridade, sem amarras, com clareza e personalidade. Por isso bateu até uma tristeza quando percebi que tinha chegado nas últimas palavras do livro.

Toureando o Diabo me parece uma entrega muito sincera, é cheio de sutilezas, descrições detalhadas (nem tanto para quem não curte longas descrições, nem pouco para quem, como eu, gosta dessas entrelinhas). Um romance que dribla, esquiva, mas ao mesmo tempo provoca, assim como uma tourada. Vale destacar também a sutileza das ilustrações, que entre sombras e traços expressivos traduzem em imagens as sensações implícitas ou explícitas do texto. É um convite à todas as mulheres, sejam elas ladies que cospem ou não.