A semana em que os golpistas derrubaram o golpe

Foto: Lula Marques / Agência PT

Um ano após o golpe, delação da JBS coloca a mídia contra os principais atores do impeachment, e país enfrenta sua maior crise política desde a saída de Dilma Rousseff

Desde o último dia 17, em que o colunista do jornal O Globo, Lauro Jardim, divulgou as primeiras informações sobre a delação dos irmãos Batista, do grupo JBS, o governo Temer entrou em colapso. Prisões, mais delações, áudios em rede nacional, vídeos e mais vídeos, memes e mais memes. Confira em 20 pontos o que aconteceu desde então:

1. O início da crise: o furo que colocou fogo no país

PF filma indicado de Temer recebendo propina”, foi a manchete que o colunista Lauro Jardim deu para a matéria que deu as primeiras informações sobre a delação de Joesley Batista, dono do grupo JBS. Em síntese, o empresário gravou Temer pedindo para ele pagar propina para o ex-deputado Eduardo Cunha e o operador do PMDB, Lúcio Funaro, a fim de mantê-los em silêncio. Quem articulou a operação foi o assessor de Temer, Rocha Loures.

2. Aécio: “o primeiro a ser comido”

Simultaneamente, o mesmo colunista deu a informação de que o senador Aécio Neves (PSDB) foi gravado, também por Joesley, pedindo o valor de 2 milhões de reais, supostamente para pagamento de advogados. No entanto, provou-se para outro destino. Realizada em parceria com a PF, o dinheiro foi rastreado e foram realizadas fotografias do recebimento.

Quem articulou o pedido de propina foi a irmã de Aécio, Andréa Neves, e seu primo, Frederico Pacheco de Medeiros, foi escolhido para receber o dinheiro, por ser “alguém que a gente mata antes de fazer a delação”, disse o senador mineiro ao executivo. O dinheiro, ainda não se sabe porquê, foi parar na conta do também senador Zezé Perrella (PMDB), famoso pelo caso do Helicoca.

3. As primeiras manifestações

A Av. Paulista, em São Paulo, e o Palácio do Planalto, em Brasília, em poucos minutos viraram palco de manifestações pedindo a renúncia de Temer e eleições diretas. Na capital paulista foram cerca de 10 mil pessoas, enquanto na capital federal pouco mais de 5 mil pessoas.

4. Pedidos de impeachment relâmpago

Assim que as notícias vieram a público, dois congressistas entraram com pedido de impeachment diferentes, primeiro o deputado federal Alessandro Molon (REDE-RJ) e depois o deputado federal JHC (PSB-AL).

5. Família “Neves” na mira da PF

Na manhã do dia 18, a Polícia Federal foi às ruas cumprir mandados de prisão para a irmã de Aécio Neves, Andréa Neves, e para seu primo, Frederico Pacheco. A Procuradoria Geral da República chegou a pedir a prisão do próprio senador, que não foi permitida pelo ministro do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin. Apesar disso, o ministro disse na decisão que Aécio só não será preso porque possui imunidade parlamentar.

Aécio e o assessor de Temer, Rocha Loures (que tem mandato de deputado federal) foram afastados pelo STF de seus cargos. O andar do gabinete do senador mineiro chegou a ser lacrado pela PF. (Aliás, sobre Andréa Neves, vale a pena ler a coluna de Beatriz Cerqueira)

6. “Fechados para mudança”

Com o vazamento das informações, o PMDB entrou em choque, e começou uma “mudança” retirando dezenas de caixas da sua sede em Brasília. Deu ruim. A população pegou no flagra e impediu a retirada dos documentos.

7. Pedido de cassação no senado

O senador Randolfe Rodrigues (REDE-AP) protocolou na comissão de Ética do Senado pedido de cassação dos senadores Aécio Neves e de Zezé Perrella, que receberam propina do executivo da JBS, Joesley Batista.

No entanto, não saiu ileso: o PSDB afastou Aécio da presidência nacional do partido e no senado. Ele já foi substituiu por Tasso Jereissati no senado e Carlos Sampaio no diretorio nacional.

8. Delações protocoladas: Temer oficialmente investigado

A Procuradoria Geral da República enviou para o STF as delações, que foram aceitas pelo ministro Edson Fachin, que também aceitou o pedido de investigação à Michel Temer, abrindo definitivamente o flanco do governo golpista. A investigação está baseada em Obstrução à Justiça, e caso torne-se réu, Temer é afastado do cargo.

9. A trama de Aécio para anistiar Caixa Dois

A delação continuou acertando em cheio o presidente do PSDB Nacional. Aécio Neves foi pego na conversa com o executivo da JBS, Joesley Batista, articulando a votação das Dez Medidas Anti Corrupção, a fim de anistiar crimes como Caixa Dois e Falsidade Ideológica.

Além disso, o senador reclamou do Ministro da Justiça, Osmar Serraglio, que para o tucano “é um bosta do caralho”, por não interferir diretamente na Polícia Federal. Confira a transcrição integral do áudio.

10. “Não renunciarei”

“Primeiramente”, foi com essa dita palavra que Michel Temer começou o seu pronunciamento, no último dia 18. No entanto, não foi “Fora Temer” a sequência da frase. Muito pelo contrário, o peemedebista disse “não renunciarei”, após a expectativa criada na imprensa pela saída voluntária do cargo após as incontestes denúncias que surgiram.

Temer disse que há uma conspiração contra o seu governo que vinha retomando a força da economia. As informações, no entanto, são imprecisas e exageradas, conforme apurou o portal Aos Fatos.

