Novo prédio do De Braços Abertos marca vitória de política antimanicomial em São Paulo

Texto e Fotos: Sophia Noronha, colaboração: Laio Rocha

Inaugurado no último dia 21 de dezembro, o novo hotel do programa de tratamento de dependentes químicos era um manicômio para internações compulsórias

A gestão de Fernando Haddad (PT) na prefeitura de São Paulo chegou ao fim com uma das principais vitória do seu período: a luta antimanicomial. Em seus quatro anos à frente do município, o prefeito fechou todos os manicômios da cidade e implantou o programa de redução de danos De Braços Abertos (DBA), que obteve sucesso e reconhecimento internacional.

O encerramento de sua trajetória teve o ato simbólico de inaugurar em um desses antigos manicômios o segundo hotel do DBA na periferia, parte da estratégia de afastar as moradias concedidas pelo programa da região central.

Localizado em Nova Heliópolis, o local conta com 74 vagas de moradia, Centro de Atenção Básica e de Saúde Mental, Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas III (CAPS AD) e, futuramente, contará com uma Unidade Básica de Saúde (UBS), um CAPS Infantil III, entre outros. Além disso, possui uma cozinha industrial que será usada como frente de trabalho dos beneficiários.

Ex-secretário de saúde, Alexandre Padilha (PT) participou do evento.

Um dos objetivos da gestão do hotel é trazer a comunidade para ocupar o espaço em conjunto. A reinserção social é um dos principais pilares do programa De Braços Abertos e, portanto, é fundamental que o espaço não seja isolado do restante do bairro.

O evento de inauguração contou com a presença da rapper Luana Hansen, que cantou duas músicas homenageando as mulheres negras na luta contra o patriarcado. “O meu rap é de luta, o meu rap é de militância”, disse. Em seguida, outros grupos se apresentaram, como o grupo de zumba da UBS Sacomã.

O hotel recebeu o nome do psicólogo Antônio Lancetti, idealizador do DBA e participante ativo da luta antimanicomial, que faleceu no dia 15 de dezembro de 2016. A família de Antônio recebeu flores em sua homenagem durante a cerimônia.

A escolha do local se deu a partir de dois motivos. Primeiro, havia a demanda dos usuários do programa para que os novos hotéis fossem mais distantes do fluxo, pois isso facilita a diminuição do uso do crack. Além disso, a região central não é a única cena de uso da droga na cidade. O bairro de Heliópolis também possui um ponto de uso na rua. Por isso, parte dos moradores do hotel e outros que estão sendo encaminhados não vem da cracolândia, mas sim da própria região.

A “nova casa”

O prédio, no entanto, já abrigou um manicômio, encerrado há pouco menos de dois anos. Sob a gestão da Organização Social SPDM, o local chamava-se Unidade de Atendimento ao Dependente (UNADE) e comportava 80 internos, adolescentes e adultos, cada um com o custo mensal de R$ 11.687,50, um total de R$ 935.000, de acordo com dados da secretaria de saúde da prefeitura.

Esses valores eram repassados à OSS SPDM, presidida pelo psicólogo Ronaldo Laranjeiras, que também é coordenador do programa Recomeço, que atua através de internação voluntária e compulsória no tratamento de dependentes químicos da cracolândia.

Apesar do serviço oferecido aos usuários não estar de acordo com Política Nacional de Saúde Mental Álcool e Outras Drogas da Rede de Atenção Psicossocial, a prefeitura e o estado fecharam um contrato com a empresa de Laranjeiras no ano de 2013 com duração até 2015. Após isso a UNADE foi encerrada, todos os jovens e adultos encaminhados para outros centros de acolhimento e uma ampla reforma realizada no prédio.

Os novos moradores do local, por outro lado, tem o custo mensal de R$ 1.500,00 para os cofres públicos. Eles recebem semanalmente R$ 130,00 reais referente ao serviço realizado nas frentes de trabalho oferecidas pelo programa, que são 12 no total, sendo que a maior delas é a de varrição.