Relações de sabão.

Chega um dia em que a gente resolve não pensar mais no assunto. Carregando uma mala cheia de histórias frustradas e estratégias fracassadas, a gente vai andando por aí, conformados, com cara de pessimista e sem esperança, mas dizem que é exatamente quando estamos assim, com o coração despreocupado, que a possibilidade do amor se apresenta de novo e, de repente, lá vem ele, cheio de charme, de manha e de encanto, louco pra nos fisgar.

Distraídos que estamos, esquecemos o passado e nos entregamos à chance de amar novamente. Podemos até tentar fugir da flechada do cupido, mas não temos escapatória. Nos conectamos de cara. Olhos nos olhos, o bem querer é mútuo. O sorriso largo no rosto estampa felicidade e esconde o coração pra lá de remendado. A química perfeita se comprova quando nossos corpos se encostam, a conversa rende assuntos que podem durar um dia inteiro ou uma longa madrugada. Com o passar do tempo, a vontade só aumenta. Cuidamos daquela relação como um bebê recém nascido: a gente pega no colo, faz carinho e torce para que o tempo não passe, só pra ficar ali, no aconchego do outro alguém.

Esse afeto pode ultrapassar as cenas iniciais de uma relação em construção. Porém, nosso instinto de proteção por vezes nos leva a esconder do outro a intensidade do fogo da nossa chama interna ou a fingir que não estamos tão aí, até termos a segurança de que estamos no caminho certo e que, dessa vez, vai ser amor e não cilada. Aos poucos, o medo vai dando lugar à confiança e nos entregamos como o coração manda. As discórdias que surgem no meio do caminho, as opiniões contrárias e os gostos esquisitos pesam tanto quanto uma pluma em meio à tudo de bom que compartilhamos. Nosso santo bate e estamos dispostos a ir além na relação, mas eis que de repente, algo estranho começa a acontecer.

No primeiro dia, a mensagem rotineira de boa noite não chega. “Deve ter pego no sono”, a gente pensa. Só que aquele bom dia que recebíamos todas as manhãs também não vem. Receosos, escrevemos a mensagem, só que a resposta que recebemos chega de um jeito diferente, abrindo espaço para que os fantasmas adormecidos assombrem a nossa mente novamente. “Já vi esse filme antes.” “Será que eu fiz alguma coisa?” “Será que elx está com algum problema?” “Tem outrx na jogada.” Nosso sexto sentido não falha. O que está acontecendo? Muitas são as hipóteses. Analisamos cada uma das possíveis respostas, quebrando a cabeça como se estivéssemos resolvendo um problema matemático. Tudo são suposições. Preferimos seguir a relação pisando em ovos, fingindo que nada está acontecendo por medo de perder o outro, do que pegar o caminho dos fatos e perguntar: o que aconteceu que as coisas estão diferentes?

Depois de dias de auto-sabotagem, carregados com uma ansiedade aguda e desenfreada, o mesmo destino que nos surpreendeu com aquele novo encanto, deixa a pessoa escorrer pelos nossos dedos feito espuma. De novo, a história se repete. As desculpas para justificar o pé no freio não mudam. “Não estou preparadx para me envolver”, “Tô com problemas que preciso resolver antes de começar uma relação.” “Não quero namorar”.

Mas só um pouquinho: se não está preparadx pra se envolver, por que se envolveu? Se tem problemas que precisam ser resolvidos, por que não resolve? Se não quer namorar, por que não deixou isso claro no início da relação? Fica a sensação de que algo nessa conta não fecha. Usamos o outro. Pegamos outro alguém para satisfazer nossas vontades e necessidades, mas quando percebemos que corremos o risco de dividir de verdade a nossa vida com a outra pessoa, pulamos fora sem ao menos deixar um bilhete de despedida.

Comportamento repetitivo da geração do desapego. Covardia! Somos a geração do mi-mi-mi, do “não me toque.” Somos individualistas e egoístas, tomamos atitudes sem considerar o que elas podem representar para quem também está envolvido nessa história que não é só nossa. Somos beberrões imaturos, que convidam os outros para brincar, mas quando chega a hora de dividir o nosso brinquedo, desistimos da brincadeira. Mais um sinal da nossa geração mimada e confusa, que não consegue discernir direito o que sente e o que quer e que cobre o coração com a mesma maquiagem que passa no rosto.

Nesse passo, construímos relações vazias. Nos entregamos pela metade, não porque não encontramos pessoas interessantes, mas porque para isso precisaríamos ser, antes de tudo, inteiro com nós mesmos e, sendo assim, melhor fugir. Mascaramos os nossos medos, fantasiamos os nossos defeitos, acumulamos desculpas esfarrapadas para justificar as nossas atitudes. Tem muita gente indo embora, mesmo querendo ficar, porque encontram no racional uma fórmula de cálculo para algo que é totalmente emocional.

O medo de se entregar faz as relações escaparem das nossas mãos como sabão escorregadio, pela covarde tentativa de abafarmos o que sentimos e o que somos de verdade. Quando abrimos espaço para um pouco mais de intimidade, deslizamos tanto da vida do outro quanto da nossa própria vida, tentando mais uma vez nos eximir de responsabilidades, compromissos e relações que podem nos levar muito além de um simples crush ou match.

Como toda regra há exceção, ainda existem muitas pessoas dessa geração que estão cansadas desse joguinho inútil e infantil, que querem alguém que simplesmente seja. Que não esperam o príncipe encantado que chega à cavalo ou a princesa que veste o sapatinho de cristal, que não exigem futilidades vestidas de luxos necessários e almejam o simples e essencial numa relação. Buscam um amor parceiro, um amor companheiro, um amor fiel e amigo. Não por uma noite. Não por um momento. Desejam um amor que venha pra ficar, que, mesmo diante de todos os desafios, todas as rugas, a cara de sono e os defeitos inconcertáveis, não bata a porta e vá embora, mas sente no sofá da sala e peça pra ficar. Porque amar vai ser a nossa maior liberdade e, quando se entender isso, não nos deixaremos mais escorregar.

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