“Longa vida ao presidente Mao Tsé Tung!”

*Artigo publicado originalmente na coluna História & Política, na edição impressa do jornal “O Diário do Norte do Paraná”, do dia 26 de agosto de 2017

Teresa Urban numa passeata em 1967

O ano era 1967 e eu estava na sede do “O Jornal de Maringá” quando fui surpreendido com a chegada nada protocolar na redação de duas estudantes curitibanas, irradiando beleza e juventude, militantes da organização maoísta Ação Popular (AP). As duas moças irromperam na sala onde eu, José Sforni e Antonio Calegari (redator-chefe), conversávamos. Estacaram quase no estilo militar, ergueram os braços, punhos fechados e exclamaram:

- Longa vida ao presidente Mao Tse Tung!

Falemos um pouco para os leitores sobre a Ação Popular. A AP atuava em âmbito nacional e foi fundada durante um congresso promovido pela Juventude Universitária Catolica (JUC) na cidade de Belo Horizonte, entre 31 de maio e 3 de junho de 1962. Segundo os documentos aprovados no mencionado congresso, seu objetivo era formar quadros que pudessem “participar de uma transformação radical da estrutura brasileira em sua passagem do capitalismo para o socialismo”. Historicamente, sua principal liderança foi Herbert José de Souza, o Betinho, e seu principal ideólogo foi o padre Henrique Vaz, ambos secundados na trajetória da organização, por Aldo Arantes, Vinicius Caldeira Brandt (presidente da União Nacional dos Estudantes — UNE), e seu sucessor na presidência, José Serra, então presidente da União Estadual dos Estudantes do Estado de São Paulo.

Noemi Osna na época dos acontecimentos

Curioso, perguntei ao Calegari:

- Quem são essas meninas bonitas?

Calegari, então, explicou tratar-se de Noemi Osna e Teresa Urban, que vieram a Maringá com a missão de revisar, editar e imprimir o jornal da União Paranaense de Estudantes, órgão máximo de divulgação dos estudantes universitários no âmbito estadual. Segundo ele, a negociação para concretizar esse projeto foi realizado pelo Ubiratan Khun Pereira, diretor administrativo do “O Jornal de Maringá”, o presidente da UPE, o acadêmico do curso de medicina da UFPR, Luiz Antonio Amaral, e diretores da entidade onde se destacava pelo brilho intelectual, Celerino Carriconde, um dos ideólogos da AP no Paraná. A missão das duas jovens revolucionárias maoístas foi cumprida a risca com êxito e competência, e no final do mês de setembro de 1967, o jornal impresso em Maringá chegava em Curitiba colocando em polvorosa as autoridades militares, o reitor da UFPR, e seus vice-reitores, indignados com a ousadia dos estudantes da mais antiga universidade do Brasil em desafiar os chefes militares.

Na sequência, o comando da 5ª Região Militar reagiu ordenando o fechamento do “O Jornal de Maringá”, por ter permitido editar e imprimir o jornal da UPE nas suas dependências com matérias com excelente conteúdo, denunciando os desmandos cometidos pela Ditadura Militar e recheado com charges contundentes, e críticas ao regime, de autoria do Nelson Padrela, que tanto irritou os militares. Ardinal Ribas, o poderoso proprietário da Companhia Telefônica de Maringá, dono do “O Jornal”, órgão oficial do município, foi pego de surpresa pelo fato inesperado da ocupação do seu veículo de imprensa. O influente empresário acionou céu e terra solicitando ao prefeito Luiz de Carvalho, deputados federais e estaduais, solidariedade. No final, as autoridades municipais conseguiram convencer os oficiais de alta patente do 3º Exército que Ardinal Ribas apoiou a Revolução de 31 de Março desde o início e foi enganado na sua boa fé pelo seu diretor administrativo. Daí então, o exército liberou o jornal que rapidamente voltou às suas atividades normais.

Quando a polícia política do exército foi prender as duas jovens, Noemi Osna e Teresa Urban já estavam na clandestinidade, fugindo da caçada implacável dos órgãos de repressão. Uruguai e Chile foram os países onde se exilaram. Após a redemocratização do país, Teresa Urban, até sua morte no dia 26 de junho de 2013, dedicou sua vida a defesa do meio ambiente, da ecologia e dos direitos constitucionais da cidadania, tornando-se, na sua área de atuação, um ícone respeitado em todo o estado do Paraná. Noemi Osna, por sua vez, tornou-se uma importante jornalista paranaense ligada à cultura e continua na ativa atuando na emissora pública do Estado do Paraná, a Rádio éParaná, em Curitiba, onde é responsável pelo programa Choro Vivo — tradição e tendência de um gênero brasileiro com foco na história deste importante estilo musical nacional, das origens no final do século XIX até a atualidade. O programa Choro Vivo vai ao ar todos os sábados, às 7 horas da manhã e é possível acompanhar pela internet. Para quem quiser saber mais sobre a trajetória destas jovens maoístas, Teresa Urban e Noemi Osna foram entrevistadas para o livro “Sem Liberdade, eu não vivo: mulheres que não se calaram na ditadura”, escrito pelas jornalistas Laura Beal Bordin e Suelen Lorianny, lançado pela editora Compactos em 2013.

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Laércio Souto Maior

Written by

Escritor, historiador e jornalista pernambucano, radicado em Curitiba-PR.

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