Diário de bordo — sobrevivendo ao término e às eleições

Hoje é dia dezoito de setembro, o ano é 2018 e estou escrevendo por nenhum motivo específico. Falta pouco para as eleições, o clima anda bem tenso. De um lado, o pessoal tem a missão de acabar com as chances de um candidato, munido de um discurso odioso que nos lembra Hitler, ocupar o poder. Do outro, seguidores do tal candidato hackeam grupos formados por mulheres contra o discurso racista, homofóbico e machista desse presidenciável que não devemos mencionar o nome. A situação não tá nada fácil, a esquerda está dividida entre os dois candidatos e o tal mito, como é chamado por seus eleitores, continua liderando as pesquisas.

Enquanto tudo isso acontece no meu país, eu amargo um término de namoro e a falta de emprego. Não consigo dizer “ex namorado” e também não consigo dizer que estou “desempregada”.Tenho tentando não me enquadrar nesse segundo termo, até porque estou sempre pensando, produzindo algo e fazendo freela — meu pai chamava isso de biscate na época em que ficou desempregado por anos, no governo do Presidente FHC. Mas a minha geração, como sempre, americanizou e transformou o “bico” ou “biscate” em freela.

A falta de grana anda pesando mais do que pesava quando eu tinha 20 anos. E o namoro, ah, foram dois anos. Pensei que fossemos casar. Eu sempre penso isso de todos os namorados que tenho, mas sempre acaba mais ou menos igual. Já me faltam palavras para dizer como eu me sinto todas as vezes que vejo os planos em conjunto — que parece serem só meus — indo embora feito água no ralo da pia.

Comecei o texto despretensiosamente, mas agora tudo parece fazer sentido. Escrever me dá a dimensão do quanto estou sendo afetada pelas coisas ao meu redor, faz com que eu aceite que está tudo uma merda. É, parece que as coisas desandaram de uma vez só.

Eu não ligo de expor o que sinto, sempre acho que preciso tirar uma grande lição de tudo que dá errado. E que essa lição não pode ser só para mim. Essa é minha “coisa” no mundo: passar pelas situações, sofrer que nem torcedor do vasco e depois transformar num texto. Se eu soubesse pintar transformaria tudo em arte que nem a Frida.

Dia desses, uma amiga me contou que achava que morreria depois do término com seu primeiro namorado. Era uma sensação de que nada mais fazia sentido e que ela mal sabia quem era. Fiquei pensando, obviamente já me senti assim. Não dessa vez, mas aqui vai a grande lição:

sabe os planos que fazemos? Eles continuam sendo nossos. Ficam com a gente, mesmo quando a outra pessoa se vai. Minha psicóloga disse que eu sou a única coisa constante na minha vida. Doeu ouvir? Sim! Mas… fez bem também. Porque eu vou estar sempre aqui para mim. Eu, minha bad, minha alegria, meus sonhos estão sempre comigo. Eles me fazem ser quem sou, dessa maneira fica menos difícil se reencontrar depois de tanto tempo vivendo o “nós”.

A bad e a alegria vem e vão e nosso dever é continuar remando. Mesmo quando o país periga ficar na mão de quem diz que mulher é “fraquejada”. Ou que esteja difícil arrumar emprego na sua área. Ou quando seu amor decidi ir embora. Uma hora a maré vira e tudo se ajeita.

Ah, mais uma coisa, nós mulheres somos maravilhosas. Somos mais de 1 milhão unidas num grupo contra o candidato que não mencionamos o nome. Isso precisa ficar registrado para sempre, porque vai ser mais uma conquista nossa. Estamos honrando o nome das outras mulheres que se uniram e conquistaram direitos e garantiram a liberdade que temos hoje. E vamos lá, o que é um término diante de tanto poder?