Jornalismo Independente em foco

Como se organizam e se mantém veículos alternativos de POA

Texto produzido para o Portal unicos.cc

O jornalismo independente ou alternativo ganha cada vez mais espaço, principalmente na internet. Com grandes histórias, tratando de assuntos muitas vezes ignorados pela mídia tradicional ou que não receberam a devida atenção, diversos coletivos vêm fazendo sucesso. No Rio Grande do Sul já temos muitos nesta linha. Em nível nacional, mais ainda.

Buscando entender de que forma trabalham, qual seu diferencial e como se mantém em funcionamento, conversamos com representantes de Sul21 e Nonada. Dois portais gaúchos que seguem linhas diferentes, mas que têm em comum a paixão por boas histórias. Recentemente a Agência Pública, um dos maiores nomes do Jornalismo Alternativo e Independente do País, lançou um material que mapeia iniciativas semelhantes no Brasil. O resultado foi uma enxurrada de coletivos e grupos que buscam uma comunicação mais humana e que gere reflexão. Confira o levantamento em http://apublica.org/mapa-do-jornalismo/.

Jornalismo Cultural em pauta

Nonada Travessia é um destes portais citados no levantamento da Agência Pública. O coletivo de Porto Alegre está no ar há mais de cinco anos e não tem uma redação física. Contando com a colaboração de jornalistas formados, estudantes e fotógrafos, tem linha editorial focada no jornalismo cultural. Buscando mostrar uma parte da cidade muitas vezes ignorada pela grande mídia, Nonada tem um público fiel e sedento por materiais muito completos e sensíveis. Rafael Gloria, jornalista, fundador do site e editor da plataforma, conta que trabalhando em veículos tradicionais percebeu que faltava espaço para notícias de cultura que fossem além da programação semanal do cinema.

“Além de pouco espaço para pautas de cultura, os jornais têm cada vez menos espaço para as reportagens, e foi isso que nos motivou a desenvolver o Nonada. Foram seis meses de planejamento. No início era apenas um site, hoje somos um coletivo com cerca de 10 pessoas fixas mais os colaboradores”, disse Gloria. O editor conta que o coletivo faz um rodízio grande entre os envolvidos para que todos possam conciliar as atividades com os trabalhos fixos.

Parte da equipe do Nonada: Thaís Seganfredo, Rafael Gloria, Júlia Manzano, Airan Albino, Priscila Pasko e Giulia Barão (Foto: Nonada)

“Eu entrei no Nonada faz um ano e acabei de descobrindo. Eu me dedico a tratar da representatividade negra na cena cultural. Um assunto que não tem o espaço merecido na mídia. Eu me sinto bem e muito feliz dentro do coletivo e ressalto que sempre estamos abertos para novos colaboradores e suas ideias”, relata Airan Albino, editor e colaborador do Nonada.

Todo dinheiro que entra para o Nonada é utilizado para a produção de reportagens e coberturas de eventos culturais. Nenhum colaborador é pago para produzir, por isso acabam mantendo vínculo com outros empregos. “Por muito tempo tiramos dinheiro do próprio bolso para pagar as reportagens, o que fazia com que o fluxo ficasse menor e mais complicado. Hoje, com o financiamento coletivo, encontramos uma alternativa bem interessante”, conta a estudante de Jornalismo Thais Seganfredo, editora do grupo.

A ideia do financiamento coletivo foi posta em prática neste ano e funciona através da colaboração de valores mensais pelo público em geral. Conforme a quantia doada, o colaborador recebe alguma recompensa que vai desde o nome no editorial até fotos impressas e participação no curso de Jornalismo Independente promovido pelo coletivo.

“O financiamento proporcionará uma participação maior dos leitores e trará uma gama de pessoas com pensamentos diferentes e que se somem à nossa produção”, ressalta Thais. Confira mais detalhes sobe o Financiamento coletivo do Nonada através do vídeo:

Além da iniciativa do financiamento, o Nonada abriu 2016 com a notícia da primeira edição do Curso de Jornalismo Alternativo, que contará com 45 alunos. Dentre eles, estudantes, profissionais formados e público em geral interessado na temática. “Nós ficamos muito surpresos com a grande adesão do curso. Rapidamente fechamos todas as vagas e vai ser muito legal”, disse Rafael Gloria.

O editor explica que a capacitação ocorrerá por meio de palestras com profissionais de veículos de jornalismo independente, especialistas em temáticas voltadas para Direitos Humanos e Cultura, e muito mais. “Outro diferencial do curso foi o preço bastante acessível. Os cursos de jornalismo costumam ser muito caros e com pouca duração, o nosso será bem diferente”, conta. As aulas da primeira turma começam dia 9 de abril e seguem até novembro. A possibilidade de outras edições do curso será estudada ao longo do ano.

