A quem pertence uma greve geral?

Análise linguística dos sentidos da expressão que denominou os atos políticos de 28/04/2017 em todo o Brasil.

Às 06h41 da manhã de 28/04, sexta-feira, um apresentador de TV da maior emissora do país disse que chamar de “greve geral” a paralisação nacional ocorrida neste dia não seria correto, uma vez que nem todos os trabalhadores brasileiros estavam participando de tal mobilização. Muito antes disso, defensores do governo e críticos das entidades políticas que encabeçaram as convocações para a greve já vinham confinando o evento aos domínios (e aos associados) de partidos ou sindicatos específicos e classificando-o como uma realização não de “trabalhadores”, mas de “vagabundos”.

Esses discursos levantam uma questão: a quem pertence uma greve geral? Tentarei responder a ela reconhecendo de imediato que nela há, pelo menos, outras duas: (1) O que é uma greve?; e (2) O que faz uma greve ser geral? Para isso, como há de convir a um bacharel em Letras, darei ênfase a aspectos linguísticos que envolvem essa disputa política de sentidos.

Convocação de entidades sindicais para a greve geral em Goiânia (GO). | Foto: Diomício Gomes / O Popular.

O que é uma greve?

A palavra “greve” é oriunda do francês (grève), idioma em que possui, como primeiro sentido, “cascalho” (gravier). A transposição dessa noção original de “mistura de areia grossa e seixos” para aquela que todos conhecemos e que pretendo explorar neste texto se dá por metonímia, quando se passa a chamar o produto ou a característica de um lugar pelo nome que esse lugar possui (como em “fumar um havana”, para não dizer “um charuto da cidade de Havana, ou “tomar um xerez”, como quem diz “um vinho feito em Xerez”). Ocorre que, às margens do Rio Sena, em Paris, onde hoje se situa o Hôtel de Ville, localizava-se uma praça forrada de sedimentos deixados pelas águas pluviais — chamada, por isso, de Place de Grève —onde se reuniam trabalhadores à procura de trabalho, por estarem desempregados, ou que abandonaram seus postos de trabalho para buscar melhores ofertas ou forçar o aumento de seus salários. Com o tempo, convencionou-se o uso da locução “fazer greve” (faire grève) para dizer que se estava fazendo tudo isso independentemente de se estar ou não naquela praça. É digno de nota um dos primeiros registros escritos dessa palavra em francês, que consta de um relatório policial datado de 25 de maio de 1805, no qual se relata o seguinte:

Trabalhadores. Os pedreiros decidiram fazer, amanhã, segunda-feira, o que eles chamam de greve (ou seja, abandonar o trabalho), para pedir aumento. Sejam tomadas as medidas necessárias para impedi-los.
“Ouvriers. Les tailleurs de pierre ont décidé entre eux, de faire, demain, lundi, ce qu’ils appellent Grève (c’est à dire quitter l’ouvrage), por demander de l’augmentation. Les mesures nécessaires sont prises pour les en empècher.”
[Cf. Maurice Tournier, “ La loi dans la langue, loi de langue” (1992).]

Tratada desde então como caso de polícia, a greve recebeu dos agentes de repressão um tratamento descritivo que muito se assemelha àquilo que encontramos hoje em algumas de nossas obras de referência.

Segundo o Dicionário de Língua Portuguesa da Porto Editora, “greve” significa:

interrupção voluntária e coletiva do trabalho por parte de assalariados com o objetivo, em geral, de reivindicar aumento de salários e melhores condições de trabalho.

Um pouco mais completo, o verbete “greve” do Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa apresenta — sob a rubrica de política — esta primeira acepção:

cessação voluntária e coletiva do trabalho, decidida por assalariados para obtenção de benefícios materiais e/ou sociais, ou para garantir as conquistas adquiridas e ameaçadas de supressão.

As duas definições acima já bastam para reconhecer, primeiramente, que toda greve é, em rigor, um movimento coletivo de trabalhadores. Isso porque consiste na paralisação de atividades laborais remuneradas, a qual se cumpre por parte de sujeitos assalariados vinculados diretamente a essas atividades.

Ressalte-se o óbvio: “vagabundos”, por serem aqueles que não têm ocupação e/ou que não recebem salário em troca de seu trabalho, que é nenhum, não se podem confundir com “trabalhadores” e, portanto, não podem empreender greves.

Outros coletivos (de estudantes, por exemplo) podem nomear como “greve” a paralisação deliberada de suas atividades:

Mobilização estudantil na UNESP de Marília (SP) | Foto: Juventude Às Ruas.

Da mesma forma, um único indivíduo (um preso político ou um injustiçado) pode reivindicar o uso do termo para denominar um protesto que envolva alguma interrupção de processos referentes à sua própria pessoa — uma “greve de fome”, por exemplo:

Homem protesta contra a prefeitura de Peruíbe (SP) por salários. | Foto: Ivaldo Dianchini / Arquivo Pessoal.

Contudo, tanto a greve estudantil quanto a greve de fome do injustiçado correspondem a — para usar um jargão — “extensões semânticas” ou “extensões de sentido”, que vêm a ser situações em que uma palavra de uso consagrado é usada para nomear algo próximo, porém distinto de sua denotação original. Na falta de um nome próprio para determinada coisa, que naquele momento pode ser inédita, recorre-se ao “empréstimo” do nome de outra, análoga, e assim esse nome adquire, por esse uso, novos significados.

Voltando às definições dos dois dicionários citados, pode-se depreender de ambas que “greve” é não apenas um movimento executado por trabalhadores, mas também um movimento organizado e desencadeado por eles, em prol de seus interesses de classe e de sua vontade expressa coletivamente. Nesse aspecto, compreende-se que toda e qualquer greve é, por princípio, idealizada, acordada e protagonizada pelos próprios trabalhadores, conforme as circunstâncias dadas em cada momento e lugar, para ampliar ou para garantir direitos relativos à sua condição de trabalho.

Dito isso, ficam evidentes dois pressupostos dos quais depende a greve e sem os quais a greve, em sua acepção primordial, não existe: ela é feita pelos trabalhadores e para os trabalhadores. Caso uma paralisação seja feita pelos empregadores, ela recebe o nome de “locaute” (do inglês lockout) e não se pode confundir com uma greve.

Ressalte-se, novamente, o óbvio: sendo os sindicatos associações de profissionais voltadas para a representação e proteção de seus membros e sendo os partidos organizações políticas voltadas para a defesa dos interesses de classe de seus correligionários, dizer de uma greve, com o intuito de desqualificá-la, que é promovida por sindicatos ou por partidos e não por “trabalhadores” não tem efeito, já que ambas as entidades, investidas de legitimidade pelos trabalhadores a elas associados, têm amparo legal para atuar dessa maneira.

O que faz uma greve ser geral?

No Brasil, sabe-se que a primeira greve ocorreu em 1858, no Rio de Janeiro, e foi organizada por trabalhadores gráficos que, no segundo dia de paralisação, criaram seu próprio jornal, batizado como o Jornal dos Tipógrafos. O fato é mencionado por Vito Giannotti em sua História das lutas dos trabalhadores no Brasil.

Já a primeira greve multiprofissional se daria, também no Rio de Janeiro, em 1903, quando diversos setores — entre eles, pintores, gráficos e chapeleiros — decidiram parar. Em São Paulo, mobilização semelhante ocorreria pela primeira vez em 1907, dez anos antes da primeira grande mobilização multiprofissional suprarregional, a qual ganhou a adesão de quase 70 mil trabalhadores no Rio de Janeiro e da maioria trabalhadora de São Paulo, segundo contam Lilia Schwarcz e Heloísa Starling em Brasil: uma biografia.

Greve geral de 1917 em São Paulo (SP) | Foto: Reprodução / Revista Brasileiros.

Greves de trabalhadores — com perdão da locução pleonástica — podem dizer respeito a uma categoria específica (“metroviários paulistanos”, por exemplo), a uma categoria abrangente (“servidores públicos estaduais capixabas”) ou a um amplo conjunto de categorias, que ultrapassam fronteiras laborais e/ou regionais. Neste último caso, convém, por óbvio, denominar como “greve geral” tal movimento de trabalhadores, uma vez que este se espalha, tornando-se generalizado.

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