11. Novas delações, colocam Aécio como agente da JBS no senado

Dessa vez o número é muito maior. De acordo com a delação, Aécio teria recebido 60 milhões de reais em 2014 para defender interesses do grupo e para subornar congressistas, a fim de que entrassem em sua chapa nas eleições presidenciais. Entre os interesses econômicos do grupo facilitados pelo senador, estão a liberação de créditos de ICMS para duas empresas do grupo, a JBS Couros e a Da Grança (pertencente à Seara, também do grupo JBS) nos valores de 12,6 e 11,5 milhões respectivamente.

12. Vídeos da delação dos executivos da J&F, holding da JBS, “caiu na net”

O STF liberou as delações da JBS levando a uma verdadeira enxurrada de acusados no Congresso. Nunca o refrão “se gritar pega ladrão, não fica um meu irmão” foi tão verdadeiro. De acordo com os delatores, foram pagos 400 milhões de reais nas últimas eleições para dezenas de políticos, juízes e procuradores, além de caixa dois para a chapa Dilma-Temer, para José Serra, mensalinho para Marta, esquemas com governador do Mato Grosso do Sul, alterações no Ministério da Agricultura para favorecimento em negócios etc. Confira aqui.

13. O povo tomou as ruas!

Dezenas de cidades não se conformaram com as notícias, e foram às ruas protestar contra o governo golpista e comprovadamente corrupto. Em São Paulo, foram mais de 10 mil pessoas sob chuva e frio, na Av. Paulista, no coro de Diretas Já e Fora Temer. No Rio, o número foi igual, no entanto, o ato foi marcado novamente pela repressão policial, que dispersou uma linda manifestação no centro da capital carioca.

14. A imprensa pede a cabeça

Ontem, dia 19, assim como fez com Dilma Rousseff, o jornal O Globo pediu a cabeça de Michel Temer. Mas, notem bem, apenas da figura, pois o corpo, formado pelas ditas “reformas” trabalhista e da Previdência, devem ser mantidas, de acordo com o jornal carioca. A mesma coisa com Aécio Neves, esquecido pela mídia que sempre o defendeu, como bem explica este artigo o portal Intercept.

15. Fundo do poço? Ainda não… JBS diz que paga propina desde 2010 a Temer

A informações fazem parte da delação de Joesley Batista, e foram divulgadas pelo portal O Antagonista e na coluna de Fausto Macedo, em O Estado de S.Paulo. De acordo com Joesley, em 2010 foi pago 3 milhões e mais 100 mil como um “mensalinho”, em 2012 mais 300, dessa vez para a campanha de Gabriel Chalita, também do PMDB, para a prefeitura de São Paulo, e, por fim, mais 300 mil assim que assumiu a presidência. Além disso, Temer, segundo o delator, negociou 5% de propina após uma alteração a ser realizada pelo CADE.

16. Gilmar Mendes no corre pra Aécio: ministro interveio em votação do senado

Mais uma interceptação telefônica expôs o ministro Gilmar Mendes em conversa com o senador Aécio Neves (PSDB). O senador pediu para Mendes conversar com o também senador Flexa Ribeiro, de seu partido PSDB, para votar a favor do Projeto de Lei de Abuso de Autoridade. Por sua vez, o ministro disse que já havia convencido outros tucanos, Antonio Anastasia e Tasso Jereissati a votarem no PL, e prontamente falaria com Flexa.

17. A chamada “merda no ventilador”: delator diz que JBS financiou 1.829 deputados e de 29 partidos em 2014

Sim, parece surreal, mas é essa a informação do delator Ricardo Saud, executivo do Grupo JBS. De acordo com ele, foram 600 milhões de reais entregues de forma ilícita para candidatos à diversos cargos eletivos nas Câmaras estaduais e federais. Desses, 179 se tornaram deputados estaduais, e 167 federais, além de 16 governadores, de seis partidos, sendo quatro do PMDB, quatro do PSDB, três do PT, dois do PSB, dois do PP e dois do PSD. As informações foram divulgadas no blog do Fausto Macedo, em O Estado de S. Paulo.

18. O acordo de 11 bilhões

Esse era o valor pedido pela Procuradoria Geral da República para a J&F, pertencente ao grupo JBS, o equivalente à 5,8% do faturamento do grupo em 2016. Por sua vez, a J&F fez uma contraproposta no valor de 1 bilhão de reais, correspondente à 0,51% do faturamento do grupo em 2016. Por fim, a multinacional recusou o acordo.

19. O fim do governo Temer: partidos da base começam a abandonar o barco

Até o momento foram três: o PPS, o PTN e o Podemos, e por isso três ministros entregaram os cargos: Cultura, Defesa e Cidades. O PSB, por sua vez, fechou questão e irá votar por eleições diretas na Câmara. O PSDB, principal aliado de Temer, está novamente em cima do muro, porém já avalia uma saída à francesa, tentado manter seus ministros no poder, a fim de promover as “reformas” que ele construiu e Temer e Rodrigo Maia estão tocando.

20. O segundo pronunciamento: desespero no último fôlego

Hoje, dia 20 de maio, Temer foi à público novamente. E não renunciou. Ao contrário, acusou os executivos da JBS de “oportunistas” e “fanfarrões”, disse que eles praticaram um “crime perfeito” com as gravações, ganhando milhões ao manipular o câmbio e as ações. Disse que os áudios são fajutos e irá recorrer ao STF para invalidar a investigação, baseado em uma perícia técnica divulgada pelo jornal Folha de S.Paulo, em que apurou haver 50 edições no conteúdo do áudio.

BÔNUS TRACK

“Memes: a única instituição funcionando plenamente no Brasil”. Essa manchete do El Pais é a que mais representa esse momento. Mais alguns aqui. E outros mais que eu vou listar embaixo:

Publicado na Mídia NINJA