Fragmentos de um “Breve dicionário para tempos estúpidos”

Comentário geral sobre as “observações obscuras sobre ontologia pagã” de Sandino Núñez, acompanhado da tradução de alguns trechos da obra

Introdução. Em 2014, estive em Montevidéu e, ao passear por uma das livrarias da capital uruguaia, reparei num livro que me chamou a atenção pela capa, feita pelo designer Juan Odriozola — um corpo humano tracejado de fronteiras que separam conceitos e palavras-chave que denominam cada fatia desse epitélio — e pelo título, breve diccionario para tiempos estúpidos — que pareceu, de pronto, pertinente ao momento em que então vivíamos (tal como agora igualmente nos parece) e, ao mesmo tempo, apesar de sua contemporaneidade, não excludente em relação a tempos passados ou vindouros, por contemplar diferentes temporalidades. Sem saber nada do autor nem do teor da obra, decidi arriscar-me a comprá-lo, afinal adoro dicionários de todos os tipos. No último fim de semana, quase três anos após sua aquisição, encontrei-o sem querer numa estante e quis resgatá-lo do silêncio a que o havia condenado.

Formado em Filosofia e especializado em psicanálise, Sandino Núñez é, além de escritor, crítico cultural atuante nos meios de mídia uruguaios. Dedicado a denunciar a era da “estupidez globalizada” em que vivemos, o autor reúne neste pequeno volume de 144 páginas, publicado em 2014, um conjunto variados de termos — em sua maioria, conceitos proeminentes nos debates públicos recentes, tais como “bullying”, “empatia”, “empoderamento”, “repressão” — que são explorados de forma breve, direta e quase sempre desafiadora, assinalando sua disposição em analisar e sobretudo questionar as concepções que dão base para o entendimento do presente.

Núñez oscila entre uma abordagem mais concreta de alguns conceitos, motivados por episódios específicos da vida política uruguaia, e uma abordagem mais abstrata, que vai além do contexto social no qual o autor deseja intervir diretamente. De qualquer modo, mesmo quando se dirige pontualmente a questões aparentemente circunscritas a seu país, o crítico consegue, com seus apontamentos, que estabeleçamos analogias com aquilo que observamos em outras realidades.

Para efeito de ilustração do teor dessa obra de pequena circulação, sem previsão de publicação em português, tomei a decisão de traduzir livremente alguns de seus verbetes (ou algumas passagens pontuais de seus verbetes).


TOTALITARISMO. Totalitarismo é a deterioração da democracia pós-Segunda Guerra. Totalitarismo indica o encerramento da crença hegeliana no Estado após os regimes de disciplina, centralização, planificação, sistematização e controle da vida a partir do e pelo Estado, cujas versões mais célebres e obscuras no século XX são o Estado nacional-socialista alemão e o Estado estalinista soviético. Democracia, depois da guerra (e deste lado da cortina), surge marcada por esse medo fantasmal. E se diria mais: democracia não é senão esse medo fantasmal. Democracia é o terror preventivo ao totalitarismo. Totalitarismo é o extracampo infernal da democracia e democracia não é outra coisa que repetir em voz alta essa frase o tempo todo. Na maior parte do tempo a democracia se exerce enquanto meros dispositivos fiscais formais destinados a medir a que distância estamos da tentação totalitária. Seria eficaz, nesse caso, relacionar essa distância com um sistema de alertas como os meteorológicos ou sanitários, ou graduações ou certificações de qualidade democrática como as ISO (e o chiste está atrasado em relação à realidade, obviamente, já que essas certificações e esses alertas existem já há bastante tempo).

Agora “totalitário” é a acusação do Partido Nacional ao governo que certamente rechaça “enfaticamente” a acusação e convoca então uma reunião para avaliar o assunto, e todos passamos a assumir um ar muito grave, porque a palavra “totalitário” nos contagiou com sua própria gravidade. O governo é totalitário porque dá um trato pouco transparente ao assunto Pluna, porque fala em comprometer as Forças Armadas com um projeto político, porque diz que às vezes o político está acima do jurídico, porque ignora o pacto interpartidário para intervir na educação, porque demonstra intenções de estender o horário de proteção aos menores dos telejornais. É para rir. Mas já sabemos que a democracia eleitoral é cada vez mais um ritual puro, quer dizer, sem dogma, sem credo e também sem ideia. Já sabemos que estes não são tempos bons para a política, e então imediatamente suspeitamos de que o que ocorre é que é chegado o momento em que o Partido Nacional deve exagerar seu disfarce opositor e fazer cara de mau depois de ter mantido certa postura conciliadora perante o governo, porque vêm as eleições e seus profetas (consultores, recenseadores, analistas políticos) já andam nos mostrando essa espécie de sinopse de como vão ser as coisas caso não nos desviemos desse destino. E a força política de governo está aprisionada pela mesma lógica. É tempo de caudilhos e demagogos porque é tempo de mídias e medições. Não houve sequer um ato político neste governo que não seja um circo de intenções que sempre se mostram pusilânimes, entorpecidas ou admoestadas pelo fetiche acordista, negociador ou consensual, e pelo fetiche mais obscuro da opinião pública (o enunciado monstruoso da máquina de meios de massa), e que terminam por dissolver-se no nada da democracia midiática. E, no entanto, para o Partido Nacional, este é um governo totalitário. Assim é a democracia hoje: temos somente palavras.


