A fúria do movimento estudantil maringaense
*Artigo publicado originalmente na coluna História & Política, na edição impressa do jornal “O Diário do Norte do Paraná”, do dia 22 de julho de 2017

Em 1968, o vendaval revolucionário que varria a Europa com epicentro na França, especialmente em Paris, chegou com força ao Brasil. Em alguns pontos do país com intensidade maior. Maringá foi uma das cidades onde o movimento social com ações radicais surpreendentes impactou a opinião pública e pela dimensão e inusitado dos atos ocorridos foi acompanhado pelos setores de inteligência do exército e reprimido com vigor pelas tropas de choque da polícia militar. Na atualidade, cada vez mais, analistas e estudiosos se debruçam com grande interesse e curiosidade na pesquisa desse período histórico quando as forças armadas apoiadas pelo governo norte-americano golpearam o arcabouço constitucional da república e implantaram com rara competência o reino das trevas do fascismo, território onde imperavam os sequestros, torturas, mortes, cassações de mandatos parlamentares, censura e prisões em massa dos inimigos do regime militar. Em consequência, a nação quedou-se desamparada e acuada pelo terrorismo de estado.
No primeiro semestre, na cidade de Maringá, ocorreu a primeira pixação com motivação política após o golpe militar de 1964. Um grupo de ação direta da “Organização” constituído pelos jovens Ramires Moacir Pozza (secundarista), José Aparecido Sforni (universitário), Antonio Calegari (jornalista) e eu — Laércio Souto Maior (professor), organizou uma sigilosa operação noturna que redundou na pixação dos principais pontos da área central de Maringá que rendeu muitos comentários e especulações na cidade: quem seriam os responsáveis pelo desafio à Ditadura Militar? A partir desta ação, nos dias e meses subsequentes o movimento estudantil se fez presente em todos os momentos de confrontos ocorridos na Cidade Canção: engrossou a multidão que prestigiou no dia 2 de abril o grande comício da Frente Ampla na Praça Raposo Tavares, com a presença do governador Carlos Lacerda e do deputado federal Renato Celidônio. O comício de Maringá passou a história como o último do movimento da Frente Ampla liderado pelos presidentes João Goulart, Juscelino Kubistchek e o governador Carlos Lacerda, que visava retornar o Brasil aos trilhos da democracia; acompanhou atento e curioso a prisão do jornalista A.A. de Assis pelo serviço secreto do exército, que pegou de surpresa a cidade, pois todos sabiam da não participação do pacato jornalista em qualquer ato ou iniciativa contra o regime militar; apoiou com coragem, através de manifestações de solidariedade, os trabalhadores que deflagraram em Maringá a primeira tentativa de greve geral da história do estado do Paraná, e a segunda do Brasil pós-golpe de 1964, em seguida da eclodida na cidade de Osasco, no estado de São Paulo.
Em plena campanha eleitoral para prefeito aconteceu a grande explosão. Um mês antes do pleito foi desencadeada a maior e mais radical manifestação estudantil da história de Maringá e do Paraná contra a Ditadura Militar. Na ocasião, milhares de estudantes, na maioria secundaristas, ocuparam durante horas o perímetro central da cidade pondo em polvorosa as autoridades civis e militares. Ao tomarem conhecimento da vinda a Maringá da comitiva do governador Paulo Pimentel para apoiar na reta final da campanha a candidatura do promotor público João Paulino Vieira Filho (Arena), planejaram um grande ato de protesto com o apoio do MDB através da participação direta do secretário-geral, que autorizou o empréstimo de parte da estrutura partidária de mobilização (carro com auto falante, megafones, faixas, etc.). Com ações rápidas, a legião de estudantes comandou o bloqueio das praças e ruas do centro de Maringá e marcharam em direção ao comício da Arena na Praça Raposo Tavares gritando palavras de ordem, exigindo liberdade e democracia para o povo brasileiro. Em fúria, os jovens estudantes lembravam uma ventania forte, um redemoinho daqueles que avançam e arrastam a tudo e a todos de roldão.
Enquanto pequenos grupos de estudantes armados de porretes e organizados em piquetes dominaram e passaram a dirigir o trânsito nas esquinas das ruas que desembocavam nas proximidades da Praça Raposo Tavares, o grosso da massa estudantil gritava palavras de ordem e vaiava a ditadura e as lideranças da Arena, avançando na direção do palanque onde se encontravam o governador Paulo Pimentel, o prefeito Luiz de Carvalho, o candidato a prefeito João Paulino Vieira Filho, deputados federais, estaduais, vereadores e secretários municipais. Numa ação rápida, tropas de choque da Polícia Militar fizeram um grande cordão de isolamento entre os estudantes e a multidão que emprestavam apoio ao comício arenista. Em seguida, após o comício, em passeata os estudantes foram em direção do Hotel Bandeirantes onde se encontrava hospedada a comitiva do governador Paulo Pimentel. Repetindo a tática do cerco, as lideranças mais radicais venceram os moderados e num ato desatinado instigaram a massa estudantil a invadir o hotel, saltando em cima dos carros das autoridades, vaiando sem parar, jogando pedras na fachada do bonito prédio numa explosão incontrolável. Dentro do hotel, o ambiente era hostil e de raiva contra a ousadia dos estudantes em desafiar os governos estadual, municipal e as forças policiais. Ouvindo as ponderações arguidas inteligentemente pelo prefeito Luiz de Carvalho, o governador do Paraná não permitiu a repressão prestes a ser detonada pelo secretário de Segurança Pública do seu governo e bateu em retirada pelos fundos do belíssimo hotel evitando uma ação militar de consequências imprevisíveis.
Com a retirada da comitiva governamental, os estudantes dispersaram-se comemorando com grande alarido sua vitória naquela noite histórica para a memória política do movimento estudantil de Maringá, tornarando-se a vanguarda audaz da “Organização” na prática efetiva das ações de agitação e propaganda. As lideranças estudantis que comandaram a grande manifestação foram: Ramires Pozza, dirigente estadual do Movimento Estudantil Livre (MEL); Provino Pozza Filho, presidente do Grêmio Estudantil do Colégio Gastão Vidigal; Francisco Timbó de Souza; Paulo Menezes; e Natan Pereira.
