estados sonâmbulos #1

Um dragão-marinho-folhado

Não é à toa que novamente não durmo, ou durmo mal, ou estranho tudo. Achei que iria chegar em Petrópolis e dormir tão bem por causa do friozinho e me acabo de espirrar violentamente por causa do pó de minhas roupas.

Eu gostaria de saber de que adianta aprender novos truques, por exemplo: para dormir mais rápido, se eles quase nunca funcionam. Não comigo. Vejam: fui irremediavelmente interrompida pelos espirros. Não só não funciona comigo, como eu nem precisaria me incomodar pois parece que uma força maior vai me impedir de colocar o novo truque em prática. Saco. Acho que cochilei entre um espirro e outro, no intervalo das crises, na subida de 5 graus.

Também é verdade que me incomoda ser a diferente da cidade, no meio de tantos diferentes. Nem é isso que eu ia falar. Ia falar sobre usar casacos que limitam o movimento. Me incomoda ter meus movimentos súbitos de mexida no cabelo limitados. Então eu tiro. Hoje faremos compras. É aquele suposto dia que teríamos de aproveitar ao máximo pois amanhã só estaremos aqui até a tarde.

Eu adoraria realmente aproveitar as estadias. Mas sempre me distraio com algo. Um rapaz bonitinho que eu tento o tempo todo conquistar, um súbito ataque de espirros que me impedem de dormir à noite. Eu tentei falar mais sobre mim mas ele nem estava ouvindo. Estava ocupado demais tentando mostrar o quanto é sagaz. Ou o quanto o alemão dele é péssimo. Eu seria uma péssima companhia pra ele, de qualquer forma, ao ressaltar o tempo todo o quanto seu alemão era “péssimo”. Ele disse antes que “só arranha”, mas depois enche o peito e bate o pé pra afirmar o que sei estar errado. E eu ainda tentei lhe dar o meu nome. Veja você, que ironia…

Queria mesmo era nascer com a cara de pau de aparecer descabelada e impaciente no corredor de espera do banheiro, segurando uma escova e pasta de dente na mão. Quem haveria de me crucificar por ser eu mesma, sério?! Muito pelo contrário. Eu atraio olhares. Principalmente se estiver sentada num trenzinho turístico sem portas para crianças, super colorido, com música alemã tocando estrondosamente, sendo guiado por um motorista cuja principal função é a de buzinar fonfom! por toda esquina que deveria passar. Esquinas estas tomadas por grupinhos fechados de adolescentes compartilhando garrafas com partes iguais de vodca de padaria e refrigerante de 3 reais.

Olá!, ainda diria eu, sem vergonha. Apenas seja a porra da pessoa intensa que você é? De noite o quarto fica trancado, então ninguém vai subitamente te estuprar no seu sono. Qualquer coisa você chama a polícia ou começa a fazer um escândalo no meio da rua. E talvez então você perceba a quantidade de histórias loucas com o imenso potencial de serem suas. A sua vida tá louca pra começar a ser vivida por você. Acho que me convenceria fácil e falaria e usaria e andaria da forma como bem entendesse. E o mais importante: minha mini-revolução libertaria a minha irmã, que trava diante de tanta repressão originada por mim dentro da minha própria cabeça.

-Grace Fugazza, junho de 2017-