Fê e o sonho na boca

Era assim dotado de um gosto estranho

O sonho obscuro desenvolto em cena

Fugia à mente, fazia a boca plena

A brasa quente do ferrão de estanho

Marcava a língua e imprimia o rosto

O homem partido, o cheio de desgosto

Desagrado uníssono da fadada vida

Um olhar torpe e por que não demente

Um vazio enorme numa alma suja

A sobra do Ser pútrida e mal nutrida

A angústia mortal, a questão sem resposta

Cuja infâmia desbota a visão e a saída

E à sombra do ver, o meu

Fica o clichê niilista apenas

Escarro da incredulidade do eu

Da indecência do teu

Da crueldade do seu

Num mundo de asas sem penas

Repleto de dores pequenas

E num delírio qualquer que esvazia a boca

Torna a estampa da mente, oca

Vai embora o sonho e a (des)ilusão