Frieza terminal

Eu posso voar!


Neste texto eu gostaria de trazer um experiência um pouco diferente para você. Você, obviamente pode ler o texto abaixo de modo normal, sem nenhum acompanhamento musical. Contudo, desta vez escrevi este material para ser acompanhado pela música Terminal Frost, do Pink Floyd.

Se você quer participar desta experiência e ler um texto com trilha sonora, acesse o link abaixo, coloque um fone de ouvido, dê play na música e comece a leitura. Leia devagar, seguindo o ritmo da música. Veja se algo muda para você. Deixe seu comentário compartilhando sua experiência — boa ou ruim — no final do texto. Boa Leitura.

Link para acesso à música:

Terminal Frost — Pink Floyd, 1987

O dia estava lindo.

Todos miram o infinito, mas em nada pensam. Nada sentem.

Apenas um homem está inquieto.

— Nós podemos voar? — pergunta ao amigo ao lado.

— Obvio que não podemos voar. Ficou louco? — responde o amigo nervoso por estarem conversando.

O homem para como que digerindo a frase do amigo. Não está conformado com essa resposta pronta.

— Mas porque não podemos voar? — insiste.

— Fique quieto. Pare de besteira. Isto não faz sentido.

Esta dúvida começa a martelar a mente do homem com mais força e ele decreta.

— Eu quero voar!

— Cale-se ou seremos advertidos. Você sabe o que acontece com quem desrespeita o Controle.

Perdendo paciência por causa da reação do amigo, o homem é veemente.

— Danem-se os guardas do Controle!

— Pare com isso, irá nos prejudicar — alerta a noiva do homem.

— Mas eu só quero saber porque não podemos voar? — o homem eleva um pouco a voz, o que assusta a todos.

Um dos guardas próximos percebe a movimentação estranha e esbraveja alguma palavra de ordem de modo a dissipar a conversa.

Todos olham para o homem, com uma mistura de susto e desprezo no olhar e a conversa cessa.

Mas o homem ainda não está satisfeito. Ele se questiona o porque tudo o que veem, ouvem, sentem ou falam deve emanar do Controle e ser aprovado pelo Controle.

“Desde quando isto é assim? Porque a verdade tem de emanar de apenas uma instituição? Porque eu deveria seguir as regras ditadas por outra pessoa de modo passivo e dócil?”, ele pensa.

Ele lembra de ter ouvido histórias de que há muitos anos, no tempo dos avós de seus avós, não era assim. As pessoas eram livres para pensar, para criar, para questionar e para seguir o rumo que melhor lhes aprouvesse.

Mas algo aconteceu. Aparentemente uma guerra. Ou uma grande tragédia. Depois disso, o povo que emergiu deste horrendo período clamou por ordem, por disciplina e por alguém que lhes protegesse para que tempos como aquele jamais voltassem a existir.

O Controle surgiu deste chamado do povo. O povo que hoje sofre com sua mão de ferro foi o mesmo povo que o saudou e se regozijou com sua ascensão.

“Estes tempos serão melhores”, diziam as pessoas. “O Controle significa o fim das guerras, o fim da fome, o fim do Mal!”

Mas não era isso que estava acontecendo. O Controle havia estabelecido padrões rígidos de conduta e eliminado friamente qualquer opositor ou qualquer pessoa que ousasse levantar pensamentos em contrario ao que emanava dele.

O povo caíra em uma frieza terminal que os estava consumindo, de dentro para fora, como se vermes atacassem sua carne putrefeita.


O homem não aguentaria mais isso.

Não queria mais não ter a guia de sua vida e ser obrigado a abandonar seus sonhos por crenças prontas que a sociedade lhe vendera e obrigara a consumir.

Levantou de súbito e disse a plenos pulmões:

— EU VOU VOAR!

As pessoas em volta atônitas nada entenderam.

Seu amigo e sua noiva tentaram conter seu aparente ataque de demência.

— Por favor, pare! Você vai morrer e matar a todos nós.

Mas o homem estava determinado e disse novamente enquanto iniciava uma carreira frenética colina abaixo em direção ao precipício:

— EU VOU VOAR!

Um vento forte sobe pelo vale e acerta o rosto do homem enquanto ele corre.

Os guardas se atentam da movimentação e ordenam que ele volte para sua posição.

— EU VOU VOAR! — grita novamente, desafiando a ordem dada.

O vento fica mais forte conforme ele se aproxima do precipício através da colina verdejante.

— EU VOU VOAR!

Os guardas se preparam para atirar. O Sol, belo Sol de verão, castiga a pele do homem durante a corrida.

— EU VOU VOAR!

Os guardas atiram. As balas zunem ao seu lado, com que desafiando uma prova de atletismo com ele. Uma bala pega de raspão em eu rosto, mas ele nada sente.

— EU VOU VOAR!