TRANSMISSÃO 1. (“Broadcast Yourself”, slogan do YouTube.) É a fase superior da comunicação. É o ato exaltado da comunicação mesma perante o espelho da tela. E é uma reinjeção de excitação em uma comunicação que sempre corre o risco de aborrecer ou se tornar monótona, contrapeso da própria ação anônima de comunicar em uma rede impessoal e, essencialmente, sempre indiferente. Portanto não é absolutamente a mesma coisa — ainda que o seja — comunicar-me e transmitir-me. Transmissão é a verdade masturbatória absoluta da comunicação: é uma dobra narcisista da comunicação, o momento de glória sobrenatural diante da câmera ou do microfone. Slavoj Žižek perguntava, com ironia, que diferença poderia haver entre ter uma relação sexual com minha parceira e utilizar minha parceira como um dispositivo para me masturbar. É a mesma que há entre comunicar-me e transmitir-me. Na realidade dos corpos e dos nervos não há tal diferença. Mas em significados e conceitos há um abismo. Transmitir é superior a comunicar: é um passo mais em direção ao nada. Transmitir pertence plenamente à publicidade como réplica obscena da obscenidade do mercado. Nos reality shows, por exemplo, já não se comunica: se transmite: cada um é uma fonte de broadcasting, cada um o espaço de um patrocinador. Os estúpidos adesivinhos dos carros nos quais uns desenhinhos simpatiquíssimos mostram os integrantes da família (um casal, duas criancinhas, um cachorrinho, uma tartaruguinha etc.) não informam nem comunicam nada: transmitem. Os adolescentes que subiram um vídeo que os mostrava castigando uma cadela a pauladas não comunicam nada nem informam nada nem significam nada: transmitem. E isso esboça um problema muito mais sinistro e obscuro.


VIDA. A descriminalização do aborto é um assunto que ainda possui a clássica virtude de concentrar certa densidade propriamente ideológica. Corta o campo do pensamento em dois: reacionários e progressistas, doutrinários de direita e pensadores de esquerda. Ao menos neste tema a razão política parece vir a situar-se do lado da esquerda. Não se trata de um mero debate de opiniões: a única posição política possível com respeito a ele é uma posição “de esquerda”. A outra não é política. A postura contra a descriminalização do aborto na verdade esconde uma condenação massiva do aborto e uma defesa abstrata da vida. Seu coração negativo é de uma moralidade normativa infantil e provinciana que se expressa em um atroz enunciado oculto acerca da mulher laica liberal contemporânea: defende seu direito ao prazer ao preço de matar seus filhos. É assim que opinam as massas supersticiosas (e as massas são sempre supersticiosas, entendem a religião como artifício moral de santos e demônios). Mas o argumento a favor da vida abstrata é pior, furiosamente antipolítico. Os relatos naturalistas que exaltam moralmente o campo da vida sem que, no entanto, haja uma ideia sobre a vida, um significado político e social da vida, são argumentos, em última instância, pagãos. E não interessa a investidura religiosa de quem os sustente (o aparato religioso, burocrático ou doutrinário não tem vacilado em se mostrar profundamente pagão quando lhe é conveniente). Para uma sociedade política a vida não importa: importa o significado social da vida. E a filosofia e a política (e a religião) tem sido a linguagem transcendental kantiana para pensar esse ponto. A vida, observa Lèvinas, é amoral. Uma árvore simplesmente vive e cresce: está situada à margem de toda responsabilidade pela quantidade de outras vidas que arrebata e quebra. A vida é um impulso plenamente justificado em si mesmo, não necessita prestar contas nem pedir permissão a ninguém. Simplesmente ocorre. A ética política aparece, precisamente, como o componente de responsabilidade social (o Bem, como o chamavam os gregos antigos) que é necessário agregar ao fluxo cego e agressivo do impulso da vida natural ou biológica para que um simples grupo de seres vivos possa ser considerado uma sociedade política. O humano, conceito complexo que somente pode aparecer dentro de uma práxis e uma linguagem políticas, é reduzido à mera positividade de uma existência substancial que termina por absorver-se no campo mítico e indiferente da vida (biológica ou natural). Daí o irritante dessa bateria argumentativa boba e cega que apela para definições biológicas autoritárias e científicas: a partir de quando vive um ser humano? a partir do momento em que o espermatozoide fecunda o óvulo? Enfim. No fundo, o que está em jogo é o cruzamento paradoxal de um dogma biopolítico: o direito abstrato à vida pode se prolongar perfeitamente bem no direito abstrato ao prazer. E o correlato desta acefalia política são o poder, o controle, a disciplina e a punição dos corpos. Pensar é necessário.


NÚÑEZ, Sandino. Breve diccionario para tiempos estúpidos — observaciones oscuras sobre ontología pagana. Montevideo: Criatura Editora, 2014.