RESENHA: “24/7: capitalismo tardio e os fins do sono”, de Jonathan Crary


24/7: capitalismo tardio e os fins do sono é um longo ensaio, dividido em quatro capítulos, no qual o escritor norte-americano Jonathan Crary explora criticamente os aspectos históricos, sociais, culturais e econômicos que, sobretudo nos últimos 50 anos, propiciaram a configuração de um modo de vida — o chamado mundo 24/7 — em que a relação entre produção e consumo se dá de maneira ininterrupta, sem limitações de tempo nem de espaço, rompendo uma série de fronteiras e oscilações, senão naturais, necessárias para o equilíbrio do nosso próprio planeta: o dia e a noite, o trabalho e o descanso, a vigília e o sono — este, a última barreira orgânica, humana, intransponível para o avanço irrefreável do capitalismo.
Por meio de criteriosas análises de romances, filmes, obras de arte e também de diálogos com o pensamento de filósofos e estudiosos como Marx e Agamben, Arendt e Foucault, Aristóteles e Deleuze, o crítico de arte e professor da Universidade de Columbia desenvolve uma leitura muito instigante do mundo contemporâneo, suscitando reflexões de diversas ordens. Sua argumentação está longe de ser banal, mas sua erudição encontra uma boa fluidez, passando muito bem por temas que dizem respeito a todos nós. Não se trata de uma leitura simples, já que muitas passagens necessitam de ruminação. No entanto, este talvez seja o maior mérito do livro, que de uma forma ou de outra não permite que fiquemos em paz ao olharmos para a maneira como atualmente trabalhamos e consumimos, como nos relacionamos com pessoas e com mercadorias, como comemos e, claro, dormimos.
Dias atrás, não me lembro se de manhã cedo ou já tarde da noite (vejam vocês…), reparei na timeline do Twitter que, num breve período de tempo, pintaram vários tweets, de diferentes pessoas que sigo, reclamando de sono. Algumas alegavam não conseguir adormecer. Outras tinham dificuldade para acordar. Outras, ainda, se queixavam de que precisavam ter dormido mais. O sono não era o trending topic do momento. Não era o tema em discussão de um programa televisivo qualquer, que aqueles perfis estavam acompanhando e comentando. Não se tratava sequer de um papo entre determinado grupo de usuários, amigos em comum, que conversava entre si. Cada qual, consigo mesmo e para quem acompanha suas postagens na rede de microblogs, todas aquelas pessoas estavam simplesmente, aleatoriamente, tratando de um mesmo problema geral que tende a acometer todos nós. Experimente jogar a palavra “sono” nos mecanismos de pesquisa das redes sociais ou apenas aborde o assunto com colegas de trabalho ou amigos próximos e, caso este fato ainda pareça questionável, você verá que a qualidade e a duração do nosso sono estão totalmente comprometidas atualmente, sem perspectivas de melhora.
Se o nosso sono parece estar chegando ao fim, como nos sugerem os mais portentosos esforços de várias frentes empenhados em torná-lo algo passível de ser eliminado, o fato é que ainda precisamos dormir e, além disso, ainda somos capazes de sonhar, o que certamente torna maior a esperança de resistir à expansão de um sistema que nos tem conduzido ao colapso.
24/7: capitalismo tardio e os fins do sono foi, para mim, uma das experiências intelectuais mais mind-blowing dos últimos tempos. Por isso, e por tudo o que já foi dito, este livro está mais do que recomendado. Para quem se interessa em refletir sobre quem somos (“o presente”), de onde viemos (“o passado”) e para onde vamos (“o futuro”), considero-o uma leitura obrigatória.
O blog do Instituto Moreira Salles fez uma breve entrevista com o autor do livro. Vale a pena conferir. Basta clicar aqui.