A beirada do precipício chega e o homem se atira de braços abertos em um movimento impressionante.


E ele voa! Ele voa pelos ares como uma águia. O vento não é mais um concorrente a lhe castigar o rosto, mas agora lhe sustem no ar e lhe confere velocidade.

Seu corpo responde aos ajustes necessários para manter a sustentação do voo como que feito para aquilo. É tudo natural e automático.

A ponta dos seus dedos esfria com a velocidade do ar, mas o homem não se retrai. O ar é seu amigo. Ele não pode temê-lo.

O momentâneo lapso de razão que o fez saltar o tornou um ser livre. Livre como as árvores sobre o solo, as ondas sobre o mar ou as galáxias sobre o céu.

O homem olha as montanhas, o céu, o Sol, os pássaros, toca as parcas nuvens a sua volta com os dedos e, pela primeira vez em sua existência, se sente verdadeiramente parte do Universo!

Nada mais o prende ao solo e aos seus medos.

Ele mesmo era a única barreira real para seus sonhos.


O homem, após o êxtase inicial, olha para baixo; para o mundo que deixara para trás; para a realidade dominada pelo Controle.

Porém, constata atônito, que algo está errado.

Vê pessoas, às centenas, talvez aos milhares, se atirando de prédios, montanhas e colinas em direção ao vazio.

O mais impressionante, entretanto, não é este ato de coragem — ou loucura — mas antes o fato de estarem alçando voo como ele alçara.

— Sim, nós podemos voar! — grita para o vazio, emocionado.

As pessoas começam a correr livremente, abandonar os antigos dogmas de que não poderiam fazer algo que gostariam e saltam para o infinito em busca de libertação.

Os guardas do Controle tentam conter o motim. Agridem, socam, caceteiam e atiram. Algumas pessoas sucumbem aos ataques. Mas a onda de gente, desde crianças a idosos, mulheres e homens, é maior do que eles podem conter. Sempre foi. As pessoas só não se aperceberam disto.

Alguns guardas, ainda buscando conter a desordem, se atiram dos prédios e colinas atrás das pessoas que alcançam aos céus. Inútil tentativa. Os guardas não tem a liberdade em seus corações. Foram corrompidos pela falácia do poder e isto pesa o suficiente para lhes arrastar em direção à morte no solo.

O alarme soa. O Controle fica em estado de alerta máximo em virtude da crise. Toda a sua ordem imaginada está ruindo porque as pessoas descobriram que podem voar e serem livres. As amarras que as prendiam estavam em suas mentes e nas histórias que outrora ouviram e nunca questionaram.

Uma voz começa a soar nos alto-falantes. A voz ordena que todos voltem às certezas estabelecidas pelo sistema e parem de acreditar nas mentiras contadas pelos subversores.

Um débil gesto que nada adiantou. Agora o mundo estava ruindo. As pessoas começavam a questionar todos os dogmas estabelecidos. Assim sendo, nem as estruturas físicas — prédios, torres, monumentos — permaneciam mais de pé. O velho mundo se desfazia abaixo dos questionadores.

Apenas o céu, azul e brilhante céu, permanecia, mostrando ao grupo voador para onde deveriam ir e que caminho trilhar.

O Controle, em uma última tentativa desesperada tentava deter os homens livres, abriu fogo com canhões contra o grupo cada vez maior. Nada acontece. As munições se desfaziam no ar antes de atingir o grupo. Eles não criam mais nelas.

O grupo começou a se juntar em um todo coeso, um aglomerado gigantesco de seres de todos os tamanhos, raças, idades e gêneros. A liberdade os havia unido mais do que qualquer religião ou império conseguira antes.

Alguns começaram a dar as mão, construindo formações impressionantes com o céu azul de moldura. Alguns cantam, alguns dançam em pleno ar. Eles experimentam neste momento uma sensação há muito morta para este povo: A liberdade plena.

A liberdade passa a ser sua crença agora. Uma crença mais poderosa do que qualquer uma antes passada oralmente ou através de escrituras sagradas. Uma crença ecumênica, que não discrimina, que não oprime ou aparta qualquer um que seja.

Uma crença que os abraça e os leva além. Além das suas concepções, além dos seus limites — impostos por eles mesmos — além do tempo e do espaço.

Esta liberdade prova que uma vida melhor, mais plena de sentido e de satisfação depende unicamente do tamanho de sua alma e de o quanto se está disposto a arriscar para voar mais alto.


A noiva se aproxima do homem durante o voo e pergunta:

— Para onde vamos agora? Você nos libertou. Agora nos guie para uma vida melhor, longe do Controle, longe da cegueira e dos dogmas.

O homem olha para a mulher e com um sorriso cínico e ao mesmo tempo caridoso responde:

— Para onde você vai? A única pessoa que é capaz de responder esta pergunta a partir de agora é você mesma. Você é Livre!

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