1967: Edésio e Zélia Passos chegam a Maringá para liderar a Ação Popular (AP)

*Artigo publicado originalmente na coluna História & Política, na edição impressa do jornal “O Diário do Norte do Paraná”, do dia 15 de julho de 2017

Edésio e Zélia Passos

No início do ano de 1967, vindo de Curitiba, chegava com armas e bagagens na cidade de Maringá um casal de jovens intelectuais com a missão e disposição de organizar e movimentar com ações práticas o processo revolucionário na região Noroeste do estado do Paraná. O homem, advogado trabalhista, no decorrer do tempo se notabilizaria na profissão como o mais respeitado e admirado quadro advocatício atuando nas varas trabalhistas e no Tribunal Regional do Trabalho na defesa dos hipossuficientes e no apoio às lutas dos sindicatos, federações de trabalhadores, centrais sindicais e às entidades do movimento popular pelos direitos trabalhistas, constitucionais e de cidadania, ajudando a tornar efetivo, e não apenas formais, os direitos sociais. Nome do advogado: Edésio Passos.

A mulher, professora da rede estadual, iria lecionar no Instituto de Educação, modelar estabelecimento de ensino, reduto dos filhos e filhas da classe média e da alta burguesia maringaense. Sua passagem como mestra na mais importante instituição de ensino secundarista da cidade deixaria para sempre, na mente e no coração daquela geração de jovens que ela preparou com esmero e dedicação ímpar, saudade e admiração. Aquela juventude dourada via aproximar-se célere o desafio da vida universitária, ainda alienada em relação aos males que afligiam a sociedade brasileira, no geral, e maringaense no particular. A jovem professora, além das matérias do currículo convencional, ensinava o socialismo como única opção ao capitalismo selvagem implantado no Brasil, que naquele momento se desenvolvia em meio aos desmandos de uma ditadura militar que deixou através do tempo herança sinistra e um legado de miséria, violência, desemprego, fome e banditismo comandado pelo tráfego de drogas, além de estabelecer grandes conchavos de corrupção entre grandes empreiteiras e o Estado, que perduraram por décadas, até chegar nos níveis recentemente revelados. Nome da professora: Zélia Passos.

O que a sociedade maringaense não sabia era que passaria a abrigar durante três anos, em plena ditadura militar, dois importantes dirigentes paranaenses do clandestino movimento revolucionário Ação Popular (AP), uma organização da esquerda cristã criada num congresso na cidade de Salvador, em 1963. Entre seus mais destacados líderes despontaram Herbert José de Souza (Betinho), José Serra, Vinicius Caldeira Brant, Aldo Arantes, Haroldo Lima e Duarte Pereira. A AP adotou a linha maoísta que visava preparar a guerra popular prolongada.

O ponto alto da atuação do advogado trabalhista Edésio Passos em Maringá foi a organização, junto com lideranças sindicais ligada a AP, da primeira tentativa de greve geral deflagrada no Paraná — e a segunda do Brasil após o golpe de 1964. Em 1º de outubro de 1968, Edésio Passos liderou, à frente da AP, junto com dirigentes sindicais e outros partidos revolucionários, a maior greve da história de Maringá, que envolveu a paralisação dos trabalhadores da construção civil, de indústrias alimentícias, professores, bancários, metalúrgicos e a participação solidária dos estudantes. O clero maringaense, nas figuras do bispo diocesano Dom Jaime Luiz Coelho e do padre Orivaldo Robles, prestou efetiva e corajosa solidariedade aos grevistas no enfrentamento com as forças policiais.

Passados quase 50 anos destes acontecimentos, o Dr. Edésio Passos será homenageado na Cidade Canção mediante a nominação de via pública no bairro Novo Centro Cultural, proposta pelo vereador Mario Verri (PT). O nome de Edésio já estava na história política de Maringá, agora passa, de fato, a fazer parte da geografia urbana da cidade.