O dia em que o “Diário do Norte do Paraná” desafiou a censura do SNI

*Artigo publicado originalmente na edição impressa do jornal “O Diário do Norte do Paraná” do dia 10 de junho de 2017

Em destaque, os deputados federais Renato Bernardi e Euclides Scalco (MDB) em visita ao "Diário" em abril de 1977. Ao fundo avistamos os geniais diagramadores "Pardal" e "Profeta". O garoto atrás da imensa máquina de escrever é o hoje renomado blogueiro maringaense, Angelo Rigon.

No início do ano de 1977, convidado pelo empresário Ramires Moacir Pozza, assumi como redator-chefe o comando editorial do jornal “O Diário do Norte do Paraná” substituindo, na ocasião, o competente jornalista Badini Neto.

Uma curiosidade para os leitores: meu nome não constava do expediente porque respondia na Justiça Militar meu segundo processo enquadrado na Lei de Segurança Nacional. Num dia ensolarado do mês de abril do mencionado ano fui surpreendido com a chegada inesperada dos deputados federais Euclides Scalco e Renato Bernardi na redação do grande jornal sediado na cidade de Maringá. No momento da visita dos dois parlamentares encontravam-se na redação, conforme avistamos na foto, os excelentes diagramadores Roberto de Freitas, apelidado de Pardal, e o Olício, apelidado de Profeta, que fizeram uma revolução no visual gráfico do jornal que marcou época. O menino ali atrás daquela grande máquina de escrever é o hoje renomado jornalista Angelo Rigon, que aos 14 anos estreava na imprensa maringaense estagiando na editoria de Esportes do “Diário”, então liderada pelo editor Valdir Pinheiro.

A visita de Euclides Scalco (que após a restauração democrática ocupou o cargo de Ministro Chefe da Casa Civil do governo Fernando Henrique Cardoso) ao redator-chefe foi motivada pelo impacto causado pela cobertura jornalística que o “Diário” deu à conferência realizada na cidade de Umuarama proferida pelo professor emérito da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), presidente da Comissão Pontifícia de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo, Dalmo de Abreu Dalari, que se destacou durante o auge do período repressivo da ditadura militar defendendo os direitos humanos e a democracia sob o comando e benção do cardeal Dom Paulo Evaristo Arns.

A mencionada conferência do corajoso mestre para os estudantes de direito da Faculdade de Umuarama gerou grande repercução nos meios acadêmicos, forenses e eclesiásticos do estado do Paraná. O impacto causado pela mencionada palestra do professor Dalmo Dalari foi maior devido à cobertura jornalística em página espelho que o “Diário do Norte do Paraná” ousadamente destacou desafiando e rompendo a cortina de silêncio que a férrea censura determinada pelo Serviço Nacional de Informações (SNI) impôs a todos os jornais do país de não poderem informar ou anunciar as palestras e conferências proferidas pelo professor. Dalmo Dalari fazia uma cruzada por todo o território continental do Brasil denunciando e combatendo, pela palavra, os abusos da ditadura militar fascista que por 21 anos dominou com mão de ferro a nação brasileira, abolindo da vida nacional a liberdade e os preceitos democráticos constitucionais.

Depois de uma boa conversa, o deputado federal Euclides Scalco — então presidente do Diretório Estadual do MDB do Paraná, solicitou e levou 200 exemplares da polêmica edição do “Diário” para serem distribuídos em Curitiba, São Paulo e Brasilia, para um seleto e pequeno grupo de leitores, tamanha foi a ousadia do jornal. No ano anterior a esta referida visita ao “Diário” com seu colega professor Renato Bernardi, Scalco tinha me visitado no Presídio do Ahú, levando sua solidariedade ao secretário geral do MDB de Maringá preso na Operação Marumbi por ordem do comando da 5º Região Militar.

Essa e outras histórias desse turbulento período do “Diário do Norte do Paraná” comandado pelo seu ruidoso redator-chefe, pretendo em breve trazer a lume no livro que estou escrevendo intitulado “A fase libertária do Diário do Norte do Paraná”.