Para conhecer mais sobre o trabalho do coletivo Nonada, acesse o site http://www.nonada.com.br/.

Política e Direitos Humanos de forma mais aprofundada

Em uma redação relativamente pequena, localizada no centro de Porto Alegre, o portal de notícias Sul21 se dedica a pautas que envolvem política, direitos humanos, grupos excluídos na sociedade e sindicalismo. A editora do site, Ana Ávila, diz que a missão do grupo é a defesa da democracia.

A equipe conta hoje com 12 pessoas: quatro repórteres, quatro fotógrafos, dois estagiários (um de foto e um de redação) e dois editores. “Por sermos um grupo pequeno, uma das nossas dificuldades é a cobertura de vários eventos ao mesmo tempo. É muito comum acompanharmos uma pauta à distância e publicá-la no dia seguinte pois não conseguimos suprir tudo. O diferencial é que por não ser hard news, conseguimos aprofundar mais os assuntos, o que na maioria dos casos agrega muito mais ao texto”, comenta Ana.

Ao contrário da maioria dos veículos alternativos, o Sul21 consegue manter seus funcionários trabalhando exclusivamente para o portal. O financiamento parte principalmente da equipe de sócios que mantém o site e de alguns anúncios publicitários. “A parte da publicidade é bastante recente no site, está em fase experimental. O financiamento não é fácil, o que reflete em uma equipe reduzida, porém igualmente dedicada e que supre todas as demandas”, ressalta a editora.

Ana Ávila é formada em Jornalismo pela Unisinos e já passou por veículos tradicionais como o Portal Terra. Ela destaca que a grande diferença entre a mídia tradicional e a alternativa está na liberdade para a produção das pautas. “É muito fácil a mídia ser uma espécie de manada, onde as mesmas coisas ganham destaque, sempre os mesmos assuntos. O jornalismo alternativo vem para ser a voz de quem não tem voz. Vem para dar visibilidade para o que fica esquecido. Esse é o diferencial“, diz.

Redação do Portal Sul21 (Foto: Laíse Feijó)

Redes sociais como aliadas

O Sul21 utiliza as redes sociais como ferramenta de divulgação que gera um alcance ainda maior para suas produções. A ideia é trabalhar com chamadas atrativas, vídeos, fotos via Instagram, tudo para atrair a atenção dos leitores. “Tem funcionado muito bem. Boa parte das visualizações do site vem das redes sociais, em especial do Facebook.Com boas estratégias conseguimos atrair o público através de ferramentas gratuitas”, explica Ana Ávila.

O portal tem cerca de 1 milhão de visualizações por mês ou mais. “Para um veículo alternativo temos uma procura muito grande. Sinal de que a nossa produção faz a diferença”, pondera a editora. Ela destaca ainda que um dos principais desafios é fugir das pautas de senso comum. O grupo busca sempre trabalhar com assuntos relevantes, mas fazendo cortes direcionados para detalhes que ainda não foram tratados nos grandes veículos.

Ana conta que a redação funciona de segunda a sexta-feira e aos finais de semana é feito um revezamento. Quem não foi escalado pode trabalhar de casa. “Temos uma liberdade muito maior por ser uma mídia alternativa. Não ter que lidar com a pressão de terminar trabalhos com muita rapidez, podendo se dedicar a ele faz toda a diferença no resultado final”, garante.

Outro diferencial do Sul21 são as fotos. A editora explica que buscam sempre fotografar as pautas e nunca recorrer a banco de imagens. “Como tratamos de assuntos muitas vezes ignorados por outros veículos, como a causa sindical, nem temos como contar com fotos que não sejam as nossas. Várias vezes somos o único meio a cobrir, então é fundamental sempre ter um fotógrafo disponível, mesmo com uma equipe pequena”, conclui.

Para finalizar, Ana Ávila ressalta que é uma necessidade cada vez mais gritante o estudo do jornalismo alternativo e independente dentro das universidades. “É muito importante por vários motivos: pela relevância social, pelo mercado de trabalho escasso que exige alternativas, pela importância de dar voz a quem é excluído. Não existe mais espaço para todos os jornalistas nas redações tradicionais. Foi-se o tempo em que as universidades formavam alunos para serem repórteres da Folha. A realidade hoje é outra”, garante.

Para conhecer mais sobre o trabalho do Sul21, acesse o site http://www.sul21.com.br/.