OVERTURE

Perceber logo nas primeiras palavras que se trata de algo diferente. Essa coisa contorcida e estranha que vem de não-sei-onde e que impregna como uma memória insuportável. O poema é uma memória insuportável. Um distúrbio, uma fenda que se abre para um novo estado de coisas.

Lembrando Paul Valéry, “Um poema é uma duração, na qual, leitor, eu respiro uma lei que foi preparada; eu dou meu sopro e as máquinas de minha voz, ou somente seu poder, que se concilia com o silêncio”. Como se o tempo não passasse, como se um soco nos apagasse no meio da cidade e acordássemos com tudo diferente.

E tal qual em muitas sinfonias, há poemas cujos princípios são antológicos:

Recife. Ponte Buarque de Macedo.
Eu, indo em direção à casa do Agra,
Assombrado com a minha sombra magra,
Pensava no Destino, e tinha medo!

Augusto dos Anjos é Don Giovanni! Muitos têm aberturas que são verdadeiras pedradas:

Eu, filho do carbono e do amoníaco, 
Monstro de escuridão e rutilância, 
Sofro, desde a epigênesis da infância, 
A influência má dos signos do zodíaco.

A coisa funciona meio que como na 5ª sinfonia, já se sabe, de alguma forma, que trata-se de algo diferente. Não que um bom início garanta o poema, que seja condição, muitos entram suaves e se transformam, mas, quando acontece nas primeiras palavras…

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Ou…

À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

E a coisa se dá naturalmente. Nestes dois do Pessoa/Álvaro de Campos a urgência está presente desde a primeira letra. Urgência. O Pedro Rocha enfatiza isso muito bem quando fala sobre poesia, “um poema precisa ter urgência”.

E o quê falar dos primeiros versos do primeiro livro do Drummond?

Quando nasci, um anjo torto desses que vivem na sombra disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

É assim que ele começa tudo! Como se mexesse na matéria prima da existência com os dedos magros e esculpisse coisas assim:

Acordo para a morte.
Barbeio-me, visto-me, calço-me.
É meu último dia: um dia
cortado de nenhum pressentimento.
Tudo funciona como sempre.
Saio para a rua. Vou morrer.

Evidente que o poema é uma viagem única, que, lembrando João Cabral, “o poema lido uma única vez, é um poema mal lido”. O poema é uma invasão no corpo do outro, uma constante transformação, e julgá-lo somente pelo princípio seria injusto, porém, entrar em um poema é sempre um risco, tanto pra quem escreve, quanto pra quem lê, e se for pra se jogar, que seja saltando longe…

A cidade é passada pelo rio
como uma rua
é passada por um cachorro;
uma fruta
por uma espada.

Ou,

Assim como uma bala
enterrada no corpo,
fazendo mais espesso
um dos lados do morto;

Como se o poema fosse o último grito, como se o poema fosse a última coisa a ser dita antes fim de tudo:

turvo turvo
a turva
mão do sopro
contra o muro
escuro
menos menos
menos que escuro
menos que mole e duro menos que fosso e muro: menos que furo
escuro
mais que escuro:

outro Gullar:

Eu devo ter ouvido aquela tarde
um avião passar sobre a cidade
aberta como a palma da mão
entre palmeiras
e mangues
vazando no mar o sangue de seus rios
as horas
do dia tropical

Como se uma nuvem de tensão surgisse, o início do poema é a expectativa da chegada da bomba, quando tudo explode transformando tudo:

quem fala que sou esquisito hermético
é porque não dou sopa estou sempre elétrico
nada que se aproxima nada me é estranho
fulano sicrano beltrano

Ainda Waly:

Por que a poesia tem que se confinar
às paredes de dentro da vulva do poema?

E o poema se anuncia já no primeiro sinal, ou melhor, o poema já é o primeiro sinal:

A estátua de Álvares de Azevedo é devorada com paciência pela paisagem
de morfina
a praça leva pontes aplicadas no centro de seu corpo e crianças brincando
na tarde de esterco

Mais Piva:

Eu vi os anjos de Sodoma escalando
um monte até o céu
E suas asas destruídas pelo fogo
abanavam o ar da tarde

E poderia-se ficar eternamente nesse exercício. Guilherme Zarvos:

Daqui de cima do Monte Pascoal viu. Neste
bosque encantado, nesta floresta que é parque
quando tudo era parque — correu morro: trinta
quilômetros.

Domingos Guimaraens:

encarcerado no habitáculo do sono
amarrado às redeas do peso infinito
das dormentes horas adormecidas
olho para as cortinas fechadas
membranas plasmáticas do além

O poema é mesmo “catapultaquiupariu”, como diz o Pedro Rocha. Jorro de sangue do nervo exposto que só sai porque deve sair e não há outro jeito. Do Pedro:

Diante do Jardim só Flor
meu tumulto mudo
silêncio na avenida das
Américas
e o escândalo sonoro e opaco
do medo de perder minha vida
ao lado daquele
homem nome de telefone
E como não poderia deixar de ser, Ericson Pires:
aquele que escreve é
também aquele que
é escrito
a potência
de nadar no tempo
a insistência
de sentir o fio
a querência
de brotar acaso

E assim essas sinfonias abrem seus trabalhos até o cair dos panos, até seus pontos finais, até suas concretizações dentro dos corpos de quem os lê, e que fazem seus ecos se multiplicarem reverberando eternamente nos multi-universos.

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