A vila rebelde

*Artigo publicado originalmente na coluna História & Política, na edição impressa do jornal “O Diário do Norte do Paraná”, do dia 27 de julho de 2017

Com seu secretário-geral preso, o aguerrido MDB de Maringá apoiou com entusiasmo Horácio Racanello Filho para prefeito. Na foto, um registro de reunião da campanha na Vila 7

A pequenina vila 7 abrigou o mais importante e duro núcleo de resistência popular e revolucionária contra a ditadura militar em Maringá na década de 60 do século XX. Chegou a hora de contar esses episódios da luta no campo legal e ilegal para derrotar o regime implantado no Brasil no dia 1 de abril de 1964, que não faz parte da história oficial de Maringá, mas da história real que emerge e mostra sua cara e sua importância histórica. Em 1962, depois de uma estafante viagem de ônibus de 8 dias (a rodovia Rio-Bahia ainda não estava asfaltada) da cidade de Caruaru, minha terra natal no estado de Pernambuco, aportei na Vila 7, na periferia de Maringá. Deparei-me com um cenário ideal para o trabalho político que pretendia empreender com o entusiasmo dos meus 22 anos de idade, pois me vi residindo num bairro majoritariamente habitado pelos meus irmãos nordestinos.

Vinha da região nordeste do Brasil com uma bagagem cultural muito boa, pois tive a sorte de ter estudado o curso ginasial no Colégio Diocesano de Caruaru, e o curso clássico no Colégio Estadual de Pernambuco, o famoso colégio dos governadores assim chamado por ter como seus ex-alunos vários futuros governadores do estado. Não perdi tempo e na mesma semana que cheguei, fui à luta. Enquanto procurava emprego para poder manter minha família, tentava entrar em contato com os companheiros dos partidos de esquerda que atuavam em Maringá (PCB, PSB e PTB). Não demorou muito e me deparei na praça Raposo Tavares com João Rino, um português alto, fortão e corado que era o responsável em Maringá pelo setor de Agitação e Propaganda do Partido Comunista Brasileiro (PCB), que numa solidariedade fulminante neste mesmo dia arranjou meu primeiro emprego em Maringá no Escritório de Contabilidade Brasil de propriedade do vereador comunista Bonifácio Martins. Convidado para me filiar no partido mais antigo do Brasil, de tantas glórias, declinei do convite e continuei tendo até os dias de hoje uma relação de admiração e respeito pelo velho Partidão.

Admirador do governador Leonel Brizola e da sua proposta de um nacionalismo de esquerda, tratei de convencer alguns companheiros do movimento estudantil que privavam da minha amizade e confiança de organizarmos na véspera do golpe militar, a partir da Vila 7, os Grupos de Onze em Maringá. Por motivos óbvios não conseguimos levar adiante nosso intento. Nos dois anos que antecederam a debacle da democracia em nosso país, diariamente visitava amigos e companheiros moradores na vila para informá-los dos acontecimentos políticos nacionais e internacionais, e politizá-los numa linguagem simples respeitando o grau de instrução que eles adquiriram na sua dura jornada de vida. Foi assim que nasceu o embrião da “Organização”, movimento revolucionário de luta armada do município de Maringá. Em três ocasiões nesse período, viaturas do Dops (1968), e do Doi-Codi (1970–1975), silenciosamente se dirigiram à Vila 7 para prender dirigentes da “Organização” e do PCBR. Paralelamente ao trabalho clandestino efetuado, a oposição legal ao governo militar exercida pelo MDB em Maringá, a partir de 1966, foi organizada pelo seu Secretário-Geral residente na Vila 7 e militantes emedebistas, que irradiaram seu espírito rebelde para as demais vilas e bairros da periferia de Maringá, culminando na surpreendente vitória eleitoral do MDB na eleição municipal de 1968.

Concluindo este relato de memória histórica destacamos um morador pioneiro da Vila 7, o sempre bem humorado Adenias Raimundo de Carvalho, presidente do Sindicato dos Carregadores e Ensacadores de Café de Maringá, que na semana do golpe militar, e nas duas semanas subsequentes, liderou uma greve histórica, enfrentando com coragem as autoridades militares que invadiam as sedes dos sindicatos brasileiros, destituindo suas diretorias. A greve terminou vitoriosa e ficará para sempre na história do sindicalismo maringaense e do Paraná.

Hoje em dia, a pacata Vila 7 é vizinha à Universidade Estadual de Maringá (UEM) e é mais conhecida por abrigar diversas repúblicas de estudantes. Seus dias de agitação política ficaram no passado, para dar lugar aos bares e festas universitárias, num convívio harmonioso com as remanescentes famílias pioneiras.