Medidas, não precisam ser tomadas
Nós gostamos de medir, nós gostamos de medidas. Gostamos tanto que inventamos medidas para tudo. Tudo. Temos até medidas para coisas que já podiam ser medidas de outro jeito, como a distância, por exemplo, ou a profundidade de um rio que não podia ser medida como uma mera distância, só que na vertical. Não. Vamos transformar tudo em números e dar a cada número uma unidade diferente.
Na verdade isso não é assim tão ruim, embora eu realmente não entenda a coisa da profundidade. O problema é que também gostamos de medir pessoas. Medir a nós mesmos, medir os outros.
Existe um número certo de sorrisos que uma pessoa pode dar para ser agradável e simpática, sorrisos a mais a tornariam artificial, sorrisos de menos ranzinza. As a matter of fact, sorrisos de menos podem até mesmo causar medo, “vê aquele menino ali? Aquele que nunca sorri? Ele é do tipo que invade uma escola, saca uma pistola e mata muita gente.”.
Mas também nos aferimos de inúmeras outras formas: boa educação, vestuário, salário, moradia, escolaridade, viagens ao exterior, fluência em diferentes línguas, horas de trabalho sob o sol, livros lidos, quilômetros corridos, e assim a lista segue. Podemos medir qualquer coisa e, pode ter certeza, nós medimos. Chegamos ao ponto desesperado de medir uns aos outros pelos próprios problemas.
- Vê aquela mulher ali? Aquela nunca teve um problema de verdade na vida. Mãe rica, pai rico, estudou em escola de rico, as roupas até cheiram a loja de rico. Mas eu, eu tive cada dificuldade, venci todas elas.
- Ai, é verdade. E aquele casal feliz ali? Aqueles dois não sabem o que é sofrer, não sabem o que ver um casamento ser despedaçado, não sabem o que é ver um filho enterrado. Mas eu sei e vivi para contar.
- Eles não sabem o que é ser a gente.
- Não sabem o que é estar na nossa pele.
- Jamais saberiam.
- Jamais saberão.
- Porque se tentassem…
- Mesmo que um só dia…
- Ah, eles não aguentavam, não.
- Só a gente é que sabe.
- Só a gente é que forte.
Sabe esses tipos? Esses tipos tipo eu e você e todo o mundo? Eu sei também. Eu me pego pensando: por que exatamente a medida dos seus problemas te faz uma pessoa mais capaz, melhor, superior? Por que o azar, a carta virada da roda da fortuna, o fio desfiado no tear do destino, a linha torta de Deus faz alguém melhor? Mas é o que vemos todos os dias, sim? Pessoas que desprezam umas as outras porque as outras, ah, as outras não sabem o que é um problema de verdade e as umas, ah, essas não sabem o que é sofrer.
Qual é a grande vantagem de sofrer mais?
Faz de você mais preparado para a vida (leia-se: para os próximos problemas)? Certamente.
Mas acaso fosse outro em seu lugar, ele não se tornaria preparado também?
Parecemos esquecer que não somos assim tão especiais. Que se conseguimos, outros conseguem. Não todos, mas outros.
Parecemos esquecer que se uma pessoa ainda não teve problemas, ela pode ter. Que ela pode tê-los e superá-los. Que ela pode tê-los sem fenecer, sem perecer.
Nunca se sabe o quão mais forte quem julgamos tão mais fraco pode de fato ser.
Sequer sabemos como é que as pessoas realmente se sentem sobre os problemas que elas tem. E tentar comparar, como uma amiga me disse uma vez, é incabível. “É tipo comparar maçã com asfalto.”
Parecemos esquecer principalmente, que se uma pessoa ainda não teve problemas suficientes, em nossa opinião, comparados a toda a enorme carga de sofrimento e desespero que trazemos em nossas costas curvadas, deveríamos ficar felizes por ela.
Deveríamos medi-la pelo que é e pelo que pode ser. E não pelo que (não) somos.