A vida fodona de Santa Rita de Sampa

[Resenha] “Rita Lee: uma autobiografia” é um giro pela história da música brasileira

Minha primeira leitura de verdade de 2017, a história da vida (pública e privada) da rainha do rock.br contada por ela mesma é primeiramente um convite para uma viagem no tempo pela cidade de São Paulo, sua formação e transformação dos anos 1940 para cá. Oriunda de duas famílias de imigrantes, uma de norte-americanos e outra de italianos, a paulistana Rita cresceu num período decisivo para o desenvolvimento da São Paulo S/A e narra esse processo com muita riqueza de detalhes.

O livro é também, e principalmente, uma viagem na história da música e da cultura brasileira dos anos 1960 em diante. Embora seja personagem decisiva, Rita Lee conta quase tudo como se fosse apenas mais uma garota a formar o coral dos backing vocals. Essa pegada tem muito mais de declarada autossabotagem do que de falsa modéstia. No entanto, se por um lado Rita Lee parece injusta consigo mesmo, por outro imprime à narrativa um interessante efeito “Forrest Gump”, assumindo a posição de testemunha privilegiada de eventos marcantes desse universo.

A narrativa é leve e fluida de maneira geral, apesar da revelação de traumas e quedas nada desprezíveis. No campo das “relações de trabalho”, a autora não poupa quase ninguém, muito menos os ex-companheiros de Mutantes e Tutti Frutti. Nada, porém, de ressentimento excessivo, como quiseram fazer crer certas críticas de primeira hora. O que mais sobressai na narrativa são as aventuras de porra-louca e as anedotas de backstage reveladas por Rita, que proporcionam muitas risadas, e também o comovente e carinhoso retrato de sua família, seu amor pelos animais e pelo “gato” Roberto de Carvalho.

Há algumas partezinhas um pouco chatas mais para o final (e também alguns errinhos de revisão que certamente incomodaram só a mim), mas nada que prejudique o todo. Last but not least, os encartes com fotos ilustrando sua trajetória, a grande maioria de seu arquivo pessoal, são o máximo. Enfim, o relato em primeira pessoa da vida fodona de Santa Rita de Sampa é de fato uma boa leitura.

Adendo #1: Em determinada passagem, ao falar sobre outras obras referentes a sua vida, Rita Lee elege como a pior de todas A divina comédia dos Mutantes, de Carlos Calado (autor de Tropicália, que adorei e li num único dia). E ainda justifica o julgamento ao dizer que o trabalho igualmente não agradou a nenhum dos outros dois Mutas. Pelo jeito, vou ter que ir já atrás deste livro.


Rita Lee: uma autobiografia. 1. ed. São Paulo: Globo, 2016. 294 páginas.

Like what you read? Give Laion Castro a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.