O desafio de nadar contra a correnteza.

Imagina assim: somos um ponto em alto mar. Olhamos para um lado e para o outro, não vemos nada, só água. Água que ora pode ser tranquila, ora agitada. Quando a maré está calma, a gente pode boiar, relaxar o corpo, nadar com os peixinhos e contemplar a paisagem que, quem sabe, pode ser um céu azul de brigadeiro, ensolarado de dia ou estrelado à noite, quando a luz da lua reflete sobre a água e ilumina qualquer escuridão.

O problema é que, de tempos em tempos, o céu se encobre de nuvens carregadas, o sol dá lugar ao vento, que bate na água anunciando a tempestade. Tempestade que faz a maré virar: o mar agita, as ondas crescem e a correnteza começa a nos levar de um lado pro outro, pra frente e pra trás. E aí, meus amigos, é preciso ser forte e nadar.

Vejo que a vida também é assim: tem os dias em que aprecio a paisagem bem de boa e tem outros que, independente da cor do céu lá fora, é preciso remar pra não se afogar (até dei um suspiro quando terminei de escrever essa frase!).

Quando o mar é calmo e a paisagem é bonita, fica uma delícia viver. Tão bom ter a vida rodeada de amigos, de boas companhias, de altas gargalhadas. Bom tá feliz no trabalho, fazendo o que gosta, correndo atrás dos sonhos. Acalma a alma ter alguém pra amar. Um amor aconchegante, parceiro, que seja bom pra gente, sabe? Tão bom quanto a nossa família, que também tá ali, de braços abertos pra nos receber.

Mas dizem que um mar calmo não faz um bom marinheiro. Talvez por isso o nosso oceano seja assim, cheia de ondas gigantes em meio ao céu azul ou à noite estrelada. Quando o amor tá bem, o trabalho vai mal. A família é o porto seguro, mas as conversas com os velhos amigos já não são mais as mesmas. Será que eles mudaram ou algo está acontecendo com a gente?

Sinto informar, mas nada acontece ao nosso redor que não esteja acontecendo dentro de nós mesmos. Acho que envolve uma questão de estado de espírito. Se algo desacomoda, agita, incomoda, a causa, o efeito e a solução estão aqui, dentro de nós. E, assim como no mar, não temos pra onde fugir.

Agora complicou, né? As coisas tendem a ficar mais complexas quando nos damos conta de que somos os únicos responsáveis pelas nossas ações e decisões. E precisamos assumir a responsabilidade da nossa própria vida, senão a correnteza pode nos levar pra onde quiser.

Somos nós quem decidimos se vamos nadar contra a corrente ou se vamos deixar o mar nos afogar. É preciso força pra respirar e recuperar o fôlego quando a onda tá batendo na nossa cabeça. E se tratando da vida real, ela inunda não só a mente, mas também o coração.

Muitas vezes ficamos sozinhos nessa luta, assim como se estivéssemos em alto mar. Ou simplesmente precisamos estar só, sem barco, sem remos, sem coletes salva-vidas. E, mesmo em meio a essa solidão ou solitude (depende do ponto de vista), precisamos agir rápido e decidir.

Decidir nadar contra a corrente da dor, da tristeza, da fraqueza, da ansiedade para dar destaque ao sorriso, a alegria, a força, a calma.
Decidir nadar contra a corrente do preconceito, do julgamento, da discórdia, para abrir a cabeça para o novo e o diferente, dar lugar à igualdade, se colocar no lugar das pessoas e buscar entender o outro lado da história para trocar a discórdia pela harmonia e equilíbrio.
Decidir nadar contra a corrente de ser quem as pessoas querem que sejamos, para nadar em direção ao que de fato somos.

Acredito que nadar contra a corrente da vida é uma arte: exige muitas braçadas, muita força, muito fôlego e muita coragem, semelhante ao nadar entre o agito das ondas. Mas sabem qual é a grande diferença nessa metáfora? É que pra lutar contra a correnteza da vida, é preciso, antes de tudo, desejar ser e aceitar o que realmente se é, mas não na superfície, no rasinho, mas sim na profundidade, na parte mais funda do nosso próprio mar.

Não gosto e não acho certo dar conselhos, mas vou quebrar a regra do jogo e dar uma dica: nada na tua essência, mergulha no teu propósito. Acredito que só assim é possível colocar a cabeça pra fora, recuperar o fôlego e seguir nadando em alto mar, quando as coisas da vida insistirem em nos afogar